| De:
Sylvio de Podestá
Data: Tuesday, February 26, 2008 3:47 PM
Assunto: Olinda
Prezada Eliane,
Não sou nenhum
João Cabral nem tampouco Joaquim Cardozo, duas incríveis
personalidades da expressão verbal, mas me arrisco e escrevo
que foi do alto da Sé que admirei pela primeira vez uma estranha
e bela caixa d’água onde no passeio próximo se vendia
troncos cidades ou pequenas vilas. Perto dali, na descida da Ladeira
da Sé, sentado tomando cervejas, vi o por do sol por detrás
da Cidade do Recife e ao lado, Elba Ramalho em um apertado shortinho
de jeans, dava seus primeiros passos para se transformar em musa nacional.
Estudava arquitetura
meio que empurrado e precisei deste nordeste brasileiro para levar um
tapa, perceber que cidades são feitas de mamoeiros por acaso
entre altos coqueiros, edifícios velhos entre vazios, sinos e
torres; ladeiras e becos, uma suave graminha crescendo entre as pedras,
musgo nas paredes e estas muitas camadas de cal sobrepostas.
Bicas urbanas (em
frente a bica de São Pedro, Varadouro, vi uns meninos admirando
os biquines das gringas que levemente cediam com a força da água,
único banho em época de carnavais intensos). Também
acompanhei alguns blocos, fundei um de imediato que não durou
meio carnaval, o da camiseta; quase fui preso depois do cheirinho da
loló que emanavam dos braços do boneco polvo; tentei um
frevo lá em baixo, na primeira praça, do Carmo acho, numa
espécie de restaurante clube do frevo; dormi com os pernilongos
em serenata eterna nos fundos de uma casa de uma amiga que pertencia
a Oficina Guaianases de Gravura, do João Câmara; bebi lá
na divisa, nas margens do Capibaribe, vendo Olinda de longe. Também
de perto, tentando com pedras amontoadas, se defender das mordidas do
mar. Nestes muitos carnavais, o Bacalhau do Batata, ainda adolescente,
horrorizava as quaresmeiras deste imenso país católico.
Desenhamos muito por ali. Nos embriagamos muito por ali, algo como nosso
patrimônio imaterial, meio mamulengo meio pão de queijo.
Tudo isto para lhe
dizer que fico aqui “torcendo, desde já, para voltar muito
em breve. Sou mais um que foi preso pelo teu visgo”.
[Sylvio de Podestá,
arquiteto, Belo Horizonte MG] |