| De:
Cecilia Rodrigues dos Santos
Data: Sunday, July 13, 2008 10:34 PM
Assunto: Pelourinho
no pelourinho ... ou na Boca do Inferno
Marcelo,
Seu depoimento é
melancólico, mas oportuno.
Mais do que isso,
ele é fundamental para que nós todos, baianos de nascimento
e de adoção, brasileiros em geral, refresquemos a memória
e sejamos obrigados a olhar e ver como esta cidade da Bahia vem sendo
maltratada e ultrajada, e não apenas lá onde se reconheceu
que ela é "patrimonial".
Também, por
outro lado, olhar e ver como a vida é capaz de resistir, teimosa,
por entre as pedras lubrificadas, o casario plastificado e os hoteis-torre
dessa que vai se fazendo um parque temático vazio de sentido
e sentimento, apenas palco para atores locais e turistas globais que
não se querem aprendizes de mais nada, vagando por ruas tristes
e se alienando no consumo de massa.
E todo esse cenário,
cabe lembrar, vem devidamente assinado pela "oficialidade",
aquela mesma que pagamos especialmente para defender nossos direitos,
inclusive os direitos culturais, e que anda tão ocupada em distribuir
tombamentos como medalhas que se confunde e esquece do verdadeiro sentido
de proteger, salvaguardar, preservar .... Uma missão tão
antiga que ficou até fora de moda nestes tempos de modernidade
líquida em que se persegue sobretudo "a imaterialidade socialmente
redentora do velho e elitista patrimônio".
Perdoe-os Dr. Lucio,
eles não sabem o que fazem !!!!
Ou será que
eles sabem?
Se assim provavelmente
for, só nos restaria recuperar a crítica mordaz e sempre
atual do poeta maldito baiano, que lá do século XVII já
apontava:
"Que falta
nesta cidade? ...... Verdade
Que mais
por sua desonra ..... Honra
Falta mais
que se lhe ponha ..... Vergonha
O demo a
viver se exponha,
por mais
que a fama exalta,
numa cidade
onde falta
Verdade,
Honra, Vergonha.
Quem pôs
neste socrócio? ..... Negócio
Quem causa
tal perdição? ..... Ambição
E o maior
desta loucura? ..... Usura
Notável
desventura
de um povo
néscio, e sandeu,
que não
sabe, que o perdeu
Negócio,
Ambição, Usura.
(...)
A Câmara
não acode? ..... Não pode
Pois não
tem todo o poder? ..... Não quer
É
que o governo a convence ..... Não vence
Quem haverá
que tal pense,
que uma
Câmara tão nobre
por ver-se
mísera, e pobre
Não
pode, não quer, não vence.
(...)
(...) À
Bahia aconteceu
o que a
um doente acontece,
cai na cama,
o mal lhe cresce,
Baixou,
Subiu, e Morreu.
["Epílogos", Gregório de Matos]
Com meu abraço
solidário
[Cecilia Rodrigues
dos Santos, arquiteta e professora FAU-Mackenzie, São Paulo SP]
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