| Paisagismo
e ecogênese
resenha de vladimir
bartalini
Foi lançado, no início
de abril, o esperado livro em que vem registrada a importante
contribuição de Fernando Chacel ao paisagismo brasileiro,
mais particularmente, ao carioca. Mas como toda boa obra, que
partindo do particular atinge o universal, aquela a que Chacel
vem se dedicando na Planície Costeira de Jacarepaguá
extrapola os limites geográficos do Rio. Ela desponta como
referência para ações similares não
só em ecossistemas assemelhados aos seus manguezais e restigas,
mas também em outros ecossistemas, sempre que se busquem
soluções de compromisso entre a urbanização
e a conservação ou recuperação dos
valores da paisagem natural.
No livro estão contemplados
sete projetos, desenvolvidos entre 1986 e 2000, em associação
com Sidney Linhares, três deles já implantados, um
em processo de implantação, um já em fase
de análise pelos órgãos públicos competentes,
um à espera de aprovação do Estudo de Impacto
Ambiental e do Relatório de Impacto sobre o Meio Ambiente
e um que só está no aguardo da decisão política
de executá-lo.
Com uma única exceção
– o da Via Parque – trata-se de projetos empreendidos pela iniciativa
privada (num dos casos em parceria com o poder municipal). São,
no entanto, quase todos, espaços que se tornaram públicos
por força de mecanismos compensatórios em troca
da permissão para a realização dos empreendimentos.
E todos envolvem a recuperação ou conservação
dos ecossistemas locais. Eles também têm em comum
uma feição predominantemente linear, fruto mesmo
das características das lagunas e restingas daquela baixada,
e obedecem a um mesmo critério geral: a passagem gradual
da faixa de proteção máxima, correspondente
ao mangue, até a mais urbanizada, que pode contar com áreas
de estar, quiosques, lagos artificiais, ciclovias, estacionamentos
e até edificações, como a do proposto Centro
de Estudos do Mar, no Parque Municipal Ecológico Marapendi.
A linguagem formal é sempre
discreta, despretensiosa, como a confirmar que os protagonistas
da cena são os manguezais e as restingas, não o
design; que a principal razão destes projetos não
reside na força da imagem e sim no esforço de preservar
ou recuperar uma natureza ameaçada ou degradada, ainda
que esta operação de salvamento se dê em faixas
estreitas, limitadas às vezes a 30 metros de largura, como
no caso de Marapendi, atendendo, provavelmente, ao mínimo
estabelecido pela legislação para as áreas
de preservação permanente junto aos mangues. Por
outro lado, num lance generoso e previdente, os projetos incluem
como áreas protegidas, faixas de restingas desamparadas
pelas leis de defesa do patrimônio vegetal natural.
O que mais impressiona nos casos
apresentados é a possibilidade e a viabilidade da recuperação
dos ecossistemas. Dando-se conta que isto vem ocorrendo no Brasil,
onde o processo de urbanização se pautou e continua
se pautando numa brutal investida sobre os valores naturais da
paisagem; dando-se conta que, revertendo a costumeira atitude
resignada diante do poder dos "fatos consumados", se
está investindo não só na proteção
dos valores, mas na recuperação dos valores destruídos,
estes projetos soariam como fantasias, se não estivessem
sendo realizados de fato.
Sem dúvida eles são
expressão das conquistas ambientalistas, de uma nova consciência.
Mas também revelam que ao capital imobiliário não
repugna, antes até pode interessar, a recuperação
de ecossistemas. Menos mal, pois antes ele só destruía.
"Paisagismo e ecogênese"
veio não só fazer jus à rica trajetória
de Fernando Chacel na sua atuação de mais de 45
anos de "paisagista autodidata", como ele se intitula.
É um livro que se fazia necessário para o mundo
profissional, para o mundo acadêmico e também para
um público mais amplo, já que as questões
envolvendo a cidade e a natureza extrapolam os limites dos especialistas.
Mas não é tarefa fácil atingir toda esta
gama de leitores. Um dos sinais das dificuldades está na
inclusão de explicações do significado de
alguns termos em notas de rodapé, à guisa de glossário.
Afora os critérios de inclusão dos termos no glossário
não serem claros nem constantes (sendo por isso melhor
dispensá-lo) o texto mesmo há de apresentar entraves
ao leitor comum, pois está basicamente apoiado numa linguagem
técnica.
Que seja, portanto, um livro para
técnicos (para os sensíveis e também para
os não tanto). Assim sendo, seriam benvindas mais informações
sobre as etapas de recuperação dos manguezais e
das restingas, mais dados e comentários sobre os empreendimentos
que motivaram tais iniciativas de recuperação e
também uma talvez prosaica escala gráfica, complementando
a preciosa representação dos projetos em planta.
Mas, sobretudo, uma planta geral da Barra da Tijuca com a localização
dos projetos. Seria assim possível apreender a real importância
deste conjunto de intervenções que chega a formar
um continuum espacial de nada menos que 13 km de extensão.
Afinal, poderia ser nosso Emerald Necklace.
Vladimir
Bartalini é arquiteto, mestre e doutor pela FAU-USP. É professor
adjunto da disciplina de Paisagismo na FAU PUC-Campinas desde
1978 e do Grupo de Disciplinas Paisagem e Ambiente da FAU-USP
desde 1985. Trabalhou de 1973 a 1977 no Departamento de Parques
e Áreas Verdes da Prefeitura do Município de São Paulo e na Empresa
Municipal de Urbanização de 1977 a 1984. Desde 1984 presta consultorias
em paisagismo para planos e projetos envolvendo áreas verdes urbanas.
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