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9, vol. 10, maio 2009, p. 256 Rio de Janeiro RJ Brasil |
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Uma
"guaribada" no Metrô do Rio |
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Acesso do metrô no Largo do Machado, com entrada gradeada. Foto Danilo Magalhães |
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De repente, a visão de algo insólito chamou minha atenção. As paredes da estação Largo do Machado do metrô do Rio estavam brancas! Mas elas não eram revestidas de um vidrotil caramelado? Decidi ir até junto da parede e tocar. Não, não me enganara. Estavam emassando e pintando de branco a parede de vidrotil do metrô. Também o teto havia perdido o revestimento e estava sendo pintado, assim como os pilares. Uma solução quebra-galho, que se vê em banheiros de botequim, estava sendo aplicada a um bem público! Naquele momento o serviço ainda não estava completo mas paredes já estavam marcadas pelos indefectíveis pés dos passageiros na tinta branca. Para quem não sabe, o metrô do Rio de Janeiro começou a ser construído na década de 1970. Naquela ocasião havia a intenção de dotar a cidade de um metrô de qualidade e o projeto das primeiras estações foi confiado a uma excelente equipe de arquitetos, entre os quais Sabino Barroso, Jayme Zettel e José Leal. Refletindo o padrão almejado, as estações mais centrais foram revestidas de mármore e as dos bairros foram revestidas de vidrotil, uma pastilha vitrificada de grande elegância e muito característica daquela época. Para completar, o teto era revestido de chapas metálicas, do gênero "luxalon". Assim, as estações formam um conjunto coerente, que define o trecho pioneiro da Linha 1. Nos últimos anos as entradas das estações já haviam sido gradeadas, algo horroroso, mas que nos acostumamos a aceitar em função da violência da cidade. Mas passar tinta sobre revestimento, assim já é demais. Chegando em casa já tarde da noite, pensei que a única coisa sensata a fazer seria enviar um e-mail à minha lista de endereços de arquitetos amigos e conhecidos. A vontade apressada de compartilhar aquele absurdo para fugir da sensação de impotência me levou a escrever um texto ainda capenga, com algumas omissões e imprecisões, mas a mensagem foi prontamente enviada. Nos dias seguintes, fui percebendo que ela havia se transformado numa minicorrente, reenviada por diversos amigos. Aos poucos, fui corrigindo alguns dados, tentando ser um pouco mais exato nas minhas informações. Alguém reenviou o texto a jornalistas. Um desses, talvez pouco acostumado a descer as escadas do metrô, procurou saber junto ao governo se a noticia procedia e, por ironia, coube a mim, que trabalho para o governo, reafirmar que sim, era tudo verdade! Mas... nenhuma linhazinha saiu na imprensa. A Vereadora Andréa Gouvêa encaminhou uma interpelação ao metrô. Pudemos então conhecer um pouco mais dessa estória. A designer Ana Luiza Graça Couto havia sido contratada pelo Metrô Rio para realizar tais reformas e a própria respondeu que compartilhava "do mesmo ponto de vista de respeitar as características do projeto original das estações, pois, de fato, o vidrotil e o mármore são materiais nobres e modernos. No entanto, nossa reforma tem como objetivo melhorar a viagem dos nossos clientes, criando ambientes mais claros, iluminados e alegres para os cariocas. Logo, reavaliamos algumas estações para que fiquem mais integradas no espaço urbano e proporcionem uma viagem mais agradável, sempre com o objetivo de prestar o melhor serviço." Assim descobrimos as razões da designer para alterar a obra arquitetônica dos outros. Sobre este aspecto, o arquiteto Sabino Barroso declarou-se indignado, pois sequer havia sido consultado e considerava a intervenção uma violação do seu direito autoral. |
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As reações dos amigos por e-mail não tardaram:
Esta série de comentários me faz lembrar que os problemas do metrô são bem mais complexos. No início, o metrô era o lugar mais limpo e mais bem cuidado dessa cidade. Mas hoje a venda de bilhetes com duração de apenas 24 horas é feita através de filas gigantescas em guichês de número insuficiente. Em geral, os vagões estão super lotados, especialmente os que vão em direção à Zona Norte. Uma voz irritante informa a todo momento que há carros reservados para as mulheres, nos fazendo relembrar dessa lei digna de países islâmicos, aprovada no apagar das luzes do último governo. Além disso, a companhia do metrô tem o hábito de envelopar os vagões com propagandas, cobrindo até mesmo as janelas. Para os trajetos subterrâneos isto é claustrofóbico. Para os trajetos de superfície é um rapto da visão da paisagem dos subúrbios cariocas que se poderia apreciar das janelas. Recentemente a concessão foi prorrogada em troca de uma obra bastante discutível. A companhia concessionária propôs a construção de uma alça de linha que conectasse a linha 2, que vem dos subúrbios com a linha 1, indo até à Zona Sul. Assim teremos apenas Linha 1 A e B. Essa obra, já aprovada pelo atual governo, joga no lixo os planos de estender a linha 2 até a praça XV e, futuramente, até Niterói. A estação do Largo da Carioca, que foi dimensionada para esse entroncamento de linhas, permanecerá ociosa, assim como parte da estação Estácio, onde hoje já ocorre esse cruzamento. Em seguida, o governo estadual mudou o trajeto da Linha 4, já licitada e que passaria por Botafogo e Jardim Botânico em direção à Barra, para privilegiar uma ligação pelo Leblon. Por alguma razão desconhecida, há muitos anos a Linha 2 parou nos limites do município do Rio, não avançando em direção à Baixada Fluminense. Mas todos os últimos governos estaduais fizeram questão de inaugurar alguma nova estação na Zona Sul. Como outras instâncias da vida pública brasileira, no metrô não há interlocução com os passageiros, vistos como massa amorfa que deve ser representada unicamente pelo governo. Sem a devida reação, continuaremos a andar espremidos e a sermos mal tratados. E dificilmente saberemos que linhas e estações existirão no futuro. Mas talvez tenhamos a chance de transitarmos por ambientes "alegres" produzidos por reformadores para o nosso contentamento. |
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Roberto Anderson M. Magalhães é arquiteto e urbanista. |
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