| O
véu e a mortalha
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resenha de abilio guerra
A filósofa
Otília Arantes mantém nos últimos anos uma
curiosa relação com a instituição
arquitetura. Professora na área de pós-graduação
da FAU-USP, tem sido sistematicamente convidada para os mais diversos
eventos promovidos por Universidades e órgãos representativos
da área, mantendo com arquitetos e professores de arquitetura
um contato íntimo, o que não necessariamente derivou
para um diálogo. Como o que diz coloca em cheque muito
do que se faz na "academia" e na "prancheta",
talvez seja mais simples aplaudir e silenciar.
O mais recente
livro de Otília, com o título sombrio "Urbanismo
em fim de linha", é uma coletânea de textos,
alguns deles apresentados originalmente em palestras. Nele podemos
acompanhar alguns argumentos já trabalhados em textos anteriores,
em especial no seu livro "O lugar da arquitetura depois dos
modernos", com o qual mantém evidente diálogo,
a começar pelo projeto gráfico idêntico. Mesmo
caracterizado como tomo II, o livro recém-lançado
revela mudanças em algumas avaliações, provocadas
provavelmente pela evolução mais recente da arquitetura
e não por um redimensionamento teórico.
Em uma redução
que nos obriga o espaço disponível, poderíamos
arriscar resumir a argumentação de Otília
em três premissas básicas. A primeira seria a identidade
estrutural entre o projeto moderno das vanguardas arquitetônicas
e a modernização levada a cabo pelo desenvolvimento
capitalista das forças produtivas. A utopia reformadora
presente na origem do Movimento Moderno é tributária
da positividade do progresso tecnológico e valores subsidiários
– estandardização, padronização, simplificação
formal, etc. Essa mácula original tornaria sem sentido
as hipóteses de desvio ou deformação da arquitetura
moderna em seu desenvolvimento ulterior defendidas pelos "salvadores
do moderno".
A segunda
premissa é a inexistência de rupturas na evolução
da arquitetura moderna, apenas acomodações provocadas
pelas metamorfoses sofridas pelo capitalismo. Ou seja, os diversos
movimentos arquitetônicos da segunda metade do século,
aos quais é dada a rubrica genérica de pós-moderno,
são resultantes do desenvolvimento natural da arquitetura
moderna. Ao fracassar diante do caos urbano, o mito da planificação
urbana global – fruto inconteste do funcionalismo inicial e culminância
da utopia modernista – desmorona, deixando solitário o
formalismo abstrato. Sem sua dimensão utópica, a
arquitetura enreda-se nos encaminhamentos possíveis à
autonomia estética assumida, celebrando a "diferença,
a efemeridade, o espetáculo, a moda, etc."
A terceira
premissa é a contestação de que o ramo brasileiro
da arquitetura moderna seja um tipo de regionalismo. A graça,
sensualidade e leveza de nossa arquitetura tem sido tratada por
louvadores e detratores como características oriundas da
falta de base material para a implantação da arquitetura
moderna em solo tropical. Para os primeiros, uma prova cabal de
nossa originalidade; para os segundos, um desvio irracional que
leva à indisciplina programática e aos excessos
formais. Otília discorda na base dos argumentos. Para ela
a arquitetura moderna brasileira é uma "aplicação
fiel das lições modernas num contexto diverso do
original". A ausência da utopia em um modernismo fomentado
pelo Estado traz à luz do dia o formalismo essencial da
Arquitetura Moderna.
Como já
deve estar claro para o leitor, estamos diante de uma explicação
histórica materialista onde as demandas infra-estruturais
do modo de produção determinam a evolução
super-estrutural da cultura. Como Otília assume uma determinação
rígida, os mais variados encaminhamentos da arquitetura
deste século acabam se tornando aos seus olhos apenas representações
ideológicas. Alguns movimentos, como o regionalismo
crítico de Frampton e as teorias do lugar de
Rossi e Gregotti, aos quais ela atribuía em textos anteriores
teor crítico e possibilidades de resistência e subversão,
tornam-se agora expressões ideológicas das novas
acomodações do capital.
Como não
pode atribuir à uma má-fé ou ingenuidade
universais a sucessão de enganos e quimeras produzidos
pelos arquitetos modernos, Otília apela para uma psicanálise
difusa. Conceitos como auto-consolo, racionalização,
deslocamento, narcisismo, fobia e sublimação são
arregimentados para contornar o problema. O mundo anímico
humano recebe os impulsos do mundo material e a ele devolve alguma
"veleidade compensatória" ou "alheamento"
diversionista. Ao negar o caráter eficiente (e não
apenas representativo) e intelectivo (e não apenas ideológico
ou pulsional) do discurso arquitetônico – o que estaria,
no nosso modo de ver, mais ajustado à dialética
marxista – Otília nos lega um mundo governado por forças
intransponíveis do Capital que, na sua versão globalizante
atual, coloniza "as últimas zonas remanescentes de
pré-capitalismo": o "Terceiro Mundo" e o
"inconsciente". (p 178)
Não
há como negar que a argumentação de Otília
Arantes é magnífica em sua estruturação
e na sua fluência. Ficamos tomados por sua retórica,
convencidos da "verdade" que nos conta, uma verdade
fria, implacável. Verdade que se encontrava sempre lá,
desde a origem, mas que foi sempre acobertada por véus,
véus que a autora vai retirando um a um. Não há
como dizer, com absoluta segurança, que esteja errada,
que a ilusão seja dela e não nossa. Diríamos
até que é bem possível que esteja certa e
que uma ou outra objeção que aqui fizemos sejam
frutos de nossa recusa em aceitar o destino inelutável,
afinal o futuro imediato que nos prognostica é terrível
em sua irreversibilidade:
"Essa
mundialização do capital (...) gera descompassos,
segregações, guetos multiculturais e multirraciais,
ao mesmo tempo que desterritorializações anárquicas,
crescimentos anômalos e transgressivos – verdadeiros focos
explosivos que devem esgotar suas energias numa entropia intransitiva,
numa guerra interna generalizada, de facções e gangues,
enquanto consomem e exportam formas culturais e religiosas cada
vez mais sincréticas, criando uma vaga sensação
generalizada de reconciliação democrática.
Reposição das diferenças que não é
senão sublimação cultural, forjando,
na ausência de referências sociais objetivas, identidades
meramente simbólicas" (pp 187-188).
A sublimação,
proposta por Freud como um mecanismo positivo por liberar criativamente
as energias represadas por traumas recalcados, converte-se nas
mãos de Otília em mecanismo bastardo de produção
ideológica. O teor crítico do sonho ou da arte evapora-se
diante dessa reiteração da subjugação.
Em um mundo assim apocalíptico, onde qualquer proposição
se vê transformada no seu contrário, alimentando
aquilo que ingenuamente queria combater, não há
mais lugar para propostas construtivas para a cidade. É
o fim do urbanismo. Esperar novos encaminhamentos do capitalismo
ou mesmo sua derrocada final, praticando uma arquitetura de sobrevivência,
é o que nos resta. Diante dessa possibilidade, mesmo que
verdadeira, parece tão estranho que os arquitetos estejam
ignorando suas palavras?
Abilio Guerra é
professor da FAU PUC-Campinas e editor de www.vitruvius.com.br
© Texto originalmente publicado
no Jornal de Resenhas, Discurso Editorial / Usp / Unesp / Folha
de São Paulo, nº 48, 13 março, São Paulo SP, p 5. Reprodução
proibida
Leia
também "Nem
arquitetura nem cidades",
de Luiz
Recamán, sobre o livro de Otília Arantes |