| Formas
originais das disfunções urbanas contemporâneas *
resenha de roberto conduru
No momento
em que a vida nas cidades brasileiras torna-se a cada dia mais
problemática, é oportuna a publicação pela Editora UFRJ de Formação de Cidades no Brasil Colonial,
de Paulo F. Santos, que analisa as formas portuguesas originais
das disfunções urbanas do Brasil contemporâneo.
O
autor foi arquiteto, historiador e professor da Universidade do
Brasil (atual UFRJ), onde criou a cadeira de “Arquitetura no Brasil”,
iniciando a articulação do ensino à pesquisa e à preservação da
arquitetura nacional na formação dos arquitetos no Brasil. Compondo
uma obra numerosa na qual se destacam também A
Arquitetura Religiosa em Ouro Preto e o clássico Quatro Séculos de Arquitetura, o livro em questão foi apresentado
no V Colóquio Luso-Brasileiro, realizado em Coimbra em 1968, e
publicado originalmente como separata dos Anais do encontro. Desenvolvido
em um momento crucial do processo de transformação das cidades
brasileiras, quando os grandes centros incharam e começaram a
viver a agonia que se estende até hoje, esse estudo é a contribuição
de um pesquisador universitário dedicado à arquitetura do passado
e do presente para o debate sobre as origens e os destinos do
urbanismo no país.
O
livro divide-se em duas partes. Na primeira, as distinções históricas
entre a cidade regular e a cidade informal são revistas e subsidiam
a análise das diferenças entre as cidades de colonização hispânica
e portuguesa de modo a determinar as peculiaridades e os valores
das cidades no Brasil colonial. Na segunda parte, é proposta uma
classificação dessas cidades de acordo com os imperativos que
orientaram a sua formação: cidades de afirmação de posse e defesa
da costa e cidades do litoral; de conquista do interior; de penetração
rumo às fronteiras oeste e sul; do café; da borracha; da indústria;
além de outros tipos. Entretanto, apenas a formação do primeiro
tipo é analisada. Ao final, Paulo F. Santos dá indicações sobre
os desdobramentos necessários para um estudo mais completo do
tema, evidenciando a consciência dos limites de seu trabalho e
a existência de uma historiografia em formação.
Sergio
Buarque de Holanda, em Raízes do Brasil de 1936, aponta como, diferente da formalidade que
orienta as cidades de colonização espanhola, a falta de rigor,
de método e de ordem é o que caracteriza as cidades portuguesas
na América, fratura que reverbera até hoje nos estudos sobre o
urbanismo português. Essa oposição radical é o ponto de partida
de Paulo F. Santos, que se vale de modo pouco ortodoxo de documentos
(desde cartas régias e mapas até relatos de viajantes – Debret
e Vauthier, entre outros), de análises do Brasil (de Varnhagen
e Capistrano de Abreu a Josué de Castro e Câmara Cascudo, mas
também Gustavo Barroso e Pedro Calmon), de textos de teoria da
arquitetura (de Vitruvio a Palladio) e de análises contemporâneas
das cidades (desde estrangeiros como Saarinen, Lewis Munford e
Robert Smith a Silvio de Vasconcellos e João Boltshauser) para
defender que a cidade informal possui não só ordem, método e rigor
específicos, mas, sobretudo, valores singulares. Assim, procura
contrapor as “Leyes de Índias”, que determinaram a construção
das cidades espanholas na América, às “Ordenações do Reino”, que
subsidiaram a construção das “cidades portuguesas do Brasil”, as quais,
para o autor, são expressões “da
suma de nossa cultura artística, aquilo de que mais nos orgulhamos
de ter feito, o sulco maior deixado no tempo pela nossa sensibilidade
e nosso espírito”.
Apesar
do autor concentrar sua análise nas cidades pretéritas, ao defender
o informalismo das cidades coloniais, não deixa de posicionar-se
sobre os rumos contemporâneos do urbanismo. O estudo participa
de uma crítica ao racionalismo da cidade modernista. Nesse sentido,
apesar de não fazer críticas diretas a Brasília, o silêncio quase
total dedicado à maior realização do modernismo no Brasil revela
um certo juízo negativo. No entanto, o autor não escapa à visão
funcionalista que anima boa parte do modernismo, ao articular
o estudo da informalidade peculiar dessas cidades à classificação
das mesmas por suas funções específicas, ou seja, segundo a idéia
de que “a forma segue a função”.
Deve
ser destacado o cuidado com a nova edição. O texto é respeitado
em sua forma original e diagramado com clareza, o que facilita
a leitura de uma análise que, por vezes, envereda pela descrição
ou enumeração de fatos, dados e fontes. Quanto às imagens, houve
a preocupação com a reprodução a cores e em bom tamanho da maioria
das ilustrações usadas originalmente, além de ser indicada a localização
correta das mesmas. No prefácio, Murillo Marx situa o livro na
fortuna crítica das cidades no Brasil, ressalta a seriedade e
a maturidade do autor e postula o pioneirismo do estudo. Na orelha,
Afonso Carlos Marques dos Santos aponta a relação do livro com
outros estudos sobre a formação histórica do Brasil (Formação
do Brasil Contemporâneo, de Caio Prado Jr., Formação da Literatura Brasileira, de Antonio Candido e Formação da Economia Brasileira de Celso
Furtado), além de apontar a significância dos estudos pioneiros
da Universidade do Brasil. Nessa edição, falta apenas uma nota
sobre o autor, que, espera-se, seja incluída em Quatro
Séculos de Arquitetura, outra obra de Paulo F. Santos que
em boa hora a Editora UFRJ pretende republicar.
Roberto
Conduru é historiador da arte, professor na UERJ e na PUC-Rio
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