| Política
habitacional e arquitetura
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resenha de abilio guerra
"Construir
habitações econômicas é fazer, ao mesmo
tempo e necessariamente, urbanismo"
O segundo
turno da recente eleição para governador do Estado
de São Paulo teve como duelistas dois candidatos antípodas.
A história política, o trato da coisa pública,
a ética (ou falta dela), o comprometimento com a democracia,
os valores em geral, enfim, tudo indica uma diferença absoluta
entre Mário Covas e Paulo Maluf, o que até explica
o surpreendente apoio de correntes políticas adversárias
ao vencedor.
Infelizmente,
as políticas habitacionais implementadas por ambos, à
frente dos governos do Estado e da Prefeitura Municipal, igualam-se
nos erros crassos e na carência de qualidades elementares.
Os conjuntos habitacionais de interesse social construídos
pela prefeitura (Cingapura) e pelo Estado (CDHU) estão
em total sintonia com o marketing político imperante no
Brasil desde a eleição de Collor de Mello à
presidência da República, onde slogans e logotipos
substituem o discurso político articulado. Nesse quadro
nefasto, a questão dramática da habitação
social é respondida com projetos-outdoors, onde a repetição
formal e a disposição urbana visam a imediata e
reiterada identificação do político responsável
pela obra, passando ao largo de qualidades ambientais e urbanísticas,
também elas de responsabilidade do poder constituído.
É a
partir desse quadro esboçado que apresentamos a epígrafe
do artigo para reflexão do leitor. A frase acima pode ser
encontrada, com pequenas variações, em escritos
de diversos arquitetos modernos europeus da primeira metade deste
século. O advento da grande metrópole e da sociedade
de massas mudou de maneira irreversível a escala dos problemas
urbanos e o equacionamento dos mesmos demandou uma renovação
radical do pensamento urbanístico. Contra o aparente caos
do crescimento desordenado foram propostos sucedâneos diversos
pelos mestres do movimento moderno, sendo consensual a constatação
que parte substancial dos problemas urbanos se relacionavam às
péssimas condições habitacionais a que estava
submetida a quase totalidade da classe trabalhadora. Solucionar
o problema habitacional, nesse sentido, seria fazer "necessariamente"
urbanismo.
Nossa epígrafe,
contudo, não é de autoria de Walter Gropius, Le
Corbusier, Hannes Meyer ou outro arquiteto ilustre. Ela está
registrada em um documento burocrático do Instituto de
Aposentadoria e Pensões dos Industriários (IAPI),
datado de 1940. Quem a garimpou e reproduziu foi o arquiteto,
professor e pesquisador Nabil Bonduki, autor de "Origens
da habitação social no Brasil", significativo
levantamento e reflexão sobre a conformação
da questão habitacional no interior de nossos órgãos
públicos após a Revolução de 30. A
sintonia entre o Relatório do IAPI e o pensamento urbanístico
moderno europeu, segundo o autor, aponta para um corpo técnico
muito bem preparado, cuja atuação, não fossem
as contradições estruturais do Governo Vargas, poderia
ter redundado em uma política habitacional mais coesa e
duradoura.
Os Institutos
de Aposentadoria e Pensões constituíram-se como
um dos mais importantes braços da política varguista
de cooptação da classe trabalhadora. Organizado
por categorias – IAPB dos bancários, IAPC dos comerciários,
IAPE dos marítimos, etc. – os IAPs acabaram atuando também
na área habitacional, um claro desvio de seus objetivos
originais. Essa atuação nunca chegou de fato a ganhar
a dimensão necessária para equacionar o problema
habitacional da população em geral, pois tinha uma
abrangência restrita ao atender apenas os trabalhadores
sindicalizados, uma distorção autoritária
do Estado de Bem-Estar Social que não foi sanada nem mesmo
após a democratização do pós-guerra.
Se a quantidade
e, fundamentalmente, a falta de continuidade e especificidade
eram aspectos problemáticos, a política habitacional
dos IAPs alcançou uma qualidade inédita, abrigando
em seus quadros excelentes arquitetos e um corpo técnico
sofisticado, aberto à experimentação e à
inovação. Ao tratar desta questão, o livro
de Bonduki surpreende ao apresentar diversos projetos pouco conhecidos,
muito bem projetados, com tipologias e implantações
variadas, onde pode se verificar a influência da produção
moderna européia, em especial das Siedlungen alemãs
e das Unités de Habitation de Le Corbusier. O autor
faz questão de apontar o quanto a historiografia da arquitetura
brasileira se esqueceu desta produção, onde brilharam
arquitetos da estirpe de Carlos Frederico Ferreira e Attílio
Corrêa Lima.
O urbanismo
habitacional de extrato moderno colocado em prática pelos
IAPs, baseado em grandes conjuntos habitacionais para locação
e equipamentos coletivos anexos, contradiziam a ideologia do Estado
Novo, que concebia a família como célula básica
da nação e antídoto natural para a promiscuidade
moral e agitação política. A casa própria
isolada – que atendia aos pressupostos sanitaristas de salubridade,
ideário muito em voga desde a República Velha –
era mais condizente com o populismo de Getúlio Vargas,
afinal a propriedade particular amorteceria o fulgor revolucionário
em voga no mundo. Essa ambigüidade, segundo o autor, é
derivada de um conjunto de fatores distintos, entre eles a política
de investimentos dos IAPs, que enxergava nos conjuntos uma maneira
de valorizar o patrimônio e obter recursos com os aluguéis.
Neste aspecto, é sintomático que as explicações
oficiais destaquem o aspecto financeiro em detrimento das inovações
do morar inerentes aos conjuntos modernos. Não é
de se estranhar que na mudança para o modelo habitacional
pós-64 (casinhas e conjuntos do BNH) estas novidades tenham
sido abandonadas sem maiores problemas.
As qualidades
do livro de Nabil Bonduki são imensas. Do ponto de vista
estrito da historiografia da arquitetura, ao escavar essa temática
inovadora, deixa à vista ricos veios a serem explorados
por pesquisas complementares. Em uma visada mais abrangente, o
livro relaciona âmbitos diversos da habitação
social – sua dimensão humana e coletiva, suas implicações
no processo de urbanização de nossas cidades, a
importância do fomento e controle estatais, sua relevância
como tema para a arquitetura e urbanismo, etc. O autor nos desafia
à não aceitação passiva – como cidadãos
e como arquitetos – do embuste que nos tem sido impingido pelos
governantes nas últimas décadas. Esta relação
entre a reflexão crítica e a atuação
política é característica do próprio
autor, ele mesmo um antigo pesquisador acadêmico do problema
habitacional e ex-membro de equipe técnica Secretaria da
Habitação da Prefeitura de São Paulo.
Na leitura
que propomos aqui, estranhamos a recusa de Bonduki em tratar das
transformações radicais sofridas através
dos tempos pelos conjuntos construídos pelos IAPs. "Por
razões que não vêm ao caso desenvolver, a
maior parte das propostas mais originais destes conjuntos estudados
foram sendo gradativamente desativadas, desmontadas, destruídas"
(p 176). Pensamos que a clara compreensão dessas razões
são essenciais para uma reconciliação crítica
com esse passado. Vale lembrar que os grandes conjuntos modernos
também se deterioraram mesmo nos países mais ricos.
As imensas barras modernistas construídas na França
e na Alemanha Oriental no segundo pós-guerra passam hoje
por intenso processo de remodelagem que propõe, muitas
vezes em simultâneo, a construção de equipamentos
coletivos inexistentes (completando o projeto moderno inconcluso),
o estabelecimento de vínculos com a rua e com a cidade
tradicional (contrariando princípios do urbanismo modernista)
e a "derrubada" de partes dos edifícios para
se obter condomínios mais administráveis (negando
um modo de vida coletivo mais radical).
Esse "ponto
cego" nem de longe invalida a grande contribuição
deste livro: a de se colocar como ponto de partida para um debate
não apenas entre acadêmicos especialistas, mas também
entre arquitetos, urbanistas, políticos e – por que não?
– cidadãos comuns, em busca de uma solução
concreta para a habitação social. Tal perspectiva
nos leva a subscrever a palavra de ordem de Nabil Bonduki: "a
recusa em pesquisar, analisar e incluir estas obras, que tem predominado
na historiografia oficial da arquitetura moderna brasileira, contribuiu
para reforçar o divórcio entre arquitetura e habitação
social que predominou a partir de 1964. Resgatar esta memória
é fundamental." (p 144)
Abilio Guerra é
professor da FAU PUC-Campinas e editor de www.vitruvius.com.br
© Texto originalmente publicado
no Jornal de Resenhas, Discurso Editorial / Usp / Unesp / Folha
de São Paulo, nº 44, 14 novembro, São Paulo SP, p 4. Reprodução
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