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10, vol. 5, dezembro 2009, p. 285 Brasília DF Brasil |
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Princípios
da Cidade-Parque: categoria urbana concebida no Plano Piloto de Brasília
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| Poucas vezes, na história urbana, em um projeto de cidade, criou-se uma espacialidade que integrasse, de forma harmônica, um conjunto de edifícios com a natureza do sítio e, ao mesmo tempo, potencializasse a percepção da respectiva paisagem. Esses aspectos são evidentes no projeto vencedor do concurso nacional do Plano Piloto de Brasília, de 1957, e igualmente na observação da cidade implantada. Tais características se devem, no projeto da nova capital, à “invenção” de uma cidade por Lucio Costa, que a “nomeou” cidade-parque. Esses fatores não assinalariam, de fato, o plano de Brasília (2) como invenção de uma nova categoria urbana? Diante de tal argumento, entendemos que seu plano não apenas segue os princípios modernistas, como torna precisa e amplia a concepção da «cidade no parque» de Le Corbusier. E Lucio Costa de tal forma a fundamenta como cidade e parque, criando uma nova categoria urbana, que conclui o Relatório do Plano Piloto a designando como cidade parque e, posteriormente, como cidade-parque. E a importância dessa invenção é tamanha que, sem dúvida, foi fundamental para a inscrição de Brasília (3) na Lista de Patrimônio Cultural da Humanidade pela UNESCO, em 1987, como a primeira obra moderna preservada. Observando Brasília, a força de seu risco original é evidente (figuras 1 e 2). Definido pelo cruzamento de dois eixos (4), esse risco ganha espessura urbana na abertura diferenciada de seu espaço e na volumetria vegetal e edilícia de seus arranjos espaciais que, paradoxalmente, definem livres passagens e limitam sua forma urbana. Os arranjos citados, traduzidos igualmente em significações, são as escalas da cidade-parque. Em seu conjunto, elas estruturam a cidade que se integra ao terreno com fisionomia verde, em grande identidade com o sitio. Nesse contexto, é mister definir alguns dos princípios da cidade-parque, concebida no Plano Piloto de Brasília e presentes na cidade construída. Do mesmo modo, é necessário demonstrar como neles estão inscritos os próprios parâmetros de sua preservação. Brasília e cidade-parque são constituídos pelos seguintes aspectos: definição em escalas, abertura da cidade, propriedade pública do solo, parcelamento, hierarquização viária e harmonia do conjunto volumétrico de sua fisionomia, integrado ao terreno. Esse conjunto torna a vegetação essencial para a constituição dos espaços abertos, estruturando e caracterizando, como elemento arquitetônico, estético e ambiental, a cidade-parque. Observemos, por partes, a especificidade de tais aspectos: Escalas A cidade-parque é constituída pelas seguintes escalas (figura 3): a gregária, área mais construída e verticalizada, que constitui o centro da cidade; a residencial, espaços nos quais se inventa uma forma de morar coletiva na superquadra; a bucólica, representada pelos espaços mais rarefeitos de construções e imersos na vegetação, limitando a extensão da cidade (5) em um enquadramento verde e garantindo visibilidade ao conjunto das escalas. Em Brasília, uma quarta escala, denominada escala monumental, identifica a cidade capital. Cabe destacar que, em Brasília, a escala gregária evidencia o cruzamento simbólico dos dois eixos (6) - marco zero da cidade, identificado pela Plataforma Rodoviária - e a escala bucólica, amplia seu significado como monumento. Essas escalas, é importante assinalar, adequam a força monumental da natureza sublime do sítio - em declividade e grande abertura do horizonte - a cada um de seus significados urbanos. Esses arranjos espaciais agregam, assim, referências imateriais, simbólicas. São aspectos importantes para a sensibilidade do homem, traduzidos em ambiência e, igualmente, em urbanidade. Como exemplo, identificam-se: a dignidade que emana dos palácios, ressaltada pela grandeza espacial que cria uma relação mítica com o cosmo na escala monumental (figura 4); a intimidade que permeia o espaço cotidiano na superquadra, de grande potencial contemplativo, com a vegetação e a proximidade de serviços na escala residencial (figura 5). Vê-se, então, que na correspondência entre os arranjos espaciais e suas significações, as escalas tornam-se valor e, assim, bem patrimonial - um parâmetro de preservação constitutivo da cidade-parque. Nesse sentido, as escalas não impedem a renovação edilícia da cidade nem a adoção de soluções coletivas, desde que sejam resguardadas suas ambiências e seus referenciais simbólicos. Isso é garantido com a manutenção do parcelamento aberto, de sua volumetria e dos edifícios e conjuntos edilícios representativos. A escala tomada como fundamento da preservação de Brasília, demarca uma evolução nos paradigmas patrimoniais adotados pelos órgãos de preservação do país e pela UNESCO. Abertura da cidade e propriedade pública do solo Nas diversas escalas, o «desafogo espacial» - expressão com que Lucio Costa valorizou a importância dos espaços abertos -, proporcionado pela abertura da cidade, é assegurado pela propriedade pública do solo. Esses aspectos definem um parcelamento com espaços coletivos de grande visibilidade e de livre acessibilidade, mesmo na escala gregária. Tal abertura incorpora o céu, integrando-o à « concepção urbana. Em Brasília, “os « vazios » são por ele preenchidos, sendo a cidade deliberadamente aberta aos 360 graus do horizonte que a circunda» (7), como disse Lucio Costa. A relação entre abertura e incorporação do céu é um parâmetro para o caráter limitado da altura dos edifícios na cidade-parque. Ela implica no conforto ambiental e na visibilidade de sua silhueta, aumentando a percepção da cidade no sítio, a partir de seu próprio espaço. Em Brasília, como a cidade foi implantada em terraplenos seguindo a declividade do sítio (figura 6), existem inúmeros lugares-mirante adequados à contemplação. Esses possibilitam visuais em profundidade, o que reforça a característica aérea da cidade-parque. Contudo, os pontos de observação, dentro e fora da cidade, são pouco explorados. Cabe destacar que essa visibilidade sendo parâmetro estabelecido na concepção da cidade, logo, é fator de direito e fundamental para a percepção de sua paisagem. A apreensão da cidade pelo olhar é essencial à valorização e, assim, à preservação da cidade-parque Com esses traços, vemos a ambiência e a visibilidade relacionadas nas escalas de Brasília. Esses aspectos, adotados atualmente como parâmetros de preservação pelo IPHAN (8), e a escala, como principio de Tombamento (9) de Brasília, reafirmam a escala urbana como princípio de preservação, presente na própria concepção da cidade-parque (10). No entanto, esses parâmetros se vêem subtraídos paulatinamente em Brasília, seja por edificações com alturas (figuras 7 e 8), seja pelo adensamento em seu próprio espaço e no seu entorno. Tais construções põem em risco sua condição de cidade-parque e as razões de seu reconhecimento como patrimônio mundial. Parcelamento O parcelamento, ao priorizar os espaços abertos, os vazios urbanos sobre os edificados, e ao ampliar a profundidade do olhar - o que é garantido pela propriedade pública do solo -, constrói suas entidades na filiação, a um só tempo, urbana e paisagística (11). Observemos, por exemplo, a Praça dos Três Poderes, entidade básica na cidade-capital. Esse terrapleno triangular, no conjunto com os espaços abertos e seus palácios (12), pode ser visto como elo entre a cidade, que se situa acima, e as áreas naturais - espaços bucólicos, o lago e as chapadas -, sobre as quais se debruça como mirante. Ou seja, a Praça, além de integrar de forma serena seus palácios, promove a relação entre a cidade e a natureza do sítio, incluindo-as entre seus monumentos. Assim, elas são confirmadas como parte de nossa cultura, uma referência a ocupação histórica do Brasil. |
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A superquadra seria outra praça. Nela, suas parcelas - projeções de edifícios sobre pilotis dispostas livremente - “abrem” o quarteirão tradicional de habitações, substituindo os limites dos muros e edifícios pelas árvores da faixa verde (figuras 9 e 10). Os pilotis separam o solo público do espaço privado das moradias nos andares, introduzindo o conceito de solo criado. Áreas comerciais e institucionais, constitutivas desse parcelamento, demarcam as laterais das superquadras, o que diversifica o uso da escala residencial. Essas áreas, conhecidas como entrequadras, por seu caráter local, de vizinhança, asseguram a ambiência tranquila de morar. Paulatinamente, a visibilidade do Eixo Monumental, como vimos, vem sendo obstruída por construções altas na escala bucólica (Figuras 7 e 8). O mirante da Praça dos Três Poderes é fechada por grades, árvores e edificações. Na superquadra, efetua-se, paulatinamente, o fechamento dos pilotis por construções e cercas-vivas, sendo autorizado o aumento de espaço aéreo construído e em subsolo dos edifícios. Essas concessões de uso impedem o plantio de árvores no interior da superquadra, subtraindo a coesão arbórea entre as edificações característico da superquadra. Nos espaços non aedificandi do comércio local, autorizam-se “puxadinhos” na Asa Sul, o que altera o parcelamento, a arquitetura do próprio comércio, as áreas arborizadas e a tranqüilidade da vizinhança. Esses aspectos diminuem a ventilação, a permeabilidade do solo, os índices de áreas verdes por habitante e, consequentemente, a qualidade espacial e ambiental características da escala residencial e da cidade-parque. Circulação nos espaços públicos e hierarquização viária A coordenação de diferentes modalidades de circulação nos espaços públicos e, nela, a manutenção da hierarquia viária é básica para preservar a ambiência pretendida em cada escala da cidade-parque. Lucio Costa, vivendo numa época em que o tráfego chegava aos limites de comodidade e fluidez, adotou esse sistema formulado pelo movimento moderno. Em Brasília, os eixos viários ligam, com rapidez, longas distâncias, enquanto o carro vai pouco a pouco se “domesticando” - como disse Lucio Costa - até chegar às vias locais nas diferentes escalas. Na superquadra, a via consiste em uma única entrada em cul-de-sac, para impedir o tráfego de passagem; a prioridade de deslocamento é do pedestre. No âmbito dos diferentes setores da escala gregária, se esses fossem tratados como praças, dando prioridade ao pedestre e ao estar, seriam inibidos os grandes estacionamentos e a passagem indiscriminada de veículos individuais. Muito se falou sobre a cidade feita para o automóvel, sem a percepção das características urbana, ambiental e paisagística de Brasília. Na cidade aberta, é necessária a implantação dos gramados, de passeios e ciclovias livres de barreiras, tratados com densa arborização para tornar essa circulação ambientalmente atrativa. Se se tivesse adotado um sistema eficiente de transporte coletivo, a circulação de automóveis em Brasília, fator necessário à preservação de toda cidade, teria sido inibida. Inclusive, um dos objetivos da concepção da cidade aberta, com a propriedade pública do solo, é dar espaço a adoção de novas tecnologias – de pouco consumo ou produtora de energia - e a satisfação de necessidades urbanas no processo evolutivo de sua planificação, sem descaracterizar seu traçado original. Esse fator é importante para a identidade dos moradores e da própria cidade, do que depende a preservação da idéia de Brasília. Nesse sentido, qualquer solução a ser adotada em Brasília deve considerar a concepção de espaço da cidade-parque diferenciada da cidade tradicional. Harmonia do conjunto e sua representação: uma conclusão Na definição da categoria urbana em foco, é fundamental a integração da cidade à natureza do sítio, que se realiza de forma diferenciada, de acordo com cada escala. Essa característica resulta da coordenação das alturas das edificações em relação à declividade do terreno, o que em Brasília é escalonado no sentido transversal em direção à escala bucólica, com ritmo marcadamente horizontal em torno do eixo rodoviário. Esse aspecto resulta na « serenidade » da sua silhueta acentuando a importância da escala residencial (13). Nela, a relação entre a altura dos edifícios e a abertura espacial busca coordenar as atividades individuais e coletivas dos habitantes em um espaço de densa arborização, tal como um « quintal coletivo » (14). Essa característica é, sem dúvida, a pedra de toque dessa nova invenção. Para tanto, na cidade capital, foi construída uma representação: a verticalidade construtiva do centro gregário é gradativamente caracterizada pelo verde nos espaços residenciais e por esse contido na escala bucólica. São os traços de inspiração “nativa” (15), reinventada em toda sua modernidade em Brasília e que se perdeu com o crescimento extensivo e desordenado das cidades tradicionais. A solução, então, torna-se evidente: a cidade-parque, concebida por Lucio Costa na cidade-capital, sugere e motiva uma ocupação no planalto central com cidades contidas e verdes valorizando, na concepção de seu espaço, a dimensão de nosso território e sua integração ao cosmo. As cidades assim ganham identidade com o sítio e no sítio, de acordo com as “razões da paisagem” (16) históricas do país (figura 11). E tal é a potencialidade criativa dessa solução que, passados 50 anos, sua espacialidade continua a projetar no tempo sua modernidade. A cidade-parque revela-se agora um paradigma de sustentabilidade urbana. Um modelo de ecocidade capaz de mitigar problemas socioambientais. Diante dos parâmetros inovadores desta cidade, cabe questionar a falta de discussões sobre o reconhecimento da invenção de uma categoria urbana, a cidade-parque, na concepção de nossa capital. Esse reconhecimento é pertinente à compreensão de seus princípios e necessário a sua preservação no planejamento de Brasília, aspecto relevante nesse momento. A população começa a se manifestar contra propostas que descaracterizam o Plano Piloto original. Isso demonstra a valorização do espaço urbano de Brasília e a confirmação de sua paisagem pelo olhar de sua população, correspondendo a seus anseios quotidianos e de representação. Mas, igualmente, é como se essa pressentisse a perda desses valores, diante de diferentes intervenções que seguidamente desvirtuam o parcelamento e os significados das diferentes escala (17). Por sinal, estão sendo realizados os primeiros procedimentos para a elaboração do “Plano de Preservação do Conjunto Urbano de Brasília” (18). Esse plano somente se justifica se contar com a participação e a aprovação de uma sociedade informada sobre o valor da cidade-parque e o sentido simbólico de Brasília. Do mesmo modo deve se tornar clara a importância da cidade como bem patrimonial local, distrital e mundial, e as implicações do referido plano sobre esse bem. Enfim, o objetivo é preservar a espacialidade da cidade-parque de Brasília e seu valor como categoria urbana e não apenas seus lugares de maior visibilidade (19). Esses, como vimos; dada a importância do conjunto das escalas, terminam por ser igualmente atingidos. De fato, o “plano de preservação” somente terá legitimidade se for sensível à observação de seu criador: “(...) o importante ao se pensar na complementação, na preservação, no adensamento ou na expansão de Brasília é não perder de vista a postura original, é estar-se imbuído de lucidez e sensibilidade no trato dos problemas urbanos (...). (Lucio COSTA, Brasília Revisitada). Notas 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13 14 15 16 17 18 19 Referências Bibliográficas BERQUE, Augustin (dir.). Cinq propositions pour une théorie du paysage. Seyssel: Champ Vallon, 1994. BERQUE, Augustin. Les raisons du paysage: de la Chine antique aux environnements de synthèse. Paris: Hazan, 1995. COSTA, Lucio. Lúcio Costa: sôbre Arquitetura. XAVIER, Alberto (org.). Porto Alegre: Centro dos Estudantes Universitários de Arquitetura, 1962. COSTA, Lucio. Brasilia 85-87. Brasília Revisitada. Anexo Leis de preservação: Decreto-Lei n° 10 829, de 14 de outubro de 1987 (GDF), e da Portaria n° 214, de 8 de outubro de 1992 (IPHAN). COSTA, Lucio. «Relatorio do Plano Piloto de Brasília». In Brasília, cidade que inventei. Brasília: ArPDF, Codeplan e DePHA, 1991. COSTA, Lucio. Lucio Costa, registro de uma vivência. São Paulo: UnB, Empresa das Artes, 1995. COSTA, Maria E. e LIMA, Adeido V.. Brasília, 57-85: do plano piloto ao Plano Piloto. Brasília: TERRACAP, 1985. FACO, João. Nas Asas de Brasilia. Brasilia: FAC, 2003. GOMES, Cláudio. Brasilia 1960-1970. In : Revista Acropolis, n° Brasilia 10 anos,1970. MONTE JUCÁ, Jane. La dimension culturelle d’un paysage monumentalisé: réinventer la singularité de Brasilia. In: L’Homme et la Société, Ville et Monument (MANALE Margaret, org.) n°145. Paris: L’Harmattan, 2002/3. MONTE JUCÁ, Jane. Les realites et potentialites des paysages de Brasilia. Des mythes fondateurs oubliés à l’invention d’un patrimoine mondial. Tese: LUGINBÜHL, Yves (dir). 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| Jane Jucá é Doutora em Geografia (Panthéon-Sorbonne, Paris I); Mestre em planejamento urbano (UnB) e arquiteta. |
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