| De:
Abilio Guerra
Data: Domingo, 4 de março de 2007 13:40
Assunto: Resposta a Rafael Cursino
Caro Rafael Cursino,
Sua mensagem é
muito legal e demonstra o quanto a cidade de São Luís
do Paraitinga está engatada, com seus jovens intelectuais e artistas,
à vida cultural brasileira contemporânea. Algumas das questões
que você menciona já foram respondidas por mim quando comentei
mensagens anteriores. Como não sou um especialista em música
ou patrimônio histórico, o enfoque que dei ao artigo foi
em relação a problemas que vi em meio a uma cidade muito
bonita (como espero ter registrado em minhas fotos) e a uma comunidade
muito interessante (como espero ter deixado claro no artigo e nas respostas
anteriores). Mas gostaria de comentar algumas poucas coisas que seus
comentários me suscitaram. Em primeiro lugar, como já
disse anteriormente, não acredito em culturas organicamentes
enraizadas. A cultura humana é artificial e se transforma o tempo
todo. Manter algo vivo é na verdade ajustá-lo às
novas condições de existência. Só sobrevive
aquilo que se adapta ao novo meio (natural ou cultural), em constante
mutação. Em segundo lugar, quando me referi às
referências chulas das marchinhas, não fiz com qualquer
tipo de censura ou moralismo. As piadas, as escatologias, os palavrões
e as palavras chulas conformam um universo de resistência cultural
das camadas populares no Ocidente há muito tempo. Mikail Bakthin
nos mostra isso com magnífica profundidade quando fala do personagem
Gargântua, de Rabelais, perdido lá no século XVI
francês. E olha que dentre os hábitos pouco polidos do
gigante estava o de urinar sobre a população da cidade.
Ora, a própria essência do carnaval são as inversões
de valores, onde um reino provisório de alegria se instaura,
suspendendo os interditos "naturais" do poder em voga. Portanto,
não há o que censurar nas letras das marchinhas "paraitinguenses".
Em terceiro lugar, nada contra a chita, afinal como fantasia barata
e provisória está muito adequada ao espírito do
carnaval de rua. O que está evidentemente deturpada são
as luxuosas fantasias dos carnavais cada vez mais oficiais das grandes
cidades, onde as inversões decritas por Bahthin em processo aparecentemente
irreversível de esvasiamento. Por fim, nada tenho contra o ganho
honesto no comércio seja lá do que for. Meu texto apenas
apontou para abusos, facilmente detectáveis. Não é
aceitável que mais da metade de um aluguel fique com intermediários,
que sequer se responsabilizam pela qualidade da estadia. Não
é aceitável que haja um claro incentivo oficial por parte
do poder público para que as pessoas visitem as festas da cidade
e depois as deixem sem água e sem atenção. É
isso! Grande abraço e obrigado por sua mensagem muito esclarecedora.
[Abilio
Guerra, editor do Portal Vitruvius, é autor do artigo que origina
esse fórum de debates]
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