De: Pablo Prata
Data:
Tuesday, September 25, 2007 9:39 PM
Assunto: opinião sobre o artigo: "Territorialidades: uma outra escala urbana para Vitória" de Fabiano Dias

Prezados,

Venho dar minha opinião sobre o artigo: "Territorialidades: uma outra escala urbana para Vitória" de Fabiano Dias.
Vejo de forma muito incoerente com nossa realidade a construção de um aeroporto no meio da Baía do Espírito Santo, atualmente vitória é a 2ª capital brasileira em renda per capita (só perde para Brasília) isso reflete diretamente na desigualdade social que nos deparamos. A Praia de Camburi está em processo de re-urbanização, mas a qualidade da água apresentada nos relatórios de balneabilidade da PMV na maioria das vezes está imprópria para contato primário por quê? Porque a Grande Vitória tem uma péssima política de distribuição de renda e somente 15% de seu esgoto tratado. Isso sem falar na qualidade da areia da praia, que se for levada para análise saberam o risco que ela proporciona para saúde dos frequentadores, com certeza sua qualidade é pior que da água. Vamos deixar os problemas sócio-ambientais de lado e partir para o meio físico. A Praia de Camburi foi engordada artificialmente em 1999 (960.000 m³ de sedimento) devido um sério problema erosivo desencadeado na década de 70 com a construção do Porto de Tubarão, a dragagem do canal de acesso até 20m de profundidade interferiu diretamente na ortogonal de ondas fazendo estas convergirem para determinados pontos da praia, onde aumentavam em tamanho e transportavam o sedimento da praia emersa para a zona submersa.

Para acertar esse "erro" do desenvolvimento das indústrias da Ponta de Tubarão, nós contribuites pagamos uma fortuna durante mais de 20 anos de tentativas frear a erosão. A concepção de uma aeroporto dentro da Baía do ES é meio que absurda! Dá para fazer... dá sim! Só que o custo ambiental a inviabilizaria totalmente.... Se isso acontecesse de fato, toda hidrodinâmica da baía seria alterada, a baía ficaria com sua entrada bem menor, aumentando as chances de ocorrer uma ressônancia da onda de maré (aquilo que aconteceu no enroncamento do terminal de barcaças da CST), erodindo toda faixa de praia, sem falar no transporte de sedimento que seria totalmente alterado. A circulação de água ficaria ainda mais restrita, e a qualidade da mesma ficaria bem pior que hoje. Esse aeroporto como seria construído dentro das 12 milhas náuticas partindo-se da praia, estaria sob águas juridicionais brasileiras, isso iria gerar uma taxa absurda de acrescido de marinha, seria o aeroporto mais caro para Infraero manter, e o patrimônio da União iria arrecadar muito com isso! Tratando de aspecto paisagístico, ninguém gostaria de ir à praia e ficar vendo aviões decolando e pousando, já basta uma mega siderúgica soltando pó de minério!

A proposta de ampliação do canal de Camburi também é utopia. Neste local existe uma colônia de pescadores (população tradicional), e a União não iria abrir mão das taxas de aforamento que cobra dos moradores do entorno do canal. Nem vou argumetar as questões pertinentes hidrossedimentologia, e geomorfologia fluvial, porque o email vai se estender demais.

Não estou aqui só para criticar, sei que isso foi um exercício dado pelo prof. Willy Muller para vocês. A verdade é que trabalho no IEMA, e a quantidade de arquitetos que aparecem lá com projetos embaixo do braço que julgam ser bons ambientalmente é muito, e falo mais, nunca vi um projeto satisfatório. Muitos saem de lá enfurecidos, entendo que a profissão de vocês tem muito do conceber da arte, e se formos contrários vocês acham ruim. O problema é que as universidades não preparam profissionais por demanda de mercado infelizmente! Conheço vários arquitetos recém-formados que não sabem o que é área de preservação permanente, as famosas APP (ver Resolução CONAMA N.º 303/02), isso é péssimo para vocês, deixam de abocanhar uma fatia do mercado que está em alta, por falta de conhecimento mínimo de meio ambiente e legislação pertinente.

Nada contra, é só um recado que tenta contribuir para o profissional arquiteto.

Atenciosamente

[Pablo Merlo Prata - Oceanógrafo, Msc. Eng. Ambiental, Coordenador Estadual do Gerenciamento Costeiro - GERCO/ES, Instituto de Meio Ambiente e Recursos Hídricos - IEMA]