De: Euclides Oliveira
Data: Saturday, April 12, 2008 8:38 PM
Assunto: Cidade do México - A torre do bicentenário

Prezado colega Humberto Ortiz; ao ler o seu excelente artigo sobre o "arranha-céu" a ser construído em Lomas de Chapultepec, na Cidade do México, não pude deixar de recordar um outro artigo recém publicado no Vitruvius ("O Caminho Niemeyer e a nova face de Niterói", Arquitextos n. 095), de autoria de Luis Fernando Janot, que abordava o mesmo tema, embora de maneira mais genérica. Em resumo, referia-se ele às municipalidades que, para se inserirem no “mercado global”, tratam de erigir vistosos monumentos arquitetônicos que possam se constituir em referência universal do lugar, às custas de solucionar os problemas urbanos reais de suas comunidades. Para isto, arquitetos do “Star-System” mundial são contratados a peso de ouro a fim de deixarem sua “marca”, muitas vezes bizarra e escandalosa, na cidade que os convocou.

Lamento principalmente que isto esteja acontecendo em um país com uma tradição cultural tão vasta e significativa como o México, e logo pelas mãos do Rem Koolhaas, que considero apenas um oportunista ambicioso com algum talento e muita habilidade em seu “marketing” de “Super-Star”.

Mas veja arquiteto Ortiz, no Rio de Janeiro, há alguns anos atrás, um sátrapa desvairado (o prefeito César Maia) contratou o Jean Nouvel (outro oportunista histórico) para fazer o projeto da sede do Guggenheim no Brasil; pois bem, ao vir ao conhecimento público o estudo do museu (muito infeliz, uma mescla de folclore kitsch com um “high-tech” exibicionista), a revolta no meio arquitetônico foi tal que nosso alcaide desistiu da empreitada, mas não sem antes pagar cerca de 2 milhões de dólares ao colega francês por um estudo preliminar em um país onde se paga 10 mil dólares pelo projeto de arquitetura completo de um grupo escolar. A verdade é que há uma mitificação injustificada destes arquitetos “globais”; eu, por exemplo, não trocaria uma ponte do Robert Maillart por cinco do Santiago Calatrava.

Quanto à miséria humana (esta sim, global), que você contrapõe ao desperdício brutal de recursos em arquiteturas supérfluas, o que dizer a mais sobre tal questão? Vivemos em um planeta onde dezenas de milhões de seus habitantes padecem com a fome endêmica, onde a cada 5 segundos uma criança morre por desnutrição grave, o que resulta em 12 mortes por minuto, perfazendo um total de 720 por hora e, conseqüentemente, 17.280 por dia, ou sejam, mais de 6 milhões de óbitos por ano (fonte: "Médicos sem Fronteiras").

Quanto à torre do bi-centenário, faço votos para que os arquitetos da Cidade do México consigam unir-se e demover o seu prefeito desta aventura “gobal” e elitista.

Boa sorte,

[Euclides Oliveira, arquiteto, São Paulo SP]