| De:
Chico dos Bonecos
Data: Monday, March 19, 2007 1:04 PM
Assunto: Viva
a moda
“No meu tempo os
jovens e suas famílias saíam fantasiados nas ruas. A vovó que estava
à toa na vida jogava água pela janela pensando que tudo era pra ela.
Naqueles tempos o primeiro bloco do carnaval oferecia um café da manhã
para todos da cidade, e olha que isso era umas sete da manhã. Há...
o carnaval começava ao meio dia, a criançada na rua inventava um monte
de brincadeira com qualquer coisa que aparecesse na rua, tudo era
meio mágico, sabe? Todo mundo virava amigo de todo mundo, e as músicas
não eram qualquer coisa não, não eram iguais àquelas outras feitas
só para vender, elas eram bem legais, tinha marchinha, congado...
Haaa...”
Quem escreveu isso
não foi o meu Vô, nem meu Bisavô e também não foi o meu pai. Fui euzinho
mesmo que escrevi: vinte e três anos, na quarta feira de cinzas do carnaval
de 2007, em São Luis do Paraitinga, casa 10, São Paulo, Brasil.
Quando uma coisa é
feita com verdade de coração mesmo, uma buzina basta para espalhar alegria
a milhões de pessoas. Um BIIII todo mundo pára, estátua e BI
BI todo mundo sai pulando e cantando “buzina pa-ra-li-za-dora”.
Não foram uma, nem duas vezes que o pessoal deu a volta na cidade, foram
umas onze (pelo menos eu contei só até ai). Tudo isso por causa de uma
buzina? Fique pensando com os meus botões:
– Se um alienígena
pousasse exatamente naquela cidade, naquela hora, ele não ia entender
nada: Um amuleto? O deus buzina? Um ditador? Tudo isso por causa de
um BIIIIIIIII?
Não, não é a coisa
em si. Se não fosse uma buzina poderia ser... uma vara de pescar...
um chinelo havaiana...um melão? Poderia ser tudo! Entende?
O ambiente que acolhe
este carnaval é especial, verdadeiro. Não é à toa que não teve briga.
Quem move o carnaval nesta cidade são pessoas que demonstram a paz até
quando estão paradas, encostadas no muro de casa, ou então até dormindo.
Peguei um jornalzinho lá que era pequeno para tanta mensagem de alegria,
respeito e amor. Não cabia mais de tanta emoção, nunca imaginava que
um pedaço de papel poderia ser tão poderoso assim.
Agora imagine um mundo
em que os jovens se respeitem, valorizem a cultura, e que são capazes
de se divertirem sem causar guerra. Pois é, EU vivi isso durante seis
dias e não estava sonhando. (Embora parecesse. Um sonho!).
Quanta coisa eu conheci
dessa cidade, vi que além do carnaval, a cidade tem lindas trilhas,
passeios de rafitng, tem a festa do divino também, que toca o Moçambique,
tem uma criação de saci pererê e a família daquele cara que minha vó
sempre canta a sua música quando esta cozinhando: “Fiz uma casinha branca
lá no pé da serra pra nós dois morar...” Elpídio dos Santos.
A cidade tem que crescer,
as pessoas que moram lá têm que saber tirar proveito desses recursos
antes que venha alguém de fora para fazer isso. Alguém de fora? E será
que será verdadeiro? Será?
Toda cidade cresce
se desenvolve, o ponto é saber crescer com consciência. E confesso que
é um ponto difícil, mas dá. O que não dá é criar uma cidade como um
peixe no aquário, você vai lá, olha, se diverte e vai embora. Dez anos
depois os peixinhos estão lá do mesmo jeito, vai pra lá, volta pra cá,
o barquinho pirata fica soltando bolinha, e sempre é tudo igual.
Isso me fez lembrar
uma história de um mestre de capoeira:
“Um acadêmico
renomado da capital foi até o interior da Bahia, em uma casinha bem
simples feita de barro, entrevistar Ô MESTRE de capoeira (ele já devia
ser o vigésimo intelectual a passar por ali só naquele ano):
– Mestre, é de
uma alegria imensa que estou aqui ao seu lado. Nem estou acreditando.
Uma lenda viva. Uma entidade. Sou um admirador seu e venho aqui para
fazer uma tese sobre o senhor, sua história, toda a sua luta, sua
dedicação. Essa tese vai te transformar em um mito, imagine só, daqui
a cem anos todo mundo vai saber quem foi o senhor, seus feitos, daqui
pra frente eu vou te transformar em um imortal.
O mestre, bem
velhinho já, tava com problemas de vista, bem fraco, quase não saía
da cama. Depois de escutar tudo o que o moço da capital falou, lentamente
o mestre levantou a cabeça e disse com sua voz já fraquinha:
– Ô, muito obrigado
senhor. Mas tudo o que peço a Deus agora, é que ele me dê certeza
de que vou ter algo para comer hoje.”
Criamos sem querer
nossos ídolos como se fossem peças de museu, deixamos no museu da
pobreza para servir de exemplo, como Jesus. Será que só estes são
os verdadeiros heróis? Tem que morrer na pobreza para que depois de
muitos anos você seja reconhecido e aí então falamos:
– É... um lutador
que morreu sozinho, sem ninguém. Na rua da amargura.
Não quero isso para
os meus ídolos, nem para meus mestres, nem para meus heróis e nem para
os meus amigos.
Quero que as pessoa
que eu admiro dentro daquela cidade de São Luis do Paraitinga (que devem
ser quase todas), se dêem bem na vida HOJE. Quero que usufruam do turismo
e de qualquer outros meios para conseguirem uma vida melhor . O que
acontece naquela cidade não é coisa de museu nem de resgate, é uma vida
dinâmica que se transforma e é transformadora.
Agora, se o carnaval
virou modinha, vai toda a moçadinha, cada dia enche mais só para ser
feliz. Desfrutar um pouco de alegria pura, de ver que todo mundo se
diverte sem brigar, que a galera toda se respeita. Isso virou moda?
Ser feliz virou moda? POIS ENTÃO QUE VIRE!!!!!!!!!!!!!!
Abração do Estêvão
[Chico
dos Bonecos, São Luiz do Paraitinga SP]
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