| Vida
urbana
*
resenha
de antônio agenor de melo barbosa
Em
diversos campos do conhecimento, são poucos os professores e pesquisadores
capacitados a reunir numa única obra o saber (científico) e o
sabor (literário). O saber indiscutível adquirido ao longo de
anos de estudos e pesquisas acadêmicas muitos possuem, mas poucos
têm condições de traduzir e até revelar seus conhecimentos e erudição
através de textos saborosos e acessíveis a um público amplo.
O
professores universitários – Veríssimo, Bittar e Alvarez – que
assinam este Vida Urbana – A Evolução do Cotidiano da Cidade
Brasileira fazem parte deste seleto grupo de intelectuais
que são capazes de ultrapassar os muros da academia para revelar,
com sabor, o saber que possuem. E esta constatação não está apoiada
apenas na leitura do livro resenhado, mas também no sucesso editorial
que foi “500 Anos da Casa no Brasil – As Transformações da Arquitetura
e da Utilização do Espaço de Moradia”, primeiro lançamento da
dupla Veríssimo e Bittar em 1999.
Se
no primeiro livro os autores se debruçaram sobre a arquitetura
e os espaços de moradia, agora traçam um panorama sobre a evolução
do cotidiano das cidades no Brasil, desde os primórdios até os
dias atuais. Na visão metafórica dos autores, a cidade, objeto
arcaico de cobiça e de desejo humano, é desvendada lentamente
tal e qual uma dançarina coberta com muitos véus em seu gradativo
despir-se. Mas a bonita imagem da dançarina em constante movimento
que evocam na tentativa de desvendar a cidade, é a mesma que,
subitamente, encobre a sua visão e nos impede de descobri-la por
completo. Segundo os autores, a cidade – dançarina é também um
grande mistério, um caleidoscópio com múltiplas e infinitas formas
de leitura, enfim puro devenir, diria um filósofo.
Estruturado
em nove capítulos, o livro traz uma contribuição bastante oportuna
para o atual momento de crise em que se encontram as nossas cidades,
notadamente aquelas situadas nas regiões metropolitanas do país.
Desta forma, os autores nos revelam fatos importantes acerca do
longo e complexo processo de evolução das cidades brasileiras.
Assim, são narrados os antecedentes históricos que condicionaram
a conquista e a ocupação de nosso território por parte dos portugueses,
passando pelas características físicas (os lotes, as praças, as
ruas), sociais (as formas de controle social), estéticas (a paisagem,
os jardins, as influências européias), lúdicas (o lazer sexual,
as praias, o lazer infantil) e religiosas (a cidade Cristã no
Brasil, a cidade profana e suas formas culturais) que, simultaneamente,
estiveram sempre presentes na consolidação de cidades no Brasil.
Amplamente
ilustrado – num total de 100 imagens, entre fotografias, mapas,
desenhos além da iconografia clássica de artistas estrangeiros
– e repleto de citações e de referências oriundas de jornais,
revistas e filmes, além da vasta bibliografia de referência sobre
o tema, o livro tem uma característica bastante singular – à maneira
de “500 Anos da Casa no Brasil” – que é o uso abundante de trechos
de poemas e de letras de músicas que, ao longo dos tempos “imortalizaram”
certas cidades e/ou partes de cidades, como é o caso de refrões
famosos da MPB como: “moro em Jaçanã”; “aquele mundo de zinco
que é Mangueira”; “que na Carioca tem uma roleta para se jogar”;
“alô, alô, Terezinha, Rio de Janeiro”; “sou um punk da periferia,
sou da Freguesia do Ó”; “kátia Flávia, Godiva do Irajá, me escondi
aqui em Copa”; “e quando ouvir o silêncio sorridente de São Paulo
diante da Chacina”. Cabe mencionar que tais referências aos refrões
da música popular brasileira não aparecem descoladas do contexto
geral do livro, mas inseridas no desenvolvimento das idéias expostas
pelos autores.
Também
impressiona o fato de a seleção abranger não apenas os clássicos
, como os citados anteriormente , mas também novíssimas composições,
como é o caso da música “Soldado do Morro” de autoria de MV Bill
– que serve aos autores para ilustrar o duro cotidiano atual de
várias comunidades “comprimidas entre a legalidade e a dupla marginalidade
da violência legal e ilegal...numa forma trágica de lirismo” –
e de “Minha Alma (A paz que eu não quero)” composta por O Rappa
– que faz referências às grades dos condomínios de luxo das grandes
cidades. Tais citações demonstram o quanto os autores estão sintonizados
e sensibilizados com o cotidiano atual das grandes cidades brasileiras,
em suas diversas formas de expressão artística, sobretudo quando
estas manifestações são oriundas das classes menos favorecidas.
A
despeito de suas virtudes e da sua oportuna e original contribuição
para o conhecimento da história urbana do Brasil, o livro tem
algumas lacunas (antecipadas pelos autores na apresentação) conceituais
que talvez pudessem ser melhor desenvolvidas. A primeira delas
se anuncia no próprio subtítulo do livro – “a evolução do cotidiano
da cidade brasileira”. O estudo acaba ficando restrito basicamente
às informações a respeito de Rio de Janeiro – a grande campeã
em referências – , Salvador, Ouro Preto, e um pouco de Olinda,
Natal, Brasília e Parati. Cidades como Belo Horizonte, Belém,
São Luís, Porto Alegre, Santos, Recife, Palmas (no caso da nossa
mais recente capital) e mesmo São Paulo são algumas cidades que,
quando mencionadas, o são de maneira superficial e, em geral,
deslocada do fio condutor da obra.
Outro
item digno de nota e que talvez merecesse uma interpretação e/ou
revisão mais criteriosa e atualizada dos autores, é relativa à
recente historiografia que, quando não nega, ao menos retifica
as célebres passagens de “Raízes do Brasil” como “O Semeador e
o Ladrilhador” – em que Sérgio Buarque de Holanda, ao analisar
a formação pioneira de nossas cidades, afirma que estas não são
produtos mentais dos portugueses, pois não chegam sequer a “contradizer
o quadro da natureza, e sua silhueta se enlaça na linha da paisagem...Nenhum
rigor, nenhum método...significativo abandono que exprime a palavra
desleixo”. Cabe enfatizar que, pelo menos dois desses autores
que retificam a visão de Holanda constam nas referências bibliográficas
do livro, como é o caso de Fania Fridman em “Donos do Rio – Em
Nome do Rei” e de Nestor Goulart Reis com “Imagens de Vilas e
Cidades do Brasil Colonial”. Também no que se refere à bibliografia
de referência cabe lamentar a ausência de obras clássicas do urbanismo
brasileiro como é o caso de “A Cidade como um Jogo de Cartas”
e “Quando a Rua Vira Casa” de Carlos Nelson Ferreira dos Santos.
Estas
lacunas, no entanto, não chegam a comprometer o brilhantismo,
a importância e o refinamento editorial desta obra que servirá
não apenas para os especialistas em arquitetura e urbanismo, mas
para todo e qualquer cidadão interessado em desvendar os “500
anos de véus” – véus do tempo e de história – que ainda encobrem
as cidades brasileiras.
Antônio
Agenor de Melo Barbosa é arquiteto, mestre em urbanismo
pelo PROURB / FAU UFRJ, professor da FAU UFRJ e da Universidade
Santa Úrsula
© Resenha
publicada no Caderno Idéias / Livros do Jornal do Brasil de 29
de setembro de 2001 |