De: Euclides de Oliveira
Data: Monday, May 14, 2007 6:02 PM
Assunto: Minha cidade - Porto Alegre [2ª mensagem]

Caro Flávio,

Aristóteles dizia que a cidade era o ambiente natural da humanidade, devendo ser aperfeiçoada continuamente para que nela o homem pudesse desenvolver plenamente sua vocação social e política; evidentemente nem sempre isto aconteceu (pelo contrário, ao longo da História elas foram constantemente destruídas por guerras, invasões, saques...) mas grande parte do nosso legado cultural permanece nelas ou em suas ruínas. As cidades constituem-se em locais de ritos sociais, mitos, símbolos de uma determinada cultura; não é a toa que elas eram e ainda são arrasadas por seus conquistadores nas guerras, para assim destruírem a identidade dos povos subjugados; ou seja, a cidade deveria ser um valor em si a ser preservado e aperfeiçoado.

Nossas cidades, até o princípio do século passado seguiam o modelo da cidade européia tradicional, compacta, coesa e agregadora (como era natural, pois fomos colonizados por europeus); com o advento do automóvel (a praga do século XX) passamos a seguir o modelo da cidade norte-americana, com a extensão indefinida dos subúrbios sobre a paisagem silvestre e o campo. Este modelo de desenvolvimento urbano é que gera a segregação, a descontinuidade da tessitura dos bairros e a falta de articulação destes com o Centro (Lisboa, por exemplo, tem um perímetro urbano definido que só pode ser alterado quando quase que totalmente preenchido).

Foi somente depois do auge do modernismo que começamos a perceber que as cidades deveriam desenvolver-se respeitando suas estruturas históricas e que somente através do transporte coletivo, com a eliminação do veículo particular, poderíamos humanizá-las novamente; mas esta será uma briga feia, contra a indústria automobilística e as empresas gigantes do petróleo – ao nosso favor temos a degradação da atmosfera do planeta e o aquecimento global a serem detidos (em Nova Iorque apenas os ricos possuem automóvel, a grande maioria da população só anda de transporte coletivo e, quando precisam sair de Manhatann, alugam um veículo qualquer).

Quanto aos paulistanos precisarem ir ao centro, aqueles que curtem um bom teatro, um concerto, uma ópera ou mesmo o chope mais bem tirado da cidade (bar do Leo, na Rua Aurora) este ainda é um ritual obrigatório – e depois porque não jantar no “La Casserrole” olhando as bancas de flores do Largo do Arouche? A classe média ainda faz suas compras no centro, principalmente de roupas, calçados e eletrodomésticos, pois os preços são muito mais em conta do que os dos “shoppings” dos bairros burgueses onde apenas as "elites" entram para consumir (tirando os cinemas, é claro); o mecadão central ainda é (reciclado pelo Pedro Paulo Saraiva) um local de enorme afluência de público, não só para as compras mas também para comer um bom pastel de bacalhau ou um enorme sanduiche de salame.

Acho que os valores que temos de proteger, ou melhor, recuperar, são os de uma cidade aberta para a diversidade, para o encontro, para a necessária convivência, no mesmo espaço urbano, de diferentes classes sociais, onde possamos caminhar, passear convivermos com o outro. Será isto possível numa economia neoliberal? Se tivermos vontade política acho que sim, já se vê em vários países pelo mundo afora (por aqui, temos a Venezuela, a Bolívia) uma reação contra o “mercado global” e a mídia capitalista culturalmente uniformizante e imbecilizante.

A história da humanidade é a da luta do trabalho contra os “senhores”; os de escravos, os da terra e da guerra, os da indústria, os do dinheiro, e esta luta continuará enquanto nossas sociedades forem assim tão injustas, abrigarem tanta desigualdade. Permita-me, caro Flávio, encerrar estas notas citando Martin Buber que nos diz ser impossível alcançarmos a plenitude da existência enquanto ao “outro” for negada a condição de sujeito e parceiro da História. E eu acho que isto só será possível dentro de uma cidade.

Um abraço.

[Euclides de Oliveira, arquiteto, São Paulo SP]