De: Celso Pazzanese (Pôla)
Data:
Friday, March 02, 2007 6:21 PM
Assunto:
São Luiz do Paraitinga e os parangas

Olás a todos,

Maravilha e oportuna essa matéria sobre São Luiz. Dá para ver pela acuidade no olhar do Abílio, até nas fotos da Silvana e dele, e pela quentura gentil do debate animado. É um lugar bonito, aonde ainda vale a pena pensar e fazer algo. Mas acho que faltou falar d'algumas coisas nos comentários, ainda.

Em torno de 1982/83, com a mesma idade do público atual e freqüentando o grande “Lira Paulistana” – tão importante para um monte de artistas etc. nos anos 1980 (século passado, é triste...) –, pois bem, topamos com um grupo de música pop-regional, chamado Grupo Paranga. Falaram tanto das coisas atuais e passadas da cidade e esqueceram deles? Tem a ver com essa história de manutenção da tradição, já que somos todos quarentões/cinquentões agora, os tais adultos responsáveis pelas coisas do mundo, tradição inclusive.

Pois bem: “os parangas” eram todos de São Luiz, tentando a vida artística aqui em Sampa de então, com um som delicioso, dançante e sofisticado, alegres, divertidos, bonitos, um astral tal que acabaram amigos dum monte de gente aqui. Nós incluso, que vivíamos nesse circuito.

Com alguns deles filhos(as) dum dos compositores mais reconhecidos da cidade, estavam fazendo um som moderníssimo de base regional, entre chorinhos e modinhas e mais um monte de fontes, pois que lá havia uma lira musical muito organizada e antiga. Era a partir dela que nascia aquilo, já que todo mundo que fazia música lá havia passado por ela.

Soubemos do carnaval de rua de São Luiz e para lá nos mandamos a ver. A festa era mais ou menos antiga, diferente, e estava sendo modernizada devagarinho, ainda com algum jeito. Foi uma delícia, animadíssimo, simples – e com um som ótimo –, um barato de fato e de direito, popular e não populista. E com uma comida de levantar defunto: lembro do bar mais incrível, servindo uns risólis “10”, com um molhinho de pimenta caseiro e umas brahmas triscando. Tudo servido na janela da casa (daquelas de guilhotina e veneziana), com uma tábua no peitoril e uns banquinhos na calçada. Um talento o casal.

O mais curioso é que todos tinham consciência do valor daquilo prá cidade, tanto como preservação da memória quanto como modernização efetiva – apoiada na profundeza e elaboração da tradição local, desenvolvida com técnica, instrumentos e reflexão contemporâneas. Foi bonito de ver. O que houve de lá prá cá? Alguém aí sabe dizer?

Minha filha e amigas(os), todos adolescendo solares e indo lá, também ficaram impressionados(as) com a quantidade de gente e o pouco preparo da cidade para receber todo aquele povo. Coisa da administração pública, sem dúvida alguma, pois é quem é responsável, quem responde pela coisa que é pública. Coisa de quem os sustenta, a sociedade civil local, que também responde pela existência dos responsáveis acima. Coisa de quem pensa e gosta de cidade, por isso que está no “Minha Cidade”. Não é nada pessoal.

Pessoal é um(ns) “levar vantagem” e o município se deixar depredar assim: deixarem rolar um "carnarock" do lado duma cachoeira é o que há, né não? É o próprio tiro no pé.

Nenhuma novidade, já em 1980 e poucos era prá lá de sabido e previsto, pois ocupou boa parte da nossa conversa lá, nas cachoeiras e nos bares, entre nós e com os cidadãos locais.

20 e tantos anos depois é chão, né não?

Atés,

[Celso Pazzanese (Pôla), arquiteto, São Paulo SP]