| O olhar
de Salgado sobre a Ásia: o Oriente é aqui?
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resenha de heitor frúgoli
jr
Dentre
as realidades enfocadas pela notável produção do fotógrafo Sebastião
Salgado em seu último livro - Êxodos -, resultado de sete anos
de visitas a dezenas de países para o registro de inúmeros movimentos
populacionais, cabe discutir alguns pontos em torno de um tema
menos destacado, mas não de menor importância: as megacidades
do Terceiro Mundo, sobretudo as asiáticas, de um modo geral menos
consolidadas que as latinas, pontos de chegada de vários desses
fluxos migratórios.
É clássica nos países mais
pobres a discussão sobre as estratégias para se superar o atraso
econômico, sendo que, mais recentemente, parte desse debate tem
se deslocado para a necessidade decisiva das megalópoles dessas
nações alçarem-se à condição de "cidades globais". Não cabe detalhar
nesse curto espaço o teor dessa discussão, mas apenas lembrar
que algumas avaliações baseiam-se em atributos e fluxos econômicos
presentes em metrópoles como Nova York, Londres e Tóquio, a partir
sobretudo do livro The Global City (1991), de Saskia Sassen, que
ajudou a fixar tais cidades como as principais referências.
As fotos de Salgado, por
sua vez, permitem uma incursão em megacidades que sofreram, em
poucas décadas, um enorme crescimento populacional por conta de
novas migrações camponesas e que, apesar de um forte dinamismo
econômico, apresentam um grave quadro social e uma difícil governabilidade,
dados tanto pela herança histórica quanto pelas conjunturas mais
recentes. São cidades como Bombaim (Índia), Cairo (Egito), Xangai
(China), Istambul (Turquia), Manilha (Filipinas), Ho Chi Minh
(ex-Saigon, Vietnã) e Jacarta (Indonésia), que, somadas, abrigam
em suas áreas metropolitanas por volta de 70 milhões de habitantes.
Temos visões bastante vagas
a respeito de muitas delas, nas quais a pobreza se mescla a um
imaginário de forte exotismo. Porém, por meio de sucessivas aproximações
proporcionadas pelas fotos, vislumbra-se as estratégias de ocupação
urbana pelos pobres e migrantes, os precários espaços de moradia,
as formas de sobrevivência no mercado formal e informal, além
de várias manifestações culturais e religiosas visíveis nos espaços
públicos, fenômenos que, no conjunto, nos aproximam daquela realidade
e rompem com muito do seu inicial exotismo, permitindo o desvelamento
de aspectos comuns a essas várias realidades urbanas.
Cabe comentar aqui apenas
algumas fotografias, por seu poder de síntese ao ressaltar ou
revelar características fundamentais dessas megacidades. A foto
de uma rua num centro comercial de Bombaim (420), totalmente tomada
por pedestres, com uma circulação congestionada de carros, evidencia
a superpopulação e a força do comércio informal, quase que uma
antítese da rua moderna do século 20, pensada por Le Corbusier
como uma "máquina de tráfego".
Se essa imagem faz lembrar,
guardadas certas proporções, algumas áreas comerciais do Centro
de São Paulo, como a Rua 25 de Março, sobretudo em períodos natalinos,
duas fotos de Manilha (398 e 416), por sua vez, mostram barracos
rentes a linhas férreas, feitos e ocupados por milhares de sem
teto, com riscos constantes de acidentes, criando-se uma paisagem
muito parecida com uma favela que há pouco conheci no bairro do
Jaguaré, em São Paulo.
Chamam também a atenção
em algumas fotos os territórios rurais rápida e recentemente invadidos
pelas fronteiras urbanas, como em Jacarta (360), onde grandes
edifícios de escritório ladeiam plantações, ou no Cairo (361),
em que prédios residenciais vêm invadindo dramaticamente a estreita
faixa rural e fértil do Egito, às margens do rio Nilo. Tais espaços
diferenciam-se das assim chamadas paisagens "rurbanas" - termo
usado nos anos 80 para áreas periféricas de São Paulo ocupadas
por migrantes, mas até então não devidamente urbanizadas -, já
que nas imagens presentes configura-se um forte contraste entre
um resistente âmbito rural e uma urbanização contemporânea de
grandes edifícios, que não reconhece ou dialoga com qualquer alteridade
em seu entorno.
Não virá isso a acontecer
caso São Paulo continue a expandir sua centralidade terciária
rumo à periferia do "vetor sudoeste", em direção à Represa de
Guarapiranga?
Ainda com relação ao Cairo,
Salgado conta que no final dos anos 70, para tentar amenizar sua
saturação populacional, autoridades construíram algumas cidades
novas na periferia, algumas delas "dormitórios", para milhares
de habitantes. Poucos entretanto foram morar nesses locais isolados,
formando "cidades-fantasma" como a de Sheik-Ziawiad (364), atestando
as recorrentes dificuldades de implantação de grandes projetos
governamentais.
É inevitável mencionar
uma "nova paisagem urbana global", desterritorializada, que emerge
em certas áreas dessas megacidades, presente nos conjuntos de
edifícios dos novos centros financeiros ou do setor terciário
moderno, como o distrito de Kuningan, em Jacarta (370-1), muitas
vezes também erguidos sobre as ruínas de antigos bairros populares,
como o distrito de Pudong, em Xangai (367). Estamos longe, entretanto,
de uma homogeneização desses locais. Contrastando com a maioria
das imagens do livro, onde se estampa um grande sofrimento, uma
foto de pessoas dançando numa praça de Xangai, tendo ao fundo
sua skyline (378), evidencia tanto a reinvenção da tradição quanto,
segundo o autor, uma esperança por dias melhores, apesar de todos
os problemas ligados à introdução do capitalismo em meio a um
planejamento centralizado comunista, ainda presente na China.
Se as "cidades mundiais"
aparecem, portanto, como referência de um futuro desejável, dentro
de nossa tradição de nos mirarmos ora na Europa, ora nos Estados
Unidos, uma visão sobre as megalópoles subdesenvolvidas nos aponta
outras facetas dessa globalização, que dialogam não com um horizonte
desejado, mas como um presente que se quer duramente superar.
Sem dúvida, o livro ajuda-nos a dirigir-lhes um olhar mais atento.
Heitor
Frúgoli Jr é cientista social e professor de antropologia
do Departamento de Antropologia, Política e Filosofia da Faculdade
de Ciências e Letras da UNESP/Araraquara, É autor de "Centralidade
em São Paulo: trajetórias, conflitos e negociações na metrópole"
(Cortez/Edusp/Fapesp, 2000) e co-organizador da coletânea "Shopping
Centers" (Ed. Unesp, 1992).
© Texto originalmente publicado
no Jornal da Tarde, Caderno de Sábado, Sábado,
17 de junho de 2000.
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