De: Ellen Assad
Data: Saturday, May 05, 2007 1:57 AM
Assunto: Resposta a Angela Gomes

Adoro fotografias. Fotógrafos que revelam a realidade muitas vezes além dela mesma, desvelam, e como você disse fragmentam, abstraem, recriam...

Também nada contra vidros, permitem a transparência, a leveza. Nenhum material ou instrumento tem por si só, intenções, apesar de algumas propriedades que delimitam.

Como bem disse o Fabiano, o problema não está no material, mas como este é usado, assim também é a fotografia - lirismo, denúncia, estética, crítica, arte...

Na arquitetura as coisas também funcionam assim, tudo em função de um jogo de escolhas. Um jogo de segura e solta - as escolhas que seguramos nas mãos e as que deixamos por outras prioridades.

A arquitetura de forma alguma pressupõe a exclusão ou espetáculo, como a fotografia não pressupõe a falta de reflexão. Usei o material como metáfora. Nesse caso, na Enseada do Suá (fenômeno que também se repete em outras cidades do mundo), o espelho se torna o símbolo de uma arquitetura de espetáculo que contraditoriamente reflete a cidade a sua volta e a ignora, exclui. Com a mesma lógica uma série de edifícios está sendo construída ali.

Há muito pouco tempo reclamávamos do vazio que imperava naquela região. Da ausência ao excesso.

Deixo um texto do Nuno Ramos pra reflexão.

"Tudo o que reflete some. Não vemos o espelho, apenas o que nele se reflete. Se o espelho estiver sujo, veremos a sujeira sobre ele depositada e não veremos tão bem as imagens refletidas. Quanto mais impura e opaca a superfície, mais identidade ela própria ganha. Toda superfície, no entanto, reflete de algum modo a luz, ou não seríamos capazes de enxergá-la. Há algo de espelhado, de invisível portanto, em tudo o que vemos: aquilo que é refletido, a luz que abre os objetos. Se todas as coisas refletissem como espelhos, viveríamos num mundo de relações ininterruptas: tudo remeteria a tudo, como quando pomos um espelho em frente ao outro (mas como seria monótono). A identidade de um objeto depende antes de mais nada de sua opacidade. É ela que o separa dos demais e guarda para si suas propriedades. (...)Quanto mais reflexos, menos propriedades tem um objeto, menos ele se distingue dos demais. A conclusão a que chegamos tem sabor de paradoxo: quanto maior o número de reflexos, mais relações um objeto produz e quanto mais relações, mais semelhante ele se torna."

[Ellen Assad é autora do artigo que origina este fórum de debates]