| De:
Claudio, Flávio e Marcelo
Data: Friday, June 20, 2008 4:54 PM
Assunto: O Caos Urbano
e o “Carro do Milhão”
Vinicius Vianna
/ Acervo Semob / MCidades
O Caos Urbano e
o “Carro do Milhão”
O “carro do milhão”
é uma figura metafórica criada por três funcionários do Ministério das
Cidades - nos horários de folga - com o objetivo de pensar e refletir
o caos que começa a imperar no trânsito de Brasília. Muito mais do que
puros pensamentos ou reflexões, foi a vivência na cidade que trouxe
à tona os textos que ora se apresentam. A vivência na cidade, permeada
por suas contradições entre grupos, tribos, interesses de classe; conformada
nos circuitos tramados entre territórios, formas, desejos; e entrecortada,
no dia-a-dia, pela rotina do massacrante mundo-do-trabalho e pelos pontos-de-fuga
dos momentos de lazer; enfim, é essa vivência que nutre a organicidade
dos textos sobre o “carro do milhão”.
O urbanista Flávio
Villaça (1), ao analisar a formação do espaço intra-urbano das grandes
cidades brasileiras, mostrou como o movimento de esvaziamento de seus
centros foi fruto de um processo de deslocamento das elites rumo aos
quadrantes mais periféricos do tecido urbano. Esse deslocamento foi
alavancado pela adoção indiscriminada do automóvel como meio de transporte
a partir dos anos 70, quando então passou por um grande boom de produção.
A modernização acelerada com as mãos de ferro da ditadura proporcionou
a inundação das cidades pelo transporte individual motorizado, a partir
da instalação das filiais das grandes multinacionais automobilísticas
no país. Para compor o cenário do período, o planejamento urbano de
caráter tecnocrático e descolado da cidade real permitiu que o caos
se instalasse no ir e vir das grandes cidades brasileiras.
Após quase duas décadas
de estagnação econômica, o país volta a passar por um novo ciclo de
crescimento. A indústria automobilística lota os pátios das concessionárias
e o crédito (um pouco mais) barato propicia a condição para que brasileiros,
abonados com um pequeno acréscimo de renda, realizem o sonho do carro
0 km. Para além dos aspectos macro-econômicos, os textos sobre o “carro
do milhão” exploram a vivência contemporânea desse novo surto de abarrotamento
e imobilização da cidade.
O “carro do milhão”
é o provável milionésimo carro a ser emplacado em Brasília, cidade com
cerca de 2 milhões de pessoas, ou seja, um carro para cada duas pessoas!
O texto de Flávio Henrique Ghilardi explora os arroubos pensativos do
possível dono do “carro do milhão”, preso nos crescentes congestionamentos
de Brasília. O texto de Cláudio Oliveira da Silva tece comentários ao
“carro do milhão”, questionando: devemos ou não comemorá-lo? Apesar
de autorais, a elaboração das reflexões contou com importante apoio
de Marcelo Barata, “observador da vida”.
Por fim, vale destacar
que o problema aqui não se trata tão-somente do incômodo sentimento
de imobilidade causado pelos infindáveis congestionamentos do dia-a-dia.
Mas, também, do crescente sentimento de exílio que toma os moradores
das periferias das grandes cidades. O sociólogo Pierre Bourdieu descreveu
muito bem esse sentimento, vivido pelos jovens subproletários das periferias
francesas:
“sem dúvida, todas
as descrições convergem para o que se encontra no âmago da experiência
desses adolescentes: o sentimento de estarem acorrentados pela falta
de dinheiro e de meios de transporte a um lugar degradante (“apodrecido”)
e votados à degradação (e às degradações) que pesa sobre eles como maldição
ou, muito simplesmente, um estigma, que impede o acesso ao trabalho,
lazer, bens de consumo”(2)
Boa leitura!
Notas
1
VILLAÇA, Flávio. O espaço intra-urbano no Brasil. São Paulo,
Studio Nobel, 2001.
2
BOURDIEU, P. “A Escola do Subproletariado”. In: BOURDIEU, P et. al..
A Miséria do Mundo. Petrópolis: Vozes, 1997.
[Flávio Henrique Ghilardi,
Sociólogo – SNH/MCIDADES; Cláudio
O. da Silva, Arquiteto e Urbanista – SEMOB/MCIDADES; Marcelo
Lopes Barata, Arquiteto e Urbanista – SNH/MCIDADES]
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