De: Daniel Paz
Data: Sunday, April 22, 2007 9:40 AM
Assunto: Comentário ao artigo 180

Oi, Letícia!

Bom ver um artigo seu, ou uma nota sua como preferir. Queria apenas fazer algumas observações, menos quanto ao juízo que estabeleces, e mais quanto ao Carnaval em si...

Você escreve: "Nos dois primeiros, o ritmo que prevalece é o Axé, estilo originado na Bahia há 20 anos e que detém um grande número de músicos e bandas." Entendo que você coloque "prevalece". Mas uma simplificação comum é denominar o tipo de "música baiana" de Axé, que tenho visto repetir-se ad infinitum (repito, não é o caso, mas acho bom marcar o espaço).

Primeiro, uma lástima geral, é acabar "perdendo" uma palavra bonita, com o significado bonito, que tem Axé. A outra, é que acaba colocando no mesmo balaio coisas muito distintas, cada um não só com suas próprias modalidades de dança, algumas grupais outras individuais, distinta penetração nos setores da sociedade e territórios seus, inclusive com reflexos no modo como se ocupa o espaço, em todas as escalas.

Muitos dos hits de verão são samba-reggae, ritmo que sagrou o Olodum. A partir do grupo GeraSamba, que depois chamou-se É o Tchan, e o Terrasamba, pelos idos de 1995, entrou na avenida o samba-de-roda. Que não se iluda: eles cantam samba de roda. Muda a forma da performance, mas ainda é samba-de-roda. O que o Harmonia do Samba e seus sucedâneos tocam é um ritmo novo, que na Bahia se chama de "pagode" (com pouca relação com o pagode carioca), e em Brasília (creio), de "suingueira". Nos últimos 3 anos, a ascensão do "arrocha". Há espaço para afoxés e outros ritmos de origem africana. O que Armandinho e Moraes cantam é um tipo de frevo que vicejou na Bahia nos anos 70.

Essa miscelânea se torna ainda mais complexa quando: a) as bandas pulam de um ritmo a outro com facilidade e b) existem músicas e músicos (como Gerônimo) que transitam nessa fronteira movediça. Os ritmos, hoje, mais populares em Salvador, são o pagode e o arrocha. O Axé Music - que podemos entender como as coisas, no geral, tocadas pelo mainstream do Asa de Águia, Chiclete com Banana, etc - são músicas mais restritas, nesse sentido. São músicas "de carnaval", enquanto as outras são músicas "de festa". São conhecidos por divulgação em programas de TV do eixo Rio-São Paulo, mas não são a "cara" das festas populares de Salvador - basta ir a uma lavagem, como a de Itapuã, para conferir isso.

Creio importante salientar a diferença porque tem sido muito comum para mim perceber essa negligência em compreender a diferença entre um e outro. Seria como considerar todos os sambas idênticos - um samba "romântico" não se dançaria no Sambódromo, por exemplo, isso dentro de uma variação pequena, menor do que a que existe no carnaval de rua de Salvador. Rotular tudo de Axé Music é ignorar o que acontece, lançar um rótulo que ofusca e acabar não atentando para fenômenos cruciais na música popular (mesmo) baiana, como foi a ascensão, em sequência, do samba-de-roda, do pagode baiano e do arrocha.

Porém, aqui toco em pontos que julgo mais pertinentes ao texto: "Mas, o mais surpreendente é ver como o tradicional carnaval adquire novos rumos nos dois primeiros circuitos, que são os mais famosos. Não é uma mistura da cultura baiana com o carnaval tradicional, é um novo e espetacular carnaval que surge, que não se resume apenas ao novo ritmo do Axé, e sim a uma outra forma de se festejar."

Não compreendo ainda porque o novo carnaval espetacular não é uma mistura da cultura baiana com o tradicional. Pelo contrário, isso está fartamente historiografado, "desde o tempo da velha fobica". O trio elétrico, para o melhor e para o pior, é invenção baiana, junto com o famoso "pau elétrico". Ganha corpo e escala com o passar dos anos. Caetano teve seu trio, a Caetanave. Uma vez consolidado o trio como aparato e formato, aconteceu justo o contrário: a exportação (ao meu ver, para pior) de um know-how, tanto tecnológico quanto técnico, tanto da parafernália quanto do artista, para cidades do interior (nas micaretas) e outras grandes capitais (Recifolia, Carnatal, Fortal, etc.). Independente do que se pode pesar do fenômeno, ele é uma emergência, uma transformação, endógena, quase que absolutamente.

E o Carnaval baiano é espetacular, no sentido de ser vistoso (não no debordiano), desde muito tempo. Talvez desde que tenha surgido. O trio elétrico catapulta isso para outras condições. Que, observe, tem sua riqueza: como já apontado por Marcos Paraguassu, o trio consegue reunir o formato do cortejo (quando é aberto), do desfile (quando é fechado) e do evento-concentração (quando pára no Farol da Barra e no Campo Grande). É um instrumento versátil e aberto a muitas possibilidades.

O trio, em si, não é exclusivo, que o diga os trios sem corda, como eram originalmente e como existem muitos hoje em dia, remanescentes (o de Armandinho) e novos (o de Daniela e o de Gil). O que modificou sensivelmente a forma de operação não seja o aparato técnico, mas administrativo: o surgimento dos Blocos de Carnaval, como aponta Paulo Miguez. Iniciando-se em 1978, com o Camaleão, que é a vinda da classe média e média alta, organizando o formato de maneira a ter lucro, com características organizacionais próprias. De novo, Miguez é referência nisso, e ele avança para a diversidade do comércio informal, dos tipos de bloco (de índio, travestidos, afro, etc.), o que vai tecendo um panorama mais instigante e, a meu ver, mais próximo da realidade.
Ainda: "Imensos trios elétricos, som eletrizante, blocos não mais "sujos", mas sim com centenas de "arrumadinhos", camarotes para os "vips", que nem mesmo querem colocar os pés nas ruas. Um espetáculo que acentua as diferenças em uma festa onde antes prevalecia a mistura, onde todos estavam no mesmo patamar, pulavam, cantavam e festejavam juntos."

Isso, infelizmente, não é verdade. Bate com uma visão ideologizada do Carnaval dos anos 70. Acho um erro e um risco criar imagens "douradas" do passado. O Carnaval dos clubes e salões existiu durante muito tempo, e os camarotes atuais podem ser lidos como o refluxo da maré, o retorno da lógica dos salões, em tempos internéticos. Sobre os salões do passado, Caetano se refere a eles quando diz "todo mundo na praça, e deixa a gente sem graça no salão".

O Carnaval baiano tem origem não só em um Carnaval popular como um outro de elite (como também no Rio, por exemplo). Este último com bailes privados e desfiles dos "corsos", "préstitos" e "pranchas", onde a burguesia ia em carros alegóricos e fantasias, e onde havia uma distinção nítida entre espectador e desfile. Há vídeos históricos mostrando isso (creio que de Alexandre Robatto). Para tanto, é preciso distinguir o desfile, onde há quem passa e quem assiste, do cortejo, onde os dois não se distinguem, e todos podem acompanhar (daí o equívoco, ao meu ver, de considerar o Galo da Madrugada um bloco... já que todos podem fazer parte dele... não se pode mesclar o Gandhy com o Galo por essa distinção de acesso).

De todo jeito, o desfile é uma modalidade de uso da rua antiga, independente de suas conotações. Então, todos não estavam no mesmo patamar. E rico sempre arranjou um jeito de estar entre os seus, em salões ou cordas. Duvido que isso mude. Prefiro, claro, que fique no camarote, deixando mais espaço para o folião pipoca.

Essas ressalvas faço para que as análises não sejam, no afã de um julgamento de outro caráter, precipitadas, ignorando os dados, passados e presentes.

E aqui rendo ainda um tributo a um belo trabalho, chamado PEC - Plano de Estruturação Físico-Ambiental do Carnaval de Salvador, conduzido pelo falecido professor Manoel José de Carvalho, junto com alunos da Faculdade de Arquitetura da UFBA, em parceria com a Prefeitura Municipal de Salvador. Não foi publicado e publicizado como deveria, mas foi o norteador de mudanças significativas na gestão espacial do evento durante três anos, e há coisas até hoje que seguem propostas que eles fizeram. Muito (quase tudo) do que levantei aqui foi fruto do convívio e experiência com a equipe, que me convenceu de que o Carnaval é algo muito mais complexo e rico do que (a)parece nas análises (não me refiro só a esta, mas a uma série de outras, ao longo dos anos) que, de um jeito ou de outro, com um termo ou outra, acabam por concluir que há segregação (racial, social, espacial, etc.). E que, ao meu ver, não deixam de ser verdade, mas não se aprofundam mais na dinâmica do fenômeno. Hoje, estou convicto que essa não é só a única lente possível, como acaba por restringir a sua compreensão.
Posto isto, isto posto, concluo aqui.

Beijos, de seu amigo

[Daniel Paz, Arquiteto e Urbanista, Salvador BA]