| A
esfinge silenciosa
resenha de abilio guerra
Um
pequeno livro, lançado no ano passado, passou quase desapercebido.
Com um título provocativo Por uma história
não moderna da arquitetura brasileira e uma escrita
afiada, busca abrir espaço para uma futura história
do Ecletismo nacional. A inexistência de bons estudos sobre
o tema é atribuída à hegemonia da história
do modernismo, constituída à sombra do ideário
de Lúcio Costa. Segundo Puppi, autor do livro, ao esquematizar
a evolução histórica de nossa arquitetura
na antinomia nacional (positivo) versus internacional (negativo),
Lúcio Costa considerou o ecletismo um estrangeirismo desqualificado.
O autor critica (com inteira razão) tal modelo interpretativo,
onde "verdades" são advogadas sem o amparo dos
"fatos". Todos os autores subsequentes esbarrariam,
direta ou indiretamente, nesse interdito original, consolidando
com o tempo a "vilanização" do ecletismo.
Puppi manipula
com grande controle os textos selecionados, demonstrando as filiações,
adulterações, falseamentos, deslizamentos conceituais,
montagens e desmontagens de esquemas e periodizações.
O leitor fecha o livro com a satisfação de ter verificado
os mecanismos de engendramento de visões sobre nós
mesmos que de tão corriqueiras poderiam passar por naturais.
Contudo, convivendo com essa qualidade, dois problemas prejudicam
o equilíbrio geral do livro.
Em primeiro
lugar, afora referências genéricas, inexiste uma
preocupação sistemática com o profundo enraizamento
do pensamento de Lúcio Costa em nosso universo cultural,
em especial na ampla discussão das vicissitudes da cultura
nacional que monopolizou por décadas antes e depois
nosso debate intelectual. A montagem dos lugares-comuns da história
da arquitetura brasileira ultrapassam em muito os textos de Lúcio
Costa e o enfoque personalizado de Puppi só colabora na
mistificação de seu protagonismo e na corroboração
de uma história feita por gênios e heróis.
O segundo
ponto de incômodo é mais dissimulado. Ao reivindicar
um lugar de honra para o ecletismo, Puppi provoca uma grande curiosidade:
quais seriam as qualidades nunca vistas do ecletismo? Esboçada,
uma vaga resposta surge no final do livro e é surpreendente:
teria escapado aos estudiosos a dimensão positiva do ecletismo
sua relação com o pensamento racionalista francês
e, em decorrência, seu papel progressista nas três
primeiras décadas deste século.
Sem qualquer
pesquisa factual, Puppi coloca o ecletismo na genealogia do moderno.
Surpreende não apenas o fato em si, mas também a
percepção de que todo o esforço crítico
se esfumaça na atitude conformista de incluir o estilo
eclético na história do vencedor, ou seja, avaliar
"em que medida a modernidade do passado [do eclético,
no caso] está presente na arquitetura moderna carioca"
(p 180). Ao priorizar a continuidade, Puppi retira do modernismo
talvez sua bandeira mais cara: a da ruptura com o passado!
O livro de
Marcelo Puppi nos abre uma perspectiva interessante para avaliar
um outro lançamento de peso, o esperado Arquiteturas
no Brasil, 1900-1990, de Hugo Segawa. Esperado não
só devido às grandes qualidades de seu livro anterior
sobre Oswaldo Bratke, mas principalmente pelo desafio que aceitou:
tirar do francês Yves Bruand o privilégio da autoria
do único manual sobre a arquitetura brasileira do século
XX. Interessante notar que Segawa e Puppi compartilham o mesmo
juízo crítico sobre a arquitetura contemporânea
brasileira: suas diversas qualidades esbarram na abordagem
laudatória e apologética do modernismo feita pela
historiografia existente.
O plural do
título não é suficiente para dar ao ecletismo
uma posição de destaque na evolução
arquitetônica brasileira deste século, mesmo que
Segawa crie essa expectativa ao afirmar que Bruand "assimilou
todos os preconceitos modernistas contra a arquitetura do ecletismo"
(p 15). As arquiteturas de Segawa derivam de uma avaliação
prévia "não há definição
unívoca de modernidade" (p 16). O nódulo comum,
que permite às múltiplas "modernidades"
compartilharem o mesmo rótulo genérico, é
a participação na modernização do
país. Tal perspectiva permitiria, caso fosse desejo do
autor, a entrada do ecletismo comprometido com o progresso no
quadro geral das "arquiteturas brasileiras". Estaria
assim realizado o sonho de Marcelo Puppi!
A semântica
adotada por Hugo Segawa "a busca de alguma modernidade",
"modernidade pragmática", "modernidade corrente",
"episódios de um Brasil grande e moderno" confirma
a prevalência de uma visão de história apoiada
nos vetores gerais da evolução social. Consequentemente,
onde a narrativa segue à risca tal estrutura, ganha mais
peso e densidade. É o caso, por exemplo, dos projetos das
grandes hidroelétricas, vistos como materializações
do ideário desenvolvimentista, ou dos projetos seriados
para os órgãos públicos (Correios e Telégrafos,
Escolas), em total sintonia com a racionalização
da administração proposta pelo Governo centralizador
de Vargas.
A periodização
de Hugo Segawa tem como critério básico o modo como
cada momento se relaciona com o processo de modernização
tecnológica e social do país. Nosso primeiro modernismo
(Warchavchik e Flávio de Carvalho), tributário do
funcionalismo vanguardista europeu, é chamado de "modernismo
programático". À margem desse modernismo engajado,
temos a "modernidade pragmática", um sem número
de experiências construtivas dos mais diversos extratos
(industrialismo de Roberto Simonsen, moderno a la Perret,
arranha-céu Art Déco), cujo ponto comum é
a modernização da construção civil.
Ao processamento
histórico resultante do encontro entre Le Corbusier e o
grupo de Lúcio Costa, Segawa chama de "modernidade
corrente", adjetivação indicativa da supremacia
desta em relação às outras modernidades.
Contudo, seu método se mostra esquemático e ineficaz
ao tratar da síntese primitivismo-modernização
e os resultados que obtém na compreensão das razões
da hegemonia ficam aquém dos conquistados por Puppi.
Ao priorizar
a coordenada externa da evolução sócio-econômica,
Segawa acaba por esvaziar tal como Puppi o fizera por caminhos
totalmente diversos a faceta transgressora e engajada do modernismo.
O decalque quase absoluto às idéias modernistas
presente nas páginas de Bruand é substituído
pelo relativismo, onde cada modernidade dá sua contribuição
específica no caminho do progresso. E nunca é demais
denunciar que o relativismo absoluto acaba por justificar toda
e qualquer mazela. Como não sentir um frio na espinha diante
da absolvição completa do arrivismo neo-liberal
dos grandes escritórios, tendo como justificativa o compromisso
destes com a "eficiência tecnológica"?
(p 196)
Mesmo se constituindo
em importantes colaborações para o estudo mais sistemático
que começa a se consolidar em torno de nossa arquitetura,
os dois livros deixam intacto o constructo ideológico
chamado arquitetura moderna brasileira. As perguntas que
nós, investigadores da arquitetura, estamos fazendo devem
estar equivocadas. Afinal, a esfinge permanece silenciosa.
Abilio Guerra é
professor da FAU PUC-Campinas e editor de www.vitruvius.com.br
Texto originalmente publicado
no Jornal de Resenhas, Discurso Editorial / Usp / Unesp / Folha
de São Paulo, nš 51, 12 junho, São Paulo SP, p 2. Reprodução
proibida
Leia
também "Arquiteturas
no Brasil. 1900-1990",
de Ruth Verde Zein, e "Histórias
da arquitetura",
de Carlos Lemos, sobre o livro de Hugo Segawa |