De: Pedro da Luz Moreira
Data: Friday, March 21, 2008 8:34 PM
Assunto: Sobre artigo de Luiz Fernando Janot

Meu Caro Janot:

Parabéns pelo brilhante artigo, que traz considerações importantíssimas sobre a cidade que estamos construindo de forma inconsciente e desarticulada, apenas referenciada pela segurança. O problema do desenvolvimento de uma cidade segura é hoje central para vários segmentos de classe, a violência atinge hoje de forma muito mais cruel às classes menos assistidas. A favela que já foi uma alternativa para as classes populares, hoje começa a representar um problema que várias vezes constrange a mobilidade e a integridade das pessoas nestas comunidades. A favela, que era uma resposta inteligente e sensível à ausência de uma política habitacional montada pelo poder público, hoje vem sendo dominada por segmentos - milícias e tráfego de drogas - que geram constrangimentos diários a qualidade de vida de seus habitantes.

Acredito que este problema deveria estar sendo debatido mais intensamente pelos arquitetos, que deveriam estar preocupados em desenhar alternativas a esta situação. Acredito também, que a insegurança urbana transcende muito a questão da gestão do espaço, como bem colocado no artigo, mas que ela também é consequência de uma ausência de políticas públicas capazes de dar respostas as formas de construção da cidade, hoje hegemônicas. Existem para mim dois eixos muito claros relativos à construção da cidade, que deveriam estar sendo atacados para se reverter esta forma de operar hegemônica.

O primeiro, se refere a questão da mobilidade urbana, que deveria ser construída por uma política de transporte público, articulada e integrada, capaz de garantir acesso à "urbanidade" mencionada no artigo. Apenas quando for garantida um amplo acesso, com tarifas acessíveis a todas as partes do território das nossas imensas regiões metropolitanas, pode-se falar num equilíbrio de oportunidades entre os vários segmentos de classe. O segundo eixo se refere a uma política habitacional diversificada, que atue não só na urbanização de favelas, mas também promovendo outras operações como a construção de moradias em áreas já infraestruturadas. A habitação multifamiliar em suas variadas articulações (edifício de apartamentos, vilas, etc...) é um tema que vem sendo nos últimos anos menosprezado pelo sistema de pensamento profissional, que tendeu a se concentrar sobre uma certa espetacularização monumental da arquitetura.

Enfim, se conseguirmos reverter estas práticas hegemônicas na construção da cidade, nestes dois eixos de atuação, acho que começaremos a promover a construção de uma cidade mais segura, que garanta acesso a uma ampla urbanidade.

Grande abraço e parabéns mais uma vez do amigo.

[Pedro da Luz Moreira]