| Iconografia
do Rio de Janeiro por Gilberto Ferrez
*
resenha
de antônio agenor de melo barbosa
Uma intensa
e desmedida paixão de um homem pela sua cidade é,
talvez, a melhor explicação para esta obra monumental.
A cidade é São Sebastião do Rio de Janeiro,
o homem é Gilberto Ferrez e a obra é o magnífico
catálogo analítico "Iconografia do Rio de
Janeiro (1530-1890)". Ferrez, autor de mais de 35 livros
sobre arte, fotografia, história, arquitetura e urbanismo
traçou, ao longo desta sua trajetória intelectual,
uma meta obsessiva e gigantesca que foi a construção
deste minucioso inventário de iconografias cariocas.
Tudo o que fazia e pesquisava servia
de pretexto para, em última instância, reunir, catalogar
e analisar as iconografias relativas àquela tarefa momentânea
na qual estava empenhado. Foi esta obstinação que
garantiu, em grande parte, a concretização deste
aparente trabalho de Sísifo que agora chega às livrarias.
Infelizmente, o seu esforço hercúleo não
foi suficiente para que conhecesse, em vida, esta primorosa Edição
da Casa Jorge Editorial, sob o comando cuidadoso do historiador
e crítico de arte Carlos Roberto Maciel Levy. Ferrez faleceu
poucos meses antes da publicação de sua Opus
Magna.
Bisneto de Zéphyrin Ferrez
escultor da Missão Artística Francesa que chegou
ao Rio em 1816 -, neto de Marc Ferrez mestre pioneiro da fotografia
no Brasil -, Gilberto Ferrez não se furtou a seguir os
caminhos artísticos traçados por seus nobres antepassados.
Todavia, é curioso notar que a sua inclinação
artística e sua obstinada trajetória como pesquisador
e escritor, permaneceram latentes até aproximadamente os
seus 40 anos de idade. A partir daí, e até a sua
morte em 23 de maio de 2000 -, aos 92 anos, foram mais de cinco
décadas de inquietações e, sobretudo, muita
produção.
Mas, esta "Iconografia do
Rio", não se trata apenas de uma simples compilação
de estampas cariocas dispersas pelo mundo afora em Instituições
públicas ou coleções particulares. Ao contrário,
como escreve o próprio Ferrez na Introdução
do Catálogo, fosse apenas isto, seria uma tarefa que não
demandaria grandes esforços intelectuais e nem tampouco
seria inédita e pioneira em sua essência. Assim,
a sua ambição era tão desmedida quanto aparentemente
impossível de ser concretizada, mesmo para um homem dotado
de uma cultura e erudição notórias. Isto
porque Ferrez se propôs, desde o início, a levantar,
organizar em ordem cronológica e, sobretudo, descrever
e analisar as 4.494 estampas inventariadas. No seu ambicioso planejamento,
e assim o fez na organização do catálogo,
um registro completo deste inventário compunha-se de seis
itens, a saber: 1) o ano no qual a obra foi executada; 2) nome
do artista, sua nacionalidade e data de nascimento e de morte;
3) nome ou legenda da estampa; 4) breve descrição
da mesma; 5) informações complementares e 6) coleção
à qual pertence a obra e a respectiva localização.
Para tanto, percorreu arquivos, museus,
coleções e bibliotecas no Brasil e no exterior (Londres,
Paris, Lisboa, Nova Iorque, Viena), visitando os colecionadores
e examinando in loco todo o material catalogado. Quando
não era factível o exame do original existente,
mandou executar fotografias e também contou com a boa vontade
de alguns proprietários que lhe enviaram reproduções
de suas coleções. Foi assim que conseguiu, com o
apoio de instituições e de colecionadores da Austrália,
Alemanha, Rússia e África do Sul, ampliar o seu
feito e dar uma dimensão ainda inexistente para uma obra
desta natureza no Brasil, que encontra poucas publicações
análogas em outros países, conforme observa Maciel
Levy.
Ferrez arrolou gravuras, litografias,
xilogravuras, mapas, óleos, aquarelas e diversas estampas
muitas delas desconhecidas até por historiadores mais
argutos sobre o Rio de Janeiro, desde a sua fundação
portuguesa em 1565 até o final do século XIX,
quando estas formas de representação começaram
a perder terreno para a fotografia.
A obra, composta por dois volumes
e com uma refinada produção editorial, serve como
fonte de consulta documental para historiadores, sociólogos,
antropólogos, geógrafos, arquitetos, urbanistas
e também, para todo aquele cidadão que, assim como
Ferrez, seja um apaixonado por esta cidade. Deste modo, Ferrez
construiu uma História Iconográfica do Rio de Janeiro,
de seus espaços públicos e de sua gente que, em
boa parte, supera muitos textos já escritos sobre a mesma.
A sua motivação essencial na escolha das 4.494 iconografias
constantes no livro, foi a de publicar aquelas que, sob o seu
crivo de historiador competente, possuíssem um grande valor
documental intrínseco para o conhecimento preciso da história
da cidade, a despeito de algumas (poucas) não possuírem
uma qualidade estética no mesmo patamar.
Para quem se interessa pela história
e evolução urbana do Rio de Janeiro, esta obra,
já se pode dizer a priori, é uma referência
fundamental para a matéria. Se no Volume I, Ferrez catalogou
e analisou as estampas desde as pioneiras de Cousin (1522-1594),
Staden (1525-1576), Thevet (1502-1592) e Albernaz (15??-16??),
passando por Froger (1676-1715), Massé (16??-17??), Alpoim
(1698-1795), Julião (1740-1811) e Bradley (1758-1833),
até os mais conhecidos em função da abertura
dos portos, após a chegada da Família Real Portuguesa
ao Rio - como Debret (1768-1848), Rugendas (1802-1858) e Ender
(1793-1875); no Volume II, o autor brindou seus leitores com 238
primorosas reproduções de algumas das mais representativas
estampas inventariadas. Não há dúvida de
que, com sua capacidade organizacional e com a sua análise
crítica das 238 iconografias reproduzidas, Ferrez pavimentou
um caminho outrora bastante árido para os pesquisadores,
sobretudo no que se relaciona às iconografias executadas
nos séculos XVI, XVII e XVIII, quando o Brasil ainda não
estava aberto para o mundo, em função do Pacto Colonial.
Sem dúvida, esta "Iconografia
do Rio de Janeiro", é o coroamento coerente e
grandioso de sua vasta produção intelectual e de
toda a sua vida. Se tomarmos como exemplo apenas duas de suas
importantes publicações anteriores, como "O
Velho Rio de Janeiro através das gravuras de Thomas Ender",
de 1957, e o catálogo "A Praça XV de Novembro
antigo Largo do Carmo", de 1978, já podemos detectar
neles um certo leitmotiv que os integram agora nesta publicação
póstuma.
Com efeito, como bem nota o próprio
Ferrez, sobre o material coletado, "este rico acervo torna
visível e compreensível o imenso labor do homem,
drenando pântanos e lagoas, retificando rios e modificando
o perfil da orla marítima, saneando baixadas, cortando
e arrasando morros, tornando, enfim, a vida possível numa
região onde a parte plana, enxuta, era quase inexistente."
É imbuído deste espírito desbravador
que o autor vai descortinando, paulatinamente, o processo de fundação,
implantação e consolidação do Rio
de Janeiro, numa sequência inefável de imagens que
abordam temas como a arquitetura, os espaços públicos,
a escravidão urbana, a natureza, os subúrbios, os
transportes e enfim, todo um sistema de relações
materiais e simbólicas que tornaram, desde os primórdios,
tão complexa e encantadora esta Muito Leal e Heróica
cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro.
Livro conta a história
do rio de janeiro através da iconografia
Como se sabe, o território
a partir do qual se desenvolveu a cidade de São Sebastião
do Rio de Janeiro, somente passou a ser de interesse para os portugueses,
quando estes perceberam que a posse e o domínio destas
terras estavam ameaçados pelos estrangeiros, notadamente
os franceses comandados por Villegagnon -, que aqui chegaram
a fundar a célebre França Antártica (em 1555)
que serviria de refúgio para os huguenotes perseguidos
em França.
Assim, esta cidade nasceu, cresceu
e ampliou as suas estruturas urbanas, ao longo de seus quase 436
anos, sob o constante embate pela conquista, posse, e domínio
de sua ínfima área urbanizável. A urbe vingou
e, ainda hoje, não parece equivocado dizer que a despeito
da imensa área de aterro, do arrasamento dos morros pioneiros,
da canalização dos rios continua sendo uma cidade
apertada entre a montanha e o mar, e que o principal símbolo
desta complexa urdidura em que se desenvolve o Rio de Janeiro,
é o da resistência.
Desta forma, esta "Iconografia
do Rio", de Gilberto Ferrez, revela nitidamente este
processo evolutivo da cidade, desde os momentos de sua fundação
até o final do século XIX, já no início
da era republicana. Assim, desde a gravura (nΊ 5) do artilheiro
alemão Hans Staden, intitulada "Combate na Baía
do Rio de Janeiro" (1554), passando pelos famosos óleos
sobre tela de Leandro Joaquim como a (nΊ 364) "Vista da
Lagoa do Boqueirão, aqueduto da Carioca e igrejas da Lapa
e Santa Teresa" (1790) até o óleo sobre
tela (nΊ 4.276) de Hipólito Boaventura Caron, intitulado
"Vista da Gamboa no Rio de Janeiro" (1882), percebemos
com nitidez o quanto esta cidade sofreu diversas modificações
e acréscimos, no intuito de tornar-se um sítio urbano
viável para os seus resistentes habitantes.
Antônio
Agenor de Melo Barbosa é arquiteto, mestre em urbanismo
pelo PROURB / FAU UFRJ, professor da FAU UFRJ e da Universidade
Santa Úrsula
© Texto
originalmente publicado no dia 27 de janeiro de 2001, no Jornal
do Brasil |