| De:
Euclides
Oliveira
Data: Tuesday, November 18, 2008 9:06 PM
Assunto: Salvador, cidade perdida
Caro colega Marcio Campos,
Se a cidade da Bahia precisa
se comparar com a cidade do Rio de Janeiro, ou mesmo com o kitsch da
“Miami/ Barra da Tijuca”, com São Paulo isto não
será necessário, pois que por aqui certamente estamos
piores do que vocês soteropolitanos.
Nosso Sátrapa, o Kassab,
também proibiu em nossas calçadas a pedra portuguesa –
na verdade proibiu qualquer tipo de pedra ou de outro material que não
seja a lajota de concreto (que ótimo para seus felizardos fabricantes!).
E para mostrarem que o negócio era para valer, atacaram logo
um ícone de Sampa, a Av. Paulista, retirando as pedras portuguesas
das calçadas e de quebra, sumindo com o desenho da pavimentação
de Rosa Kliass.
Já o nosso ex-subprefeito
o Andrea Matarazzo, afligia-se quando os ricos e a classe média
eram perturbados pela presença da pobreza, tomando então
atitudes que variavam desde a retirada de mendigos dos baixios dos viadutos
paulistanos até a elaboração de complexas Operações
Urbanas no Centro e adjacências, onde a remoção
da população de baixa renda era item obrigatório
sob o pretexto de “acabar com a criminalidade”.
Árvores aqui também
são cortadas e podadas com liberalidade, a mando das companhias
de eletricidade e telefonia que podiam, em sinal de respeito à
natureza, enterrarem de vez os seus fios, que degradam qualquer paisagem
em qualquer local desta cidade.
No plano estadual, o governo
acaba de anunciar que contratará o escritório suíço
do “Star-system” global Herzog & de Meuron para o projeto
de um “Palácio da Dança” onde era a antiga
rodoviária da cidade. Veja meu caro Márcio, que sábia
decisão:
O governador de São
Paulo que escolheu este escritório está em campanha aberta
para a Presidência da República e pretende gastar no “Palácio”
cerca de 300 milhões de reais (que já sabemos que se transformarão,
durante a obra, em 600 ou 700 milhões) visando a um já
mais do que manjado "Efeito Bilbao", em um estado com enormes
carências na área habitacional, educacional, de transporte
e saúde, com problemas de infra-estrutura e fundiários
graves, etc.
Pretende o Governo do Estado
pagar ao Herzog & de Meuron 25 milhões de reais pelo projeto,
enquanto que a FDE (Fundação para o Desenvolvimento da
Educação), por exemplo, paga cerca de 15 mil reais por
projeto de escola de segundo grau com 15 salas de aula aos arquitetos
tupiniquins, o que não deixa de ser uma gozação
com a nossa classe.
O responsável pelo
andamento deste projeto é o Secretário da Cultura, João
Sayad, um banqueiro (ex?) e político, que ajudou a ferrar o Brasil
lá atrás, no plano cruzado do Sarney, além de,
quando dono do banco SRL S.A., ter participado ativamente da privatização
das companhias de eletricidade e do Banespa, aqui em SP. Só no
Brasil mesmo: cultura, artes plásticas, bienais, fica tudo na
mão de banqueiros e políticos profissionais.
Para estar no "star system"
internacional não é necessário muito talento arquitetônico,
mas sim carisma, ambição social e uma boa assessoria de
imprensa. O arquiteto catalão Ricardo Bofill, membro deste "Jet-set",
disse certa vez que almejava a fama, mas não a do tipo que tiveram
Le Corbusier e Walter Gropious, mas sim como a dos Beatles; já
Phillip Johnson, ícone maior do estrelismo arquitetônico,
não fazia segredo de sua falta de talento; quando certa vez um
interlocutor apontou-lhe um defeito em um dos seus projetos, ele justificou-o
explicando candidamente que era um “bad architect”. Pritzker
por Pritzker prefiro mil vezes o Paulo Mendes da Rocha do que o de Meuron.
Aliás, os estudantes
de arquitetura devem estar indignados; por que os fazem estudar arquitetura
brasileira, arte brasileira, cultura brasileira, se no final das contas
contratam um escritório suíço cujos titulares mal
devem saber onde fica o Brasil e sua capital, Buenos Aires?
Enfim, como Kafka dizia, “há
esperança, mas não para nós...”.
Um abraço
[Euclides
Oliveira, arquiteto, São Paulo SP]
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