De: Euclides de Oliveira
Data: Monday, May 07, 2007 9:33 AM
Assunto: Minha cidade - Porto Alegre

Caro colega Flávio Kiefer, ainda não consigo acreditar que deixaremos de ir ao "Centro" por causa da "Web" ou cousa que o valha; nossa civilização emergiu das vilas neolíticas e pelo fato de convivermos em cidades foi que aconteceu toda a aventura humana sobre a Terra. Se amanhã, por acaso, não formos mais ao Centro para trabalharmos, iremos lá, com certeza, para assistirmos a um concerto, uma ópera, uma peça de teatro, um bom chope ou mesmo para um cafezinho numa esquina qualquer.

O Rio de Janeiro passou pela mesma tragédia que ameaça Porto Alegre; na década de sessenta, o malfadado governador Carlos Lacerda criminosamente (não há outro termo para o fato em questão) liberou os gabaritos da cidade, destruindo assim o Rio admirável de Pereira Passos, Paulo de Frontin, Alfred Agache, Affonso Reidy, Lúcio Costa e tantos outros urbanistas que procuraram adaptar seus planos à paisagem magnífica do lugar.

Já São Paulo, onde moro, vi-a transformar-se nestes anos de neoliberalismo em uma cacofonia de ruas repletas de edifícios bizarros onde predomina o "brega-kitsch" e o transporte individual enlouquecido, com suas "vans" blindadas e outros modelos de automóveis fedorentos que enfeiam e poluem a cidade.

Aqui nesta metrópole temos, há muito tempo, a chaga urbana dos condomínios fechados, horizontais ou verticais, que nada mais são do que a expressão física da vontade das classes altas (as "elites brancas", como diz o governador Claudio Lembo) de se segregarem espacialmente do restante da população e, por consequência, da própria cidade. As incorporadoras e corretoras abocanharam este filão de ouro e, sob o pretexto de uma duvidosa segurança, criam conjuntos a cada dia mais sofisticados, transformando-os em verdadeiros clubes, com piscinas, quadras de esportes, "porte-cochères", espaços "gourmets", academias de ginástica, "ofurôs" e o que mais possa passar pela cabeça de seus enlouquecidos corretores. São estes os verdadeiros destruidores da urbanidade, das práticas sociais e culturais da cidade, do papo no café ou no bar da esquina, dos encontros casuais, do confronto das diferenças, da história do lugar, etc.

Já os condomínios horizontais (onde os pobres só entram como faxineiros ou jardineiros) contam com com clubes, escolas, universidade, segurança e administração próprias e me pergunto se, no futuro, não contarão também com um exército particular.

Sabemos que tudo isto é fruto da imensa desigualdade social reinante neste país, mas assim ruas, praças e bairros vão esvaziando-se paulatinamente, fecha-se o comércio de vizinhança, erguem-se "shopping-centers" um atrás do outro e a vida urbana, tão rica na diversidade que lhe é própria, vai aos poucos se esvaindo, surgindo, em seu lugar, um modo de convivência social exclusivamente privado, elitista, preconceituoso, o modo dos "bacanas", que estão se "lixando" para a sua cidade; isto sem mencionar o avanço interminável dos seus enormes loteamentos fechados sobre a natureza, o meio-ambiente, levando a poluição à zona rural, destruindo a adequada relação que deve existir entre a cidade e o campo, liquidando com a paisagem silvestre.

Caro colega, eu pessoalmente não enxergo outra maneira de agirmos contra tudo isto que não seja botarmos a boca no mundo, falarmos para estudantes e recém formados que arquitetura não é isto que vemos hoje, urbanismo também não. Quanto aos "Centros", bem sabemos que a sua revitalização passa pela recuperação de sua função habitacional, principalmente dirigindo os esforços para a recuperação de prédios abandonados para moradia dos sem teto; centros culturais, de artezanato, museus, espaços de eventos, nossos centros já os têm de sobra; falta apenas sua ocupação habitacional conforme uma política habitacional solidária e responsável.

Abraços.

[Euclides de Oliveira, arquiteto, São Paulo SP]