De: Sylvio de Podestá
Data: Tuesday, January 22, 2008 1:53 PM
Assunto: Texto 201 - Duas histórias e um presente improvável

Caro Wellington,

Ainda na época do governo Aureliano Chaves, eu estudante e para sobreviver, fazia desenhos em perspectiva para o mercado imobiliário e afins. Nesta época fui contratado por uma firma que prestava serviços para este governo para executar desenhos de pontes sobre a linha férrea e rios da nova estrada para Ouro Preto. Qual era a novidade? Todas elas deveria ser pintadas de verde (algo como verde folha) para melhor se inserirem na paisagem do caminho.

Escondia-se assim duas formas de burrice: uma, o péssimo desenho das pontes, resultado apenas de estudo de resistência e tráfego e outra, uma tentativa frustada de interpretar com as razões devidas o que é modificar a paisagem com critério e sapiência. O homem sempre modifica a paisagem, para o mal ou para o bem, e sempre dá nomes pomposos a estas modificações.

Vejamos então uma destas tentativas nominada Linha Verde a que você se refere. Junte a ela o eterno, e ainda em andamento, alargamento da avenida Antonio Carlos. Quando isto se aproxima de “uma ecologia infra-estrutural suavemente reconfiguradora de passagens em lugares”?

O quanto isto é semelhante às eternas cicatrizes urbanas que há décadas andamos recebendo de nossos governos em prol de veículos individuais, sabedores que são de que estas enormes intervenções não passam de rearranjos temporários, antidemocráticos e que seu custo equivaleria a vontades coletivas e com tempo de carência infinitamente maiores.

Imagine então que desde tempos outros existem pessoas provocando este tipo de discussão e jamais sendo ouvida por nossos governantes ou coisa parecida.

Imagine então que poderíamos estar lá na frente, ainda errando, claro, mas com chance de concertos mais flexíveis, dando continuidade a um pensamento de base consistente e repassando, com seus ajustes, para outras gerações.

É muita imaginação! Mas como bem disse, também possível. Veja a Linha Verde, ninguém ainda pensou em pintar seus inúmeros viadutos de verde. Melhoramos?

Desde a década de 70 venho tentando inventar uma tinta que transforma os objetos em objetos transparentes, não percebidos, remetidos ao limbo. Não consegui até agora e acho que não vai dar certo. O Papa acabou com o limbo e os americanos criaram o projeto Stealth que andam testando no oriente e, um dia, sua tecnologia estará sendo utilizada nas suas grandes caminhonetes (individuais) para burlar mais uma vez a emissão de CO2.

Pare de imaginar. Nada disso é improvável ou utópico.

É muita imaginação! Custo? Algo em torno de 2 bilhões. Linha Verde e Centro Descentralizado Administrativo de Minas Gerais. Pagaremos para ver.

Até

[Sylvio de Podestá, arquiteto, Belo Horizonte MG]