| De:
Cláudio Oliveira da Silva
Data: Friday, June 20, 2008 4:54 PM
Assunto: Comentários
ao “Carro do Milhão”
Syd Mead
Comentários ao
“Carro do Milhão”
“Por seu impacto geográfico,
definitivamente a indústria de transporte molda uma nova espécie de
seres humanos: os usuários. O usuário vive em um mundo alheio ao das
pessoas dotadas de autonomia de seus membros” (1)
Considerando que a
crescente motorização da sociedade trouxe uma série de impactos negativos
para a vida urbana, devemos, de fato, questionar se o “Carro do Milhão”
é objeto de comemoração ou lamento.
Diante do relato do
nosso amigo – que além de sociólogo é pessoa que mora, circula, trabalha
e faz um tanto de outras coisas na cidade – nos vêm duas perguntas básicas.
O que há por trás do caos no trânsito de Brasília? E qual é o nosso
papel enquanto usuários?
Pra início de conversa,
o problema realmente está centrado no padrão de mobilidade por automóvel
que foi condicionado pelos incentivos à indústria automobilística e
pelo modelo espraiado de ocupação do solo urbano. Mas, devemos ter em
mente que também é determinante a condição de objeto, que coloca o automóvel
não apenas como uma ferramenta para locomoção, mas como signo de status,
virilidade e poder para os usuários, e como peça-chave para a reprodução
da sociedade capitalista. Nesses termos, é difícil acreditar que podemos
banir os automóveis das cidades e, no entanto, só nos resta aprender
a conviver com eles.
Porém, cerca de 85%
da população brasileira não possui automóvel mas todos sofrem os passivos
dos gases do efeito estufa e, quase todos, com os efeitos das partículas
em suspensão e poluição sonora causadas por essas máquinas que atendem
a uma da minoria. Ainda, toda a população vê, historicamente, seus impostos
sendo invertidos na ampliação e recuperação de malha viária em detrimento
de construção de espaços públicos que possam ser utilizados por todos.
No caso de Brasília, esse efeito de “assalto” provoca a demanda de quatro
carros por vaga de estacionamento em determinados lugares. Daí deriva
uma triste constatação quando levarmos em conta que a taxa de motorização
do DF é a segunda maior do país, com 2,4 veículos por habitante, atrás
apenas de São Paulo, que tem 2,2 veículos por habitante, com a diferença
que São Paulo tem área territorial 43 vezes maior que a do DF. Falta
de espaço ou número excessivo de carros?
Esse “caos” pode ter
diferentes matizes, mas em todas elas está presente a questão da localização
(que é socialmente construída) e a do tempo que perdemos em nossos deslocamentos.
Para quem anda de automóvel, nem mais o atributo de liberdade - que
hora o justificava - vale mais, porque ir pra qualquer lugar depende
dos congestionamentos que encontraremos pela frente.
Embora a questão da
ineficiência do transporte público seja estrutural em Brasília, não
devemos acreditar que sua transformação qualitativa é solução isolada.
Primeiro, pela própria noção de qualidade que pode ser diferente entre
uns usuários e outros (exemplo disso é que nem todos os itinerários
receberam TV de plasma) e, segundo, porque há exemplos de cidades onde
coexistem transporte público de qualidade e caos no trânsito: Londres
e Paris, por exemplo.
Apesar de existirem
uma série de medidas de Gerenciamento da Mobilidade, inclusive o transporte
público de qualidade que, se utilizadas em conjunto, podem prevenir
e até curar os problemas associados à mobilidade urbana, é vital a dependência
de vontade política e de coragem para contrariar grupos sociais e econômicos
dominantes. O Governo atual do DF está implementando o Programa Brasília
Integrada que envolve uma série de melhorias significativas no transporte
coletivo e mobilidade por bicicleta, a serem implementadas até 2010.
Porém, percebe-se nos discursos dos governantes a prevalência no erro
histórico de priorizar o automóvel que é verificada quando “dão a notícia”
falando sobre soluções “simples e rápidas” como execução de obras de
arte, anéis, intercessões viárias e alargamentos.
Claudio Oliveira
da Silva
No caso da nossa cidade,
também não exclusivamente, há uma parcela significativa de contribuição
para o caos urbano derivada do modelo de planejamento e uso e ocupação
do solo utilizados. O plano do urbanista Lúcio Costa que se consolidou
em Brasília transformando-a em patrimônio histórico da humanidade, aspecto
que inclusive limita modificações substanciais, privilegiou a especialização
de usos, baixa densidade e a segregação demasiada dos espaços de circulação.
Hoje se sabe, a exemplo, do modelo utilizado em Curitiba, que são vitais
para a mobilidade urbana equilibrada: a promoção de densidades onde
há corredores de transportes, a ocupação de vazios para otimização da
infra-estrutura e a diversidades de usos para misturar funções urbanas
e diminuir a necessidade de grandes deslocamentos. Fora o fato de ter
se constituído o Plano Piloto como centro funcional, pólo de atração
de viagens para uma parcela significativa da população das cidades satélites.
Infelizmente a frota
de automóveis vai continuar crescendo e o pano de fundo de toda essa
questão, na minha opinião, é cultural. Nascemos com a missão de assistir
a Globo, comprar um automóvel zero, casar de véu e grinalda e fazer
uma série de outras coisas que, sequer, nos damos ao trabalho de questionar.
Certamente não vou
deixar de sugerir resposta à segunda pergunta, mas depende muito de
quem você é. Se quiser isolar-se das amenidades da modernidade, procure
uma Eco-Vila; se for um político, prepare-se pra ser xingado; se for
urbanista, brigue pelas cidades para as pessoas; se não for nenhum dos
candidatos acima, procure saber em que lama está se atolando e faça
uma opção consciente.
A dica é: compre um
automóvel e procure não ficar dependente dele. Tenha uma bicicleta sempre
à mão e a use, sem preconceito. Se tiver pernas, use-as; se não as tiver,
use as mãos. Por fim, convença seus amigos milionários a investir toda
grana em pesquisas de teletransporte.
É fácil? Não. Mas
faça o que estiver ao seu alcance. E, quando estiver dentro do automóvel,
pense na função social que a propriedade, sob suas mãos, está exercendo.
Notas
1
ILLICH, Ivan. Energia e Equidade. In: LUDD, Ned. (org.). Apocalipse
Motorizado: A Tirania do Automóvel em um Planeta Poluído. São Paulo:
Conrad, 2004. (Coleção Baderna)
[Cláudio
Oliveira da Silva, arquiteto e urbanista e trabalha na Secretaria Nacional
de Transporte e da Mobilidade Urbana. Atualmente cursa mestrado em Arquitetura
e Urbanismo na Universidade de Brasília com o tema “Cidades Concebidas
para o Automóvel”]
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