| Le
Corbusier e a conquista da América
resenha de maurício
a. fonseca
“Tentei
a conquista da América movido por uma razão implacável e pela
grande ternura que voto às coisas e às pessoas. Compreendi,
entre esses irmãos apartados de nós pelo silêncio de um oceano,
os escrúpulos, as dúvidas, as hesitações e os motivos que explicam
a condição atual de suas manifestações. Confiei no amanhã. Sob
uma luz como esta, a arquitetura há de nascer” (Le Corbusier.
Précisions).
O
arquiteto franco-suíço Le Corbusier é tido
como um dos maiores arquitetos do século XX e pioneiro
da arquitetura moderna mundial.
Após ter estabelecido, através
de vários projetos e estudos, uma arquitetura tecnicamente
fundamentada e capaz de atender aos reclamos físicos do
homem, começou a ocupar-se da dimensão social e
psicológica do ser humano tornando-se um idealista em demanda
de um mundo mais harmônico.
Le Corbusier – Riscos Brasileiros
de Elizabeth D. Harris, esclarece através de farta documentação
como este mestre influenciou a arquitetura brasileira a romper
com o neoclassicismo dominante nos anos 20 para produzir uma arquitetura
de vanguarda e tornar-se líder no universo da arquitetura
moderna.
O livro narra as viagens de Le Corbusier
ao Brasil, seus projetos e colaborações com arquitetos
brasileiros, sobretudo o projeto para a sede do Ministério
da Educação e Saúde (Rio de Janeiro, 1929)
edifício que deixou perplexos arquitetos do mundo inteiro
e foi considerado pela imprensa mundial como o mais belo edifício
oficial do ocidente.
Desenvolvimento
Le Corbusier viajou o mundo inteiro
ao longo de sua carreira. Seu profundo interesse pelo planejamento
urbano e consciência social fez com que se voltasse para
os países em desenvolvimento. Foi graças ao trabalho
executado nestes países que suas idéias mais avançadas,
referentes à adaptabilidade da arquitetura ao clima e a
necessidade de casas populares, puderam frutificar e ser mais
prontamente absorvidas.
Foi o Brasil que provocou nele o
impacto mais duradouro e constituiu o terreno mais fértil
para a implantação de suas idéias. O responsável
pela "apresentação" do Brasil a Lê
Corbusier foi seu amigo e conterrâneo, o poeta Blaise Cendrars,
figura importante nos círculos artísticos locais
ao lado de nomes como Tarsila do Amaral e Oswald de Andrade. Cendrars
colocou o arquiteto em contato com a intelectualidade brasileira
da época que se fez presente em suas conferências
sobre urbanismo em 1929. Nesta primeira visita elaborou um plano
urbanístico para o Rio de Janeiro que incluía um
dos primeiros projetos de alojamentos para as classes populares
do século XX. Este primeiro contato marcou profundamente
o arquiteto:
"Tentei a conquista da América
movido por uma razão implacável e pela grande ternura
que voto às coisas e às pessoas. Compreendi, entre
esses irmãos apartados de nós pelo silêncio
de um oceano, os escrúpulos, as dúvidas, as hesitações
e os motivos que explicam a condição atual de suas
manifestações. Confiei no amanhã. Sob uma
luz como esta, a arquitetura há de nascer" (Le Corbusier.
Précisions).
O próprio Le Corbusier fez
tal visão materializar-se quando regressou ao Brasil e
traçou o esboço original para o Ministério
da Educação e Saúde em 1936.
O desenvolvimento da arquitetura
moderna no Brasil teve seu ponto de partida na Semana de Arte
Moderna de 1922, paralelamente ao que ocorria em outros países
da América Latina; entretanto, o Brasil destacou-se, nos
primórdios do século, por um grupo inovador de engenheiros
que aprimorou a tecnologia do concreto armado, e de arquitetos
e engenheiros que atualizaram o currículo da Escola Nacional
de Belas-Artes, incitados por Lúcio Costa que fora nomeado
seu diretor. Essas realizações prepararam o Brasil
para a visita de Le Corbusier em 1936 e a implantação
de suas teorias.
Em 1934, sob o governo de Getúlio
Vargas, é criado o Ministério da Educação
e Saúde e nomeado o Ministro Gustavo Capanema que fez da
construção da sede do Ministério uma prioridade.
Em 23 de março de 1935 é
publicada em Diário Oficial a convocação
para o Concurso Público para escolha do projeto. O concurso
provou que o Brasil adentrara numa nova era, acolhendo arquitetos
tanto tradicionais quanto progressistas. O vencedor deste concurso
foi Archimedes Memória, porém o resultado final
não agradou ao Ministro que após submete-lo a apreciação
de engenheiros e consultores do governo julgou-o inadequado ao
seu objetivo de fazer do edifício uma notável obra
de arquitetura, digna de nossa cultura.
Após consultar várias
organizações de engenheiros e arquitetos, Capanema
solicitou a Lúcio Costa um novo projeto para o Ministério.
A honra prestada a Lúcio Costa não foi percebida
como uma oportunidade pessoal, mas como uma vitória de
toda uma geração de arquitetos batalhadores, desta
forma foram convocados por ele vários colegas para trabalharem
neste projeto: Eduardo Reidy, Carlos Leão, Jorge Moreira,
Ernani Vasconcelos e o então pouco conhecido Oscar Niemeyer.
O projeto de Lúcio Costa e
seu grupo esforçou-se por incorporar os preceitos racionais
de Le Corbusier, com o uso de pilotis definindo a estrutura de
apoio e liberando o térreo para tratamento paisagístico
de integração dos espaços internos e internos,
uso de quebra-sóis nas fachadas mais ensolaradas, cortinas
de vidro, planta livre, jardins na cobertura e uso de ventilação
e iluminação naturais.
Para demonstrar a integridade estrutural
do projeto, Capanema solicitou uma revisão crítica
a oito autoridades imparciais. O resultado foi um empate e grandes
criticas a adaptação do projeto aos princípios
de Le Corbusier considerados de futuro duvidoso.
Com tantas criticas e pressão
por parte de engenheiros e arquitetos, Capanema compreendeu que
se quisesse insistir num projeto progressista tinha que assegurar
a qualidade final do produto. Se todos os aspectos do projeto
eram inspirados nos princípios de Le Corbusier, somente
o próprio poderia garantir a excelência do desenho.
Resolveu-se convidar Le Corbusier para ministrar um curso de dois
ou três meses na Escola de Belas-Artes e dar consultoria
para o projeto do Ministério.
Durante sua estada de cinco semanas,
o arquiteto proferiu seis conferencias, desenvolveu, orientando
os arquitetos brasileiros, duas series de planos para a sede do
ministério e produziu um plano intrincado para a cidade
universitária do Rio de Janeiro.
Le Corbusier reformou inteiramente
a abordagem do desenho arquitetônico no Brasil graças
a sua maneira informal de ensinar em grupo, rejeitando o papel
de docente e trabalhando como simples membro do grupo. Ele valia-se
da técnica do trabalho em grupo por considerar que "nas
escolas se aprende a contar e a escrever, mas só se inventa
alguma coisa em trabalho de grupo. A porta do trabalho em equipe
se abre para a vida" (Le Corbusier, Aircraft).
Le Corbusier considerou o projeto
da equipe de brasileiros muito bom, porém rejeitou o terreno
escolhido para a instalação do edifício,
elegendo uma outra área, pertencente à municipalidade,
mais próxima do mar e aberta às paisagens que tanto
o impressionavam.
No geral, o plano de Le Corbusier
foi concebido e elaborado com base nas suas idéias mais
relevantes, já contidas no projeto da equipe de Lucio Costa
e apenas corrigidas por ele, no entanto, as nuances sutis e a
sofisticação dos esboços deram ao projeto
vida nova. Acrescentou esculturas, afrescos, pinturas e mobiliários,
sublinhando a importância de uma obra de arte completa,
incorporando todos os aspectos das artes plásticas. Este
cuidado com o acabamento impressionou muito os jovens brasileiros.
Os desenhos das perspectivas internas e externas exemplificavam
seu enfoque, realçando a tridimensionalidade do edifício
em contraste com o traçado acadêmico da equipe.
Devido à dificuldade em se
obter a liberação por parte do município
da área escolhida por Le Corbusier, foi solicitado pelo
Ministro um segundo projeto, a ser implantado na área original.
Este projeto, devido à falta de tempo, não foi totalmente
elaborado. Em dois dias só foi possível elaborar
uns poucos esboços. Após sua partida, Le Corbusier
continuou a participar do projeto através de cartas e dessa
forma foi informado que, mesmo contra sua vontade, o terreno original
fora escolhido para a implantação.
Após esta decisão a
equipe de arquitetos brasileiros voltou a trabalhar em seu primeiro
projeto, apenas corrigindo-o baseado-se nas criticas de Le Corbusier,
desta forma sua visita parecera não ter causado grande
impressão. No entanto, um arquiteto em particular sofrera
profunda transformação: Oscar Niemeyer acolhera
de coração as idéias do mestre. Durante o
dia trabalhava nas alterações do projeto chamado
pela equipe de "múmia" devido a sua rigidez,
mas à noite passava horas desenhando um novo projeto, onde
entravam os pontos essenciais dos projetos de Le Corbusier. Uma
manhã, em dezembro de 1936, ele levou seus novos projetos
para o estúdio e mostrou-os a Carlos Leão. Leão
ficou profundamente impressionado com o notável design
baseado nos esboços do mestre e a assimilação
dos ensinamentos de Le Corbusier pelo jovem arquiteto. Quando
Lucio Costa chegou, Niemeyer pegou seus planos e jogou-os pela
janela, temeroso de que aquele o considerasse insolente por trabalhar
sozinho num novo projeto. Leão falou a Lúcio sobre
o impressionante conjunto de projetos elaborados por Niemeyer
e insistiu com este para apanhá-los imediatamente.
A 5 de janeiro de 1937 os planos
de Niemeyer foram apresentados oficialmente a Capanema à
maneira profissional que Le Corbusier mostrara aos arquitetos
brasileiros, incluindo um desenho em perspectiva com palmeiras
imperiais, pessoas, carros e a sempre presente escultura O Homem
Brasileiro, com dez metros de altura, de Celso Antônio.
Em 1942, a sede do Ministério
da Educação e Saúde achava-se concluída.
A força critica do Estado Novo condenou o projeto por seu
elevado custo e construção demorada, a ele se referindo
como o "Palácio do Luxo" e uma "preocupação
megalomaníaca". Pouco depois um súbito silencio
se abateu sobre a imprensa brasileira, quando arquitetos de Nova
Iorque e Londres começaram a visitar o país e a
relatar a excelência da arquitetura praticada no Brasil.
Quando Philip Goodwin, arquiteto do Museum of Modern Art, visitou
o Brasil em 1942 e afirmou considerar o Ministério como
"o mais avançado edifício das Américas",
os jornais brasileiros deram uma guinada e passaram a chamar o
edifício de "uma obra notável da moderna arte
brasileira".
Tão impressionado ficara Goodwin
com a sede do Ministério, assim como com os demais edifícios
inspirados por ela, que planejou uma grande exposição
da arquitetura brasileira. A mostra foi inaugurada a 13 de janeiro
de 1943, com todo o primeiro andar do Museum of Modern Art dedicado
à exposição, depois viajou para vários
museus e galerias universitárias fazendo sua ultima aparição
em Londres, em abril de 1944.
Após a viagem de 1936, Le
Corbusier seria convidado para trabalhar com arquitetos brasileiros
em numerosos projetos, dentre eles o projeto das Nações
Unidas (1947) que voltou a reuni-lo a Oscar Niemeyer, convidado
para representar o Brasil na numerosa equipe de arquitetos. A
reputação de Niemeyer fora grandemente favorecida
com o projeto do Ministério. Em 1947 ele dispunha de seu
próprio escritório e já estava empenhado
na execução de outro projeto governamental, o da
Pampulha. Nestes projetos para o edifício sede das Nações
Unidas foram observadas muitas semelhanças com o projeto
para o Ministério.
Le Corbusier chegou a ser consultado
sobre uma possível participação na construção
da nova capital do Brasil e respondeu dizendo que o projeto deveria
ser criação brasileira, mas que gostaria muito de
colaborar na construção da cidade. Corbusier foi
impedido de concretizar esta ambição pela Ordem
dos Arquitetos Franceses, por não ser membro desta instituição,
que desprezava.
Apesar de Le Corbusier não
poder participar pessoalmente na elaboração e construção
de Brasília, Lucio Costa e Niemeyer esboçaram um
plano urbanístico e projetaram edifícios que muito
deviam as idéias de Le Corbusier.
O Brasil também causou profunda
impressão pessoal em Le Corbusier, manifestada em sua constante
amizade com os brasileiros e no brasileiríssimo estilo
de vida que levava em sua casa de verão em Cap Martin,
onde ele nadava todas as manhãs e tinha uma janela de onde
se tinha uma imensa vista do oceano, vida tão semelhante
à que ele levara no Rio de Janeiro como visitante.
Em 1962, Le Corbusier fez sua derradeira
viagem ao Brasil. Desde a viagem de 1936, entusiasmara-se com
a idéia de construir no país uma Casa Franco-Brasileira.
Com Brasília ainda em construção, a Embaixada
Francesa surge como uma oportunidade para Le Corbusier realizar
seu sonho. Em dezembro de 1962 examina o local antes de preparar
um plano. A viagem foi auspiciosa, porque reuniu todos os arquitetos
e demais pessoas que participaram do projeto do Ministério
da Educação e Saúde e deu-lhe a oportunidade
de ver a estrutura acabada do edifício e a nova capital
do Brasil.
A resposta de Le Corbusier ao que
ele viu no Brasil em 1962 foi resumida numa carta que prefaciava
a edição final de Ouevre Complète:
"Brasília esta construída.
Eu vi a nova cidade. É grandiosa em sua invenção,
coragem e otimismo; ela nos fala desde o coração.
É obra de dois grandes amigos e, através dos anos,
companheiros de luta: Lucio Costa e Oscar Niemeyer. No mundo moderno
Brasília é única. No Rio há o Ministério
da Educação e Saúde Pública (1936-1945).
Há as obras de Reidy. Há o monumento aos que tombaram
na grande guerra. Há muitos outros testemunhos. Minha voz
é a de quem viaja através do mundo e da vida. Permitam-me
amigos do Brasil, dizer-lhes muito obrigado!" (Le Corbusier,
Ouevre Complète).
Conclusão
Usando uma linguagem predominantemente
jornalística, a autora descreveu com riqueza de detalhes
a relação mantida entre uma geração
de arquitetos brasileiros e o mestre Le Corbusier. Fica claro
através da leitura do livro o quanto nossa arquitetura
moderna e a carreira desses arquitetos em particular foi influenciada
pelas suas visitas.
Elementos e soluções
arquitetônicas que hoje fazem parte do nosso dia-a-dia,
inovações que trouxeram, nas primeiras décadas
do século XX, o futuro da construção civil
para o Brasil. Sobretudo o esforço desta geração
de arquitetos, engenheiros e autoridades que lutaram por fazer
da arquitetura brasileira algo grandioso, belo e significativo,
mostrando ao mundo todo o quanto o Brasil tinha e tem a dizer
nesse ramo.
Lúcio Costa faleceu em 1998
depois de mais de setenta anos de carreira, Oscar Niemeyer continua
ativo aos noventa e quatro anos de idade. Este livro nos mostra
a aurora de suas carreiras, sem dúvida uma ótima
referência, uma reflexão sobre os grandes feitos
realizados no século que a partir de agora teremos que
nos acostumar a chamar de "século passado".
Maurício
A. Fonseca é arquiteto formado pela UNIDERP Universidade para
o Desenvolvimento do Estado e da Região do Pantanal em 1996, e
reside em Campo Grande MS |