De: Flávio Henrique Ghilardi
Data: Friday, June 20, 2008 4:54 PM
Assunto: Carro do Milhão


Fonte: www.papirusfalantis.zip.net/

O Carro do Milhão

Escrevo para compartilhar com os leitores e leitoras os sentimentos suscitados pela compra do meu carro. Não, simplesmente, a compra do “meu” carro, mas do, possivelmente, milionésimo carro emplacado em Brasília, Distrito Federal. Na semana de 20 de maio a capital federal emplacou seu milionésimo carro e suas quadras, superquadras, eixos e eixões já se enchem de extasiantes donos de carros novos, que se orgulham de ter escapado da rotina achincalhante do transporte público que serve à capital do país.

Foi numa fatídica manhã de segunda-feira - uma semana antes da compra do automóvel 0 km - que, decididamente, resolvi aderir ao transporte individual motorizado. Moro no Cruzeiro, bairro que considero muito bem localizado no Plano Piloto. Algo em torno de 20 minutos percorridos de carro, com trânsito livre, até meu trabalho na Esplanada. Naquela segunda, porém, passei mais de 1 hora no interior daquilo que o Poder Público chama de “ônibus”, verdadeiros caminhões da longínqua década de 70 e que carregam supostos seres humanos. Agora eles, os “ônibus”, são modernos, pois em seu interior carregam telas de plasma, rolando DVDs com incrível som ambiente. Naquela poltrona - lembrando a de um pau-de-arara, que possivelmente trouxe os primeiros candangos à Brasília -, impossibilitado de escutar qualquer música nos fones de ouvido - já que o som do DVD ambiente era insuportável - decidi comprar “meu” carro.

O filósofo Gilles Châtelet (1) certa vez comentou a alguns intelectuais brasileiros: “do jeito que as coisas vão, se vocês matassem os pobres do Brasil seria menos pior do que os horrores que vocês vão cometer contra eles”. Em algumas tardes, voltando do trabalho, contente com a nova aquisição - o possível “carro do milhão” -, me pego pensando nas atrocidades que podemos cometer - ou cometemos - com nossos pobres. Pessoalmente, a mobilidade, em Brasília, é um problema de logística e não de localização. Morar no Cruzeiro é “perto”, mas por questões de estruturas logísticas - falta de planejamento, urbanismo, engenharia - e de política - relação histórico-política do Estado com empresários do transporte, política de subsídios, direito político à mobilidade -, morar no Cruzeiro é “longe”. Ingenuamente, penso o que é morar na Cidade Ocidental, no Gama, na Ceilândia, distantes mais de 30 km do Plano Piloto, e, ainda por cima, voltar para casa de busão...

Como diria um colega, observador da vida: “estão falando para o pobre do entorno de Brasília o seguinte: ’ou você mora numa casinha legal, bonitinha, num terreno mais ou menos, só que longe, longe do Plano e endividado o resto da vida, ou vai se acabar em aluguel em um apê pequeníssimo e mais ou menos perto do Plano”. Enquanto isso, lá vou eu, com o “carro do milhão”, pensativo, voltando para casa, sem antes pegar um congestionamento básico (até a indústria automobilística e o crédito barato nos enfiarem numa crise de imobilidade...).

Notas

1
Citado pelo professor Laymert Garcia dos Santos na apresentação do livro “O relatório lugano”, de Susan George.

[Flávio Henrique Ghilardi, sociólogo formado pela Unicamp e trabalha na Secretaria Nacional de Habitação do Ministério das Cidades na área de planejamento habitacional]