| De:
Aldo
Paviani
Data: Saturday, November 29, 2008 9:47 AM
Assunto: Salvador, cidade perdida
Prezado Márcio C. Campos,
Seu artigo sobre os acontecimentos
de Salvador, com a retirada da calçada portuguesa e das grandes
árvores, descreve o acontecido na antiga capital, mas poderia
comentar o que ocorre em qualquer cidade brasileira. Aliás, o
colega Euclides Oliveira, com seus sempre apropriados comentários,
bem demonstra isso: para onde se olhe lá estão os maus
exemplos de como se administram (?) nossas urbes. Também as bem
inseridas fotografias demonstram a barbaridade contra a vegetação,
cujos troncos parecem gritar de dor, pois acabam sendo uma chaga ao
longo das despidas vias. Posso, como bem fez Euclides, afirmar que,
tal como em Salvador e São Paulo, em Brasília se faz o
mesmo: a primeira iniciativa para qualquer ação "urbanística"
é retirar as belas (embora retorcidas) árvores do cerrado
e a até a ínfima raiz de grama. O resultado é a
feiura, tal como suas fotos mostram perfeitamente. Outro resultado,
ao menos pelo que a mídia nos trás, é que a agressão
à Natureza não tem volta - e a sua "vingança"
são rios e lagos colmatados e as brutais enchentes como as que
lamentavelmente ocorreram em Santa Catarina. Ceifam-se vidas e o pano
de fundo encobre o cimento e asfalto jogados em amplos territórios,
impedindo a penetração das águas da chuva - um
horror anunciado de como nossas cidades, como Salvador, são perdidas.
Aqui, não é, portanto, apenas uma questão estético-cultural
(ambas importantíssimas), mas um problema de como destruir o
mito do "planejamento urbano" dos fundadores. Agora, nova
agressão ao ambiente natural (evito falar em "meio"
ambiente, porque se trata de ambiente total) e humanizado: a justiça
liberou novos setores para a classe alta - o novo bairro Noroeste (leia-se
R$ 10.000,00 ao metro quadrado!). Com ele, a justiça determinou
a reintegração de posse de terras ocupadas por indígenas,
tidos como "invasores" (não seriam os brancos invasores?
Esse termo, aqui, é pejorativo, como se os índios fossem
ETs e não nossos ancestrais, donos, eles sim, deste grande torrão
natal.) Pode-se imaginar que troncos do milenar cerrado ficarão
pouco tempo à mostra, pois logo serão erradicados como
ervas daninhas. Ao rugir dos gigantescos tratores, as torrenciais chuvas
levarão lama e terra para o lago Paranoá (no futuro, charco
Paranoá!). Então, como se nota, em Salvador, como em São
Paulo, como em Brasília e em qualquer grande cidade, saem as
pedras portuguesas, as árvores e seus feridos troncos para que
as "madames" circulem com "alto alto", sem tropeços.
A cultura e a história? "Para que servem?" - diriam
os que administram a Grande Imobiliária, essa sim, sedenta por
mais espaços, "limpos" para colocar mais concreto,
vidro fumê e esfalto. Com tudo isso, fica patente que algo deve
mudar!
Cumprimentos pela sua denúncia.
Abraços
[Aldo
Paviani, geógrafo, Brasília DF]
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