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ano 9, vol. 1, agosto 2008, p. 230
São Paulo SP Brasil
   
 

O incêndio do Teatro Cultura Artística: quando reconstruir é preservar
Renato Anelli

     
    Teatro Cultura Artística, 1942-43, arquiteto Rino Levi. Foto Nelson Kon

Um incêndio ocorrido na madrugada de 17 de agosto resultou na destruição do Teatro Cultura Artística. Pelo relato da imprensa, o bom senso dos bombeiros conseguiu salvar o painel mural de Di Cavalcanti da destruição imediata. Em meio ao drama do fogo avassalador, tiveram a sensibilidade de reconhecer e preservar um artefato cultural tão precioso.

Cinco dias após o incêndio ainda não se sabia se o painel poderá ser recuperado. Uma avaliação inicial do Instituto de Criminalística alerta para a sua instabilidade, uma vez que as estruturas que travam essa longa parede curva haviam ruído com o incêndio. Tal incerteza faz permanecer nossa insegurança com o futuro dessa obra, apesar da correta decisão da Sociedade Cultura Artística em contratar o arquiteto Paulo Bruna (1) para o projeto e coordenação da reconstrução do Teatro no seu local original.

O Cultura Artística foi projetado entre 1943 e 1944 por Rino Levi, já com Cerqueira Cesar e Pestalozzi no escritório. Foi um projeto pioneiro no uso dos mais avançados métodos de cálculo acústico no Brasil. Levi havia introduzido esse conhecimento alguns anos antes, no projeto dos cinemas Ufa Palácio (1936), Universo (1936/38), Ipiranga e Piratininga (ambos de 1941). Para o Cultura Artística Levi aplicava essa experiência em uma sala de concertos. Uma inovação muito bem sucedida, como é reconhecido por todos.

Conforme depoimento de Cerqueira Cesar a pesquisadores, o mural de pastilhas Vidrotil de Di Cavalcanti foi escolhido em concurso fechado, do qual participaram também Jacob Ruchti e Roberto Burle Marx, tendo a escolha sido realizada pela direção da Sociedade de Cultura Artística (2). A Arquitetura Moderna Brasileira destacou-se internacionalmente pela incorporação de painéis e esculturas nas suas obras, tendo como objetivo ultrapassar os limites dos museus para atingir o povo em geral com sua mensagem renovadora. O painel do Cultura Artística faz parte desse movimento, do qual é um dos maiores exemplares no Brasil.

 


Teatro Cultura Artística, plantas do piso intermediário e da sala principal de espetáculos. Fonte: ANELLI, Renato; GUERRA, Abilio; KON, Nelson. Rino Levi – arquitetura e cidade. Romano Guerra Editora, 2000

 

     
Teatro Cultura Artística durante o incêndio. Foto Tuca Vieira    


Teatro Cultura Artística durante o incêndio. Foto Tuca Vieira


Teatro Cultura Artística após o incêndio. Foto Tuca Vieira


Teatro Cultura Artística, 1942-43, arquiteto Rino Levi. Foto Nelson Kon

 

O vínculo dessa obra com o seu lugar se exprime pela planta do prédio, um competente ajuste entre a planta da sala de espetáculo (com palco italiano, curvas de visibilidade controladas e paredes parabolóides) e os limites do terreno de geometria irregular. Com sua posição elevada próxima à Rua Augusta o painel das musas marcou magistralmente a paisagem urbana do centro da cidade até a completa verticalização do entorno.

Levi era primoroso nas suas implantações. A forma levemente curva da parede do painel manifesta na cidade a curvatura da platéia, compondo discretamente com a esquina da rua. Não há nenhum sentido que ela seja transferida para outro local.

O ininterrupto deslocamento das classes sociais mais elevadas para o sudoeste da cidade de São Paulo pode estar por trás da recorrente referência a uma possível reconstrução do Cultura Artística em outro local. Junto com outros setores sociais, os arquitetos devem se manifestar contra essa possibilidade. A manutenção do Teatro de Cultura Artística na sua posição original vem ao encontro de outras iniciativas de valorização social do centro de São Paulo com a implantação de novos equipamentos culturais na região, tais como o Museu da Língua Portuguesa, a Sala São Paulo, o Centro Cultural Banco do Brasil.

A diferença é que o Cultura Artística permaneceu lá.

Notas

1
Além de ter sido estagiário de Rino Levi, foi sócio do seu escritório após o falecimento do titular, sendo um dos maiores divulgadores da sua obra. Também contribui para o acerto da decisão a militância de Paulo Bruna no Do.Co.Mo.Mo, organização internacional dedicada à documentação e conservação de exemplares de arquitetura moderna.

2
Cf. Ana Lúcia Machado de Oliveira. Insigne Presença: Arte e Arquitetura na Integração de Painéis na Obra de Rino Levi. Dissertação Mestrado, EESC USP, São Carlos, 1998 e Maria Cecília França Lourenço. Operários da Modernidade. São Paulo, Hucitec/EDUSP, 1995.

     

Renato Anelli é professor titular e coordenador do Programa de Pós-Graduação em Arquitetura e Urbanismo da Escola de Engenharia de São Carlos, Universidade de São Paulo

   
     
    Minha Cidade 230 – agosto 2008
   

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