De: Euclides Oliveira
Data: Tuesday, April 29, 2008 5:35 PM
Assunto: Brasília, 48 anos

Caro Aldo,

Acho que é uma das contradições do capitalismo neoliberal a de que todo investimento governamental em melhorias e infra-estrutura urbanas tenha como conseqüência a elevação do custo da terra e sua apropriação pelos promotores imobiliários, ou seja: o custo dos benefícios é socializado e o valor por eles produzido fica destinado à especulação financeira. Os novos donos da terra usam-na para construir bairros para as classes de alto poder aquisitivo e assim as classes pobres vão sendo relegadas para a periferia das cidades, em áreas com poucos atrativos urbanos, desemprego, dificuldade de transporte e mesmo violência policial (ou de bandidos, tanto faz).

Este fato ocorre tanto em casos extremos de investimentos maciços em urbanização, como na criação de novas cidades (Brasília, Palmas), quanto na abertura de uma simples avenida em uma metrópole qualquer, seja ela no Brasil ou na Índia. A continuação da estória conhecemos bem: as novas áreas nobres em breve se tornarão saturadas exigindo novos investimentos públicos para melhorar a sua acessibilidade ou a criação de novos bairros, repetindo-se o processo de expulsão e favelização dos habitantes primitivos. O Dr. Lucio quando projetou Brasília, pensou-a dentro da ideologia do movimento moderno, a de que todo homem deveria ter uma habitação digna para si, tornando assim o mundo um pouco mais justo; mas foi ingenuidade sua pensar que seu plano pudesse escapar das “leis” do mercado capitalista. E deu no que aí está, na realidade em que vivemos não poderia ser diferente disto.

Também não creio que Brasília seja um símbolo de corrupção; pelo contrário, os grandes corruptores do Poder Público estão principalmente aqui no sudeste, são eles nossos empresários jurássicos, nossos empreiteiros “brucutús”, nossos latifundiários e agentes dos “negócios agrários. Por aqui, corrupção é sinônimo de negócio lucrativo, é capitalismo "selvagem" mesmo.

Já o primeiro lugar em sub-habitação, este vai para a Amazônia¹, onde 80% do crescimento urbano tem se dado nas favelas. Cabe bem aqui a idéia do arquiteto norte-americano meio anarquista John Turner² de que “a moradia é um verbo” (pelo menos para os pobres). Aqui mesmo em Sampa, volta e meia aparecem na mídia notícias sobre a demolição de mais uma favela, com seus habitantes retirados à força sabe-se lá para onde; parece mesmo que voltamos à Renascença ou ao Barroco, quando o urbanismo era “Arte Urbana”, ramo do conhecimento que servia para embelezar ruas e praças nobres das cidades, para deleite da aristocracia decadente e da burguesia ascendente.

De resto, compartilho consigo a esperança que um dia este país tão injusto venha a se transformar em uma República de Iguais.

Um abraço,

1- John Browder e Brian Godfrey, Rainforest Cities; Urbanization, Development and Globalization of the Brazilian Amazon (Nova York, Columbia University, 1997), pág. 130

2- Turner, John. Housing as a Verb. In: TURNER, John. Freedom to build: Duweller Control of the housing process. Nova York, Macmillan, 1972.

[Euclides Oliveira, arquiteto, São Paulo SP]