| A
travessia da Calunga Grande
resenha
de antônio agenor de melo barbosa
Durante três séculos
a incômoda travessia começava na África e
terminava na América. Separando os dois continentes estava
a Calunga Grande, o hostil e misterioso Oceano Atlântico.
Mas a Calunga também pode ser pequena, e então ela
é tumba, não menos hostil quanto misteriosa. Imagine-se
que, a despeito desta breve definição acima, a Calunga
Grande também, não raro, era a incomensurável
tumba. Isto porque estamos nos referindo à travessia de
cerca de 3,5 milhões de afro-negros já no caminho
reduzidos à condição de escravos que foram
trazidos para estas bandas pelas mãos desumanas dos traficantes
em seus navios negreiros, chamados de "campos de concentração
flutuantes" pelo historiador Robert Thompson.
Nesta travessia a chegada em terra
firme era incerta para os africanos embarcados, e a Calunga Grande
poderia ser o destino final para aqueles que não chegassem
vivos ou sãos. O ambiente insalubre e os maus tratos a
bordo dos navios negreiros contribuíam para ampliar a incerteza
da chegada. Castigos corporais, assassinatos em massa e doenças
graves e contagiosas faziam parte desta difícil travessia.
Aos que a completavam, desde o século XVI (1550) até
meados do século XIX (1850), cabia uma tarefa: construir
este país, um dos últimos do mundo moderno a abolir
a escravidão.
"A Travessia da Calunga Grande
Três séculos de Imagens sobre o Negro no Brasil
(1637 1899)" é o título deste magnífico
livro / catálogo assinado pelo pesquisador Carlos Eugênio
Marcondes de Moura. O livro faz parte da coleção
"Uspiana Brasil 500 anos", composta por doze títulos,
editada pela Universidade de São Paulo no bojo das comemorações
pelos 500 anos do Brasil. Efemérides à parte, Moura
se propôs a uma tarefa tão gigantesca quanto necessária
(e também inédita) para a recente historiografia
brasileira: levantar e catalogar, da forma mais abrangente possível,
as fontes iconográficas que "registrassem imagens
dos afro-negros e seus descendentes no Brasil", no intuito
de construir um guia para pesquisadores movidos por interesses
diversos. Assim, catalogou 2.593 imagens com 507 destas reproduzidas
no livro. Segundo Moura, "a publicação integral
do material situa-se, por enquanto, nos domínios da utopia."
Com efeito, Moura também inicia
o seu catálogo com a reprodução de uma imagem
alegórica do continente africano (gravura nş 19; pag. 255),
de autor não identificado e impressa em 1686, onde a travessia
outrora começava para os afro-negros. Observa o autor que,
como toda alegoria, estas primeiras imagens do universo africano
e de seus habitantes se compõem de elementos da realidade
e da fantasia. Todavia, este predomínio da alegoria e do
simbolismo nas primeiras imagens sobre a África, é
praticamente nulo quando o autor se reporta para a análise
da presença do afro-negro no Brasil do século XVII,
notadamente para a obra de Frans Post, artista que "mantém-se
fiel à realidade e não acumula a composição
com detalhes excessivos."
Dividido por séculos do
XVII ao XIX , o livro evidencia uma grande dificuldade encontrada
pelos historiadores que se debruçam sobre a produção
iconográfica dos primeiros anos do Brasil-Colônia:
a pequena quantidade de imagens existentes a respeito da escravidão
tanto no século XVII quanto no século XVIII. Do
século XVII, praticamente todo o registro iconográfico
está restrito à presença holandesa capitaneada
por Maurício de Nassau em Pernambuco. O século
XVIII sabe-se que corresponde a um momento de "total fechamento
e inacessibilidade da colônia aos viajantes estrangeiros,
em decorrência das políticas adotadas pelo governo
ultramarino, em extremo cioso de proteger dos contrabandistas
as minas de ouro e diamantes." Contudo, destacam-se neste
período as obras de Carlos Julião (1740 1811),
um militar que, por estar a serviço da Coroa Portuguesa,
talvez tenha encontrado algumas facilidades para penetrar no interior
da Bahia, Minas Gerais e Rio de Janeiro. Quanto a isto, basta
dizer que no livro constam apenas 63 iconografias catalogadas
do século XVIII e 1.063 correspondentes ao século
XIX. Sobre a abundante iconografia oitocentista sabe-se que, a
despeito da qualidade discutível de muitas obras, foi uma
conseqüência direta da chegada da Corte Portuguesa
ao Brasil e, principalmente, da abertura dos portos. Um outro
fator que contribui para a vasta produção iconográfica
do período é a própria dinâmica da
sociedade e a evolução e multiplicação
dos meios de representação, como a invenção
da fotografia, também contemplada no livro.
De maneira acertada, o autor evitou
em sua catalogação qualquer tipo de análise
ou de julgamento estético que pudesse impedir o registro
e, em alguns (poucos) casos, a reprodução de
uma determinada imagem. Seguiu o objetivo precípuo de tratá-las
como documentos relevantes que, em si, despertam interesses históricos,
sociológicos e antropológicos. Na estrutura organizacional
do livro, Moura estabeleceu um rigoroso critério de catalogação
e ordenamento das imagens. Assim, para cada uma das 2.593 imagens
prospectadas, o autor menciona nove itens que as identificam em
particular, a saber: 1) numeração da imagem, 2)
nome do artista, 3) título da obra, 4) data, 5) técnica
empregada, 6) medidas, 7) localização geográfica,
8) descritores, conforme o assunto representado, 9) bibliografia.
Um outro aspecto digno de nota é
que à medida em que avançamos na observação
do catálogo, o negro deixa de figurar como um simples objeto
do olhar estrangeiro ávido por registrar sua imagem e
suas particularidades culturais para tornar-se sujeito atuante
e fundamental naquela ordem social escravista. Pelas imagens reproduzidas
por Moura percebe-se que os escravos, de fato, foram os principais
responsáveis pela construção deste país,
incluindo cidades importantes como Recife, Salvador e Rio de Janeiro.
No caso do Rio de Janeiro, principalmente
nas imagens do século XIX, percebe-se o quanto a cidade
era completamente dependente do escravo urbano. Se nos detivermos
apenas na questão do abastecimento de água, podemos
perceber por algumas imagens reproduzidas no livro (nş 562; p
499, nş 1.064; p 504, nş 1.116; p 357) o quanto este serviço
era precário. Todavia, eram nas fontes e chafarizes da
cidade, representados nestas imagens, que os escravos tinham a
possibilidade enquanto esperavam na fila da água de
interagir social e publicamente com outros grupos sociais. Também
a tarefa da eliminação de dejetos domésticos
cabia aos escravos que, ao crepúsculo, corriam em fila
e acorrentados pelas principais ruas da cidade (gravura nş 1.626;
p 558), em direção ao mar (a Calunga Grande) ou
a algum terreno baldio.
Outro fato interessante é
que, na seqüência das imagens reproduzidas, sobretudo
as do século XIX, o negro parece ganhar um rosto, uma profissão,
uma identidade mais precisa que, se por um lado o difere e o afirma
como um elemento social importante, por outro lado notadamente
após a abolição da escravidão o
torna alvo de fatores incômodos como o preconceito e o racismo.
Na análise desta iconografia sobre o negro, fica bem clara
a idéia de que, segundo a historiadora Kátia Mattoso,
durante muitos anos no Brasil, negro e escravo eram dois termos
que serviam para definir a mesma situação, sendo
portanto sinônimos. Atualmente não há escravidão,
mas com certeza a dívida social com os afro-descendentes
ainda é uma projeção viva do nosso passado
recente que não conseguimos superar.
Isto posto, há que se comemorar
esforços como este de Moura e de tantos outros pesquisadores
que lutam arduamente para que este movimento relativamente recente
da pesquisa sobre a escravidão no Brasil não seja
em vão e que possa alavancar discussões e, sobretudo,
contribuir para a diminuição de injustiças
sociais históricas.
Antônio Agenor de Melo Barbosa,
arquiteto e urbanista, é mestre em Urbanismo (UFRJ) e professor
da Fau-UFRJ e da Universidade Santa Úrsula
İ Texto
originalmente publicado no
caderno Idéias do Jornal do Brasil de 28 de abril de 2001 |