| A
moderna morada paulista *
resenha de abilio guerra
A história
da arquitetura moderna brasileira está, em grande parte,
por se fazer. Carente ainda de obras de fôlego, que a cubra
de maneira extensiva, dando conta das vicissitudes de sua evolução,
ela encontra-se, de forma fragmentária, confinada em revistas
especializadas, teses acadêmicas e alguns poucos livros
monográficos que, felizmente, tornam-se publicações
cada vez mais constantes. O levantamento, sistematização
e publicação das obras dos principais arquitetos
modernos brasileiros é o passo inicial e necessário
para uma historiografia condizente com a qualidade e importância
da produção arquitetônica brasileira deste
século.
Lina Bo Bardi
e Lucio Costa mereceram há pouco tempo edições
bem cuidadas de suas obras. Agora chegou a vez de Oswaldo Bratke
(1907-97) e Vilanova Artigas (1915-85), em dois livros lançados
no final de 1997. Todas estas publicações tem em
comum o resgate da trajetória individual de cada um dos
arquitetos retratados, desde a formação intelectual
e profissional, passando pelas primeiras realizações
até chegar à obra madura e consolidada. Tal característica
acentua-se com o formato "coletânea" comum a todas
elas, onde se misturam textos críticos, memoriais e artigos
de diferentes datas, depoimentos de amigos, parentes e admiradores,
entrevistas publicadas e inéditas, tudo isto devidamente
ilustrado com projetos arquitetônicos e urbanísticos.
Os livros
sobre Bratke e Artigas diferenciam-se em aspectos importantes.
O ensaio de Hugo Segawa abrindo o volume sobre Bratke coordena
muito bem o material que vem a seguir, resultando em um feliz
equilíbrio entre crítica, informação
e iconografia, ao contrário da montagem um tanto confusa
do livro sobre Artigas. A maior homogeneidade do primeiro é
reforçada pela opção de se selecionar menos
projetos para poder apresentá-los melhor, sendo que os
desenhos, croquis e fotos sempre são acompanhados por um
texto explicativo sucinto. No livro de Artigas, com um número
muito maior de obras registradas, os textos são do próprio
arquiteto e, muitas vezes, não se refere ao projeto que
ladeia. Em alguns momentos a contigüidade de materiais tão
díspares chega a causar estranhamento. Contudo, a bibliografia
e a relação de obras estão muito mais elaboradas
no livro de Artigas, cumprindo assim, com maior rigor, a intenção
comum de ser fonte para outros trabalhos de pesquisa.
Apesar de
um ou outro senão que possamos levantar, a leitura dos
dois livros é obrigatória para os estudiosos e amantes
da arquitetura, afinal apresentam facetas distintas do mesmo processo:
a formação e consolidação da arquitetura
moderna em São Paulo. Nascido em 1907, paulista de Botucatu,
Oswaldo Arthur Bratke é apenas oito anos mais velho do
que João Baptista Vilanova Artigas, paranaense de Curitiba,
pequena diferença de idade que não impediu ao mais
jovem começar sua vida profissional como estagiário
do mais velho. As formações acadêmica e intelectual
de ambos comportam algumas simetrias e antagonismos que, somados
ao temperamento e postura profissional divergentes, acabam por
explicar as trajetórias tão distintas que percorreram
no cenário arquitetônico nacional, marcadas em termos
de visibilidade pela ampla difusão do nome de Artigas –
o fundador da chamada "Escola Paulista" – e pelo relativo
ostracismo de Bratke após a década de 70, quando
praticamente abandonou a profissão.
Bratke formou-se
na Escola de Engenharia do Mackenzie, Artigas na Escola Politécnica,
as duas primeiras escolas a formarem engenheiros-arquitetos em
São Paulo. A formação no Mackenzie, implantada
por Christiano Stockler das Neves, balizava-se pelo curso freqüentado
por seu idealizador nos EUA que, por sua vez, era fortemente influenciado
pela École Beaux-Arts de Paris. Assim, o Mackenzie mantinha
algumas semelhanças com o estudo de arquitetura no Rio
de Janeiro, contrastando com o ensino da Politécnica, onde
imperava a visão técnica.
Segawa enxerga
no francês Paul Cret, um dos organizadores do curso de arquitetura
da Pensilvânia freqüentado por Stockler das Neves,
uma das grandes influências sofridas por Oswaldo Bratke.
Cret, discípulo de uma ala progressista e racional da escola
parisiense, defendia que a arquitetura era uma arte de resolver
problemas atuais, visão pragmática e utilitária
que acabou marcando toda uma geração de novos arquitetos
americanos, em especial Louis Khan. Curiosamente esta trajetória
eclética, onde elementos da formação acadêmica
se mesclam a princípios modernos, colocou Bratke em contato
com a emergente arquitetura californiana, a mesma que seria a
fonte do jovem Artigas. Enquanto Bratke faz uma trajetória
análoga à de Kahn de abandono paulatino do mimetismo
historicista, Artigas vai buscar no modernismo já mais
depurado de Frank Lloyd Wright sua primeira "verdade".
Entrar pela
porta da frente do modernismo deu uma certa primazia ao arquiteto
mais jovem. Na primeira casa de Artigas, construída em
1942, já é observável a "verdade dos
materiais" defendida por Wright, pureza formal que Bratke
só alcançará em 1947, quando constrói
sua casa e ateliê na rua Avanhandava. Artigas não
demoraria a romper com a escola californiana e em 1949 já
estava projetando a Casa Czapski, primeiro projeto onde surgem
os elementos caraterísticos de sua arquitetura madura:
a estrutura como principal articulador formal, a continuidade
espacial entre o "exterior" e o "interior"
obtida com a elevação por pilotis, o conflito formal
entre empenas cegas de concreto armado e generosos panos de vidro,
o dinamismo dos diversos pisos articulados por rampas.
Mudança
tão radical jamais se observou na vida profissional de
Bratke, marcada por uma evolução natural, contínua
e irreversível que defendia de maneira muito consciente.
Sua relação com o cliente era de enorme respeito
aos seus hábitos e mesmo idiossincrasias e jamais seria
capaz de tentar condicionar com sua arquitetura um novo modo de
vida, atitude recorrente em Artigas e, principalmente, em seus
seguidores. As mudanças da arquitetura de Bratke espelhavam
a mudança da própria sociedade e se alguma pressão
exercia, era de maneira branda e gradual. Sua contribuição
deu-se fundamentalmente através de uma inesgotável
capacidade de experimentar novas técnicas construtivas
e novos materiais industrializados que, aliada à sua inventividade
no desenho de componentes, criou um padrão de moradia que
teria grande difusão e contribuiria em muito pela consolidação
do "morar moderno" em São Paulo.
A marca fundamental
de Vilanova Artigas era sua atitude radicalmente engajada, impulsionada
pela crença na utopia da transformação social.
A confluência de suas idéias políticas e culturais
levou-o a um discurso combativo e ideologizado que chegou ao público
através de artigos provocadores e persuasivos. Professor
desde muito cedo, é o grande ideólogo da Faculdade
de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo,
da qual é o autor tanto do projeto arquitetônico
como da estrutura pedagógica. Foi fundador e membro participativo
do Instituto de Arquitetos do Brasil e da União Internacional
de Arquitetos. Sua presença destacada no conturbado cenário
político dos anos 60 resultou em sua cassação
pelo regime militar. São circunstâncias que o transformaram
em mito e alavancaram sua produção à condição
de paradigma de nossa arquitetura.
Os dois livros
nos demonstram com grande agudeza o quanto Oswaldo Bratke e Vilanova
Artigas participaram na conformação da arquitetura
moderna de São Paulo, em especial para o desenho da "morada
paulista" deste século, da qual os dois desenharam
belíssimos espécimes. Donos de temperamentos antípodas
e convicções divergentes quanto ao papel do arquiteto,
contribuíram à sua maneira para o reconhecimento
e valorização do profissional no seio da sociedade
brasileira. Caberá à historiografia que agora se
inicia, menos imersa nos embates político, ideológico
e cultural dos tempos já idos, aferir o peso específico
de cada um. Talvez chegue à conclusão de que o mito
e o ostracismo sejam situações imerecidas, mas isto
já é uma outra história.
Abilio Guerra é
professor da FAU PUC-Campinas e editor de www.vitruvius.com.br
© Texto originalmente publicado
no Jornal de Resenhas, Discurso Editorial / Usp / Unesp / Folha
de São Paulo, nº 36, 14 março, São Paulo SP, p 4. Reprodução
proibida
Leia
também "Vilanova
Artigas, o renascer de um mestre", de Hugo Segawa, sobre
o livro de Artigas |