| De:
Pedro Moreira
Data: Friday, April 25, 2008 7:52 PM
Assunto: Antes que Norman e Zaha cheguem...
Como leve adendo ao
excelente artigo de Humberto González Ortis e ao comentário de Euclides
de Oliveira, gostaria de fazer uma observação em relação à “inspiração”
de Rem Koolhaas para este Monumento - já que dentro do “star
system” internacionalmente estabelecido já existe certo consenso de
que o foco de concentração deixou de ser o que bobamente costumávamos
chamar de “Arquitetura”. As palavras de ordem são “Ícone” ou “Monumento”,
e ainda não sabemos como qualificar tais “Edificações” (de alguma maneira
o termo ainda se aplica...).
Parênteses necessário:
o culto colega Rem Koolhaas é certamente um dos mais significativos
e influentes “pensadores” da Arquitetura nos últimos 35 anos, e desde
sua aparição no cenário internacional sua posição caracteriza-se por
um processo de analítico elaborado dentro de um Laboratório Coletivo.
Já o seu célebre livro “Delirious New York” (1978) utiliza-se do recurso
da Colagem – entendida aqui instrumento técnico herdado do dadaísmo
- para a apreciação crítica do mundo construído. Esta mesma estratégia
transparece na maioria dos projetos de seu escritório OMA, como procedimento
consciente e constante. Com suas 1.300 páginas, o arquivo “S,M,L,XL”
(1996) rapidamente tornou-se a bíblia de qualquer candidato a estudante
de Arquitetura ou Design Gráfico, de Honolulu a Calcutá.
Aqueles que tiveram
a oportunidade de acompanhar o holandês em São Paulo e vivenciá-lo em
ação confirmarão: Rem Koolhaas mostrou-se enormemente surpreso e embasbacado
com esta cidade, e impressionado ao “descobrir” (como Colombo e Cabral)
certas obras-chave da Arquitetura Brasileira. Entre elas, o Edifício
da FIESP na Avenida Paulista, de Rino Levi. Ou o Bloco Esportivo
do SESC-Pompéia, que foi rapidamente canibalizado na Embaixada da Holanda
em Berlim... Bo Bardi meets Libeskind. Admirável Mundo Novo.
Da mesma forma que
colecionou guloseimas visuais e estatísticas nas Mega-Cities asiáticas,
em Lagos-Nigéria, ou para sua BRILHANTE estratégia de inserção mercadológica
no mundo árabe, com o livro “Al-Manakh” (2007), Koolhaas, em sua primeira
viagem ao Brasil há poucos anos, não perdeu a chance de recolher impressões
e farto material de referência, a ser uzilizado em momento oportuno.
Brasileiros, tenhamos um pouco de paciência até a economia local atingir
níveis mais próximos aos do mundo globalizado.
Voltemos à Torre
Centenário para a Cidade do México e tentemos, com um mínimo de
fantasia, reconstruir algumas das pegadas do mestre e seu produtivo
time:
- Para começar, os
interesses do cliente: 100, 300 ou 500 metros de altura? Bem não vamos
exagerar, com 500 metros os caras podem ir à bancarrota e não vão nos
pagar. Mexico City não é Shanghai. E temos também que pensar na sustentabilidade...
- Em seguida, o Fator
Político, porque o mundo funciona de maneira bem compreensível: seria
conveniente mencionar as pirâmides de Chichén Itzá como herança cultural,
fator de identificação e integração nacional, e reverência ao patriotismo
local.
- Problema: uma só
pirâmide, caracoles, isso já fizeram em San Francisco!!! Mas se usarmos
DUAS pirâmides, isso nunca foi feito e obtemos maior área construída.
Formalmente difícil, mas chegaremos lá.
- Agora...o toque
de genialidade com Formalismo elegante: adotamos o procedimento da belíssima
escultura “Broken Obelisc”, de Barnet Newmann, uma pirâmide egípcia
coroada por um obelisco invertido (Currículo: 1963-69, há tempos no
MoMA-NY, réplica na frente da Nationalgalerie de Mies em Berlim).
- Lembrança seletiva:
Puxa, mas aquele predinho bacana lá em São Paulo...Hummm, obra de um
arquiteto brasileiro já falecido e pouco conhecido internacionalmente.
Aquela bela idéia de uma fachada-pele recobrindo uma ossatura crua,
isso está en vogue desde HdM. OK, vamos “silenciosamente referir”
a essa obra, resolve TUDO. Mesmo que alguém perceba, that´s life,
babe....Já fizemos isso até com a CCTV - Central Chinesa de Televisão,
“dando continuidade” à idéia de Eisenmann para a torre de escritórios
na Friedrichstrasse em Berlim.
Alberti, Palladio
e Borromini também não inventaram nada. Até Oscar, que nunca teve influência
de ninguém (lógico), há 20 anos se acostumou em copiar Niemeyer. Viva
Jair Rodrigues: deixe que digam, que pensem, que falem....
[Pedro Moreira, arquiteto,
Berlim, Alemanha]
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