De: Rafael Cursino
Data:
Thursday, March 01, 2007 7:24 PM
Assunto:
Carnaval de São Luiz do Paraitinga

Caro prof. Abilio Guerra!!! Fico muito contente como luizense em receber críticas relacionadas a um evento hoje de primordial importância para a vida de nosso município, e, com certeza, é só discutindo que chegaremos a melhores caminhos. Fico feliz assim pela iniciativa e gostaria de apontar algumas discordâncias justamente para enriquecer o debate. Provavelmente repetirei argumentos já discutidos por meus conterrâneos nos tópicos anteriores, mas como se diz nunca é demais pensar sobre questões que dizem respeito a nossa comunidade e que necessitam de imensas reflexões haja vista o crescimento de nosso Carnaval.

Primeiramente sou um jovem pesquisador da área da História da Cultura e músico do Carnaval luizense. Queria – embora sabendo não ser possível totalmente – pelo menos tentar descer desta carapuça e falar a partir de agora como cidadão luizense especificamente.

Uma inquietação inicial que é latente na vida de todos nós luizenses é o crescimento exponencial do turismo de nossa cidade de uma forma geral. O âmago de nosso turismo é a questão cultural e sabemos quão complicada resolver a equação cultura X massificação, gerada pelo aumento do fluxo de pessoas. Mas aí já vai uma ressalva importante, o turista que São Luiz vem recebendo tem sido acompanhado de um interesse cultural importante, sabemos que sempre há exceção, mas como já dizia Nelson Rodrigues “a unanimidade é burra”. Há inúmeras pessoas ligadas a universidades, círculos culturais influentes, que tem freqüentado a cidade em várias oportunidades durante o ano, e fica complicado julgar nosso turismo apenas a partir de um fim-de-semana que é justamente aquele que recebe o maior número de pessoas e que a questão estrutural torna-se mais complexa.

Não estou aqui defendendo falta de água, sujeira na cidade, problemas estruturais que tem que ser resolvidos pelos poderes competentes só estou tentando mostrar que uma cidade que possui pouco mais de cinco, seis mil pessoas em seu núcleo urbano tem dificuldades em receber um público de vinte, trinta mil pessoas.... E qual a saída? Expulsar o turismo? Acredito ser difícil abandonar simplesmente uma das únicas saídas econômicas para um município alijado dos desenvolvimentos modernos do dito mundo tecnológico. Por isso importante refletir e discutir...

O que mais me preocupou no artigo foi a idéia de uma identidade cultural forjada de nosso Carnaval. Dói ouvir isso, falo em sentimento mesmo, pois pesquisador como o senhor é, fica fácil imaginar a dificuldade na atualidade de uma cidade preservar e reinventar tradições seculares: uma festa do Divino de mais de duzentos anos, manifestações folclóricas diversas: congadas, moçambiques; inúmeras festas culturais por todo seu espaço rural; uma tradição musical ímpar. E tudo isso sem apoio institucional, financeiro ou de qualquer outra forma, é a força do povo luizense que vem mantendo nossa identidade. O Carnaval nada mais é que um dos resultados de todo esse caldeirão cultural, resultado de toda essa tradição. Não se inventa uma festa de ontem pra hoje e principalmente se fossemos discutir toda a origem aqui, demoraríamos dias e sempre estaríamos enfatizando a força cultural e não invenção de marketing, garanto isso!!!

O Grupo Paranga e todas pessoas que estiveram diretamente ligadas ao início do Carnaval são diretamente ligados e inspirados em todas essas manifestações que acontecem no dia-a-dia da cidade. Uma questão importante também é que é natural que o Carnaval não represente aquele ideal de “caipira” que estamos acostumados a ressaltar. Já acredito ser complicado buscar uma forma de vida tomando como base um estereotipo como se fosse possível congelar uma forma de vida no tempo e buscá-la na atualidade. Com certeza não sobreviveria, o folclore não é algo estático e a cultura, graças a Deus não é algo estático. Isolada, retirada seja como se possa referir a São Luiz posso garantir em nossa cidade uma das cidades mais antenadas do vale do Paraíba.

Incomodou-me no artigo uma tendência a transformar tudo em comércio. Você tocou num dos pontos mais importantes o comércio é a instituição que mais necessita ajudar na organização do carnaval de nossa cidade e que não faz praticamente nada. Mas a chita não é vendida porque é um material descartável e que gere lucro, ela faz parte da identidade de nosso carnaval, tem correspondência nas fantasias e nos blocos. Não são só agentes imobiliários que recebem, os proprietários das casas recebem quantidades financeiras correspondentes a meses de trabalho de toda família. Organizar, buscar uma divisão melhor deste ganho ainda para a minoria, impor limites a este tipo de comércio ótimo... Afinal como seria possível uma cidade de dez mil habitantes possuir rede hoteleira com capacidade para várias vezes o número de seus habitantes para atender a demanda de um fim-de-semana.

São Luiz possui hoje um dos carnavais considerados um dos maiores do país. E obviamente seria primordial uma grande parceria, preferencialmente com uma empresa pública ou organização que não transforme cultura em retorno financeiro. Um benefício da lei Rouanet, estabelecendo uma aparelhagem de som de primeira linha, segurança profissional entre outras questões resolveria muito dos problemas. Mas julgar os músicos como jovens em tom negativo, não citando que a cidade possui uma fanfarra tri-campeã brasileira, uma corporação musical de mais de duzentos anos e cujas bases são de músicos jovens torna a questão no mínimo injusta. Idade dificilmente significa competência.... Não concorda? Aliás juventude envolvida na minha opinião pode ser a redenção, como se mantém uma cultura a não ser pelos jovens...

Não quero contestá-lo em sua argumentação mas provocá-lo em um ponto específico: “Será que se montarmos uma cidade cenário, com a melhor estrutura que se consiga, será possível fazer com milhares de pessoas cantem um repertório específico e exclusivo de marchinhas? É isso que acontece em nossa cidade com todos esses problemas e não se pode esquecer que são músicas produzidas ano a ano e que mostram mais a “cara” de uma cultura que aspectos chulos...

A conversa ficou boa e gostaria de continuar mas acho que já consegui expressar o primordial de minha opinião. Acho fundamental a forma como o senhor permitiu esse debate. Fez um artigo sério, deu a possibilidade de comentário e vem respondendo os comentários... É assim que conseguiremos uma cidade melhor e um Carnaval ainda mais feliz!!! Um forte abraço!

[Rafael Cursino, São Luiz do Paraitinga SP]