| Pensando
a urbanidade
resenha de regina
p. meyer
Com imenso atraso mas num momento
crucial, quarenta anos depois de seu lançamento nos Estados
Unidos o livro de Jane Jacobs Morte e Vida de Grandes Cidades
("Life and Death of Great American Cities") chega ao Brasil mas
num momento crucial. Tanto pelas teses que apresenta quanto por
nos induzir a um cotejamento entre os problemas urbanos americanos
no início dos anos 60 e a atual situação
das exauridas cidades brasileiras, o livro possui ainda uma grande
força. Já na primeira linha a autora adverte que
estaremos diante de um ataque aos fundamentos do planejamento
urbano e da reurbanização vigentes nos Estados Unidos
a partir da década de 30. Sua investida, que na primeira
parte do texto possui a contundência de um manifesto e na
segunda a força de um verdadeiro estudo, centra-se em questões
que denominamos genericamente de urbanidade. É com
esse conceito, difícil mas essencial para a abordagem do
mundo urbano contemporâneo, que Jane Jacobs trabalha. Sem
lançar mão de uma definição linear
de urbanidade, ela percorre os atributos considerados indispensáveis
a sua plena manifestação e existência.
A sua tese central é bastante
clara: o grau de urbanidade de uma cidade, de uma metrópole
ou de um bairro depende intrinsecamente do grau de vitalidade
urbana ali presente. Vitalidade e decadência não
estão no texto de Jacobs em oposição simples,
menos ainda em sucessão temporal. Para ela, manejar a complexidade
urbana através de planos e projetos é uma tarefa
séria e necessária. Suas análises, histórias,
exemplos e citações têm como eixo o reconhecimento
das ações e situações urbanas capazes
de gerar ou de destruir essa vitalidade primordial. Relacionando
as atividades e os seus espaços, Jacobs procura mostrar
com muitos argumentos que as atividades regem a vida urbana e
que os espaços que as acolhem devem estabelecer com elas
relações de compromisso e aliança.
Ora situada na posição
de dona-de-casa que observa com argúcia o universo cotidiano
que a cerca, ora utilizando uma evidente cultura urbanística,
Jacobs trabalha num duplo registro: o vigor e a coerência
da "cidade real", produto das práticas diárias de
seus cidadãos, e a debilidade e irracionalidade das cidades
que resultam de uma visão teórica da vida urbana.
O tema de Jacobs é o resultado desvitalizante e desurbanizador
promovido pelos projetos que desconhecem o real funcionamento
das cidades. O convívio entre as distintas funções
urbanas — morar, trabalhar, passear, comprar, conviver, circular
— e tantos outros que comparecem em profusão nos seus exemplos
é a base da vitalidade urbana, matéria-prima
da urbanidade. A sua eliminação através
de maus projetos, e ela mostra com grande clareza como as formas
conflituosas de convívio podem ser mais vitais do que a
supressão das distinções através de
projetos "sedativos", compromete a própria permanência
da vida urbana e da cidade. Além da monofuncionalidade,
isto é, a ausência da diversidade funcional, ruas
mal iluminadas, calçadas desprovidas de qualidades mínimas,
parques urbanos segregados, quarteirões muito longos, falta
de definição precisa entre espaços públicos
e privados, excesso de espaços imprecisos ou residuais,
mau equacionamento do convívio automóvel- pedestre,
são alguns dos elementos físicos e espaciais que
corroem a urbanidade.
Na ausência de uma definição
explicita de urbanidade no texto de Jacobs, proponho entendê-la
como a relação dinâmica que se estabelece
entre as "atividades urbanas" cotidianas, que são algo
maior que as "funções urbanas", sempre renováveis
e ampliáveis, e o espaço público adequado
à sua realização. Pelo seu forte comprometimento
com o "modo de vida urbano", Jacobs não se limita a exaltar
a cidade e a metrópole moderna nem em demonstrar a riqueza
da experiência de vida urbana em contraponto com outras
formas de organização espacial da sociedade. Estamos
aqui distantes de um relato nostálgico. Seu objetivo é
identificar, através de exemplos cotidianos, as forças
desagregadoras do espaço de vida urbana, aquelas que tornam
impossível a realização de uma genuína
urbanidade e aquelas que, corretamente acionadas, podem
restaurar a vitalidade essencial. O próprio título
do livro revela com precisão sua opção teórica.
A precedência da palavra morte frente a vida
indica com clareza que não se trata de um ciclo vital,
quando se caminha de forma inexorável para a degradação
e extinção. Jacobs está bem consciente de
que os processos sociais, dos quais a cidade é uma das
mais eloqüentes expressões, não cabem nessa
simplificação e comparação com o modelo
biológico. Jacobs procura apontar o caminho inverso, seus
argumentos vão no sentido do enfrentamento e da reversão
dos processos desvitalizadores introduzidos por projetos equivocados.
A ofensiva organizada por Jacobs
alveja as propostas mais influentes da primeira metade do século
XX. Mostra que já era possível identificar, pelo
menos do ponto de vista da experiência norte-americana,
os desastrosos resultados das ações contidas nos
textos e experiências fundadores do urbanismo moderno e
modernista. Cunhando a expressão "cidade-jardim-bela-radiante",
ela atravessa, com a lâmina de uma só espada, três
vertentes do planejamento urbano e do urbanismo. Esta expressão
reúne o inglês Ebenezer Howard (1850/1928), fundador
do conceito que orientou os projetos das cidades jardim;
o americano Daniel Burham (1846/1912), que projetou os espaços
destinados a abrigar a Columbian Exposition de Chicago a partir
de elementos arquitetônicos clássicos, buscando reintroduzir
no urbanismo uma estética classicizante que resultou
no chamado Movimento City Beautiful, e, por fim, o seu
alvo principal: Le Corbusier (1887/1965) e todo ideário
modernista contido no paradigmático projeto da "Cidade
Radiante".
Como o seu objetivo é extremamente
concreto, isto é, apontar a responsabilidade do urbanismo
e do planejamento na destruição das cidades americanas,
Jacobs lança os três urbanistas num único
patamar, rotulando-os indiscriminadamente de "planejadores ortodoxos".
Esse gesto radical justifica-se, pois ela não está
comprometida com as teorias, mas com a utilização
que os profissionais americanos vinham fazendo dos princípios
por eles defendidos. Assim, as idealizadas relações
entre o campo e a cidade, de Howard, o esteticismo monumentalista
do Movimento City Beautiful e a dogmática separação
funcional do Movimento Moderno, marcos muito distintos do pensamento
urbano e urbanístico, ganham na sua análise uma
incômoda equivalência.
Uma avaliação consistente
da atualidade ou obsolescência das teses defendidas com
contundência por Jacobs implica o reconhecimento da intensificação
dos problemas por ela abordados no início dos anos 60.
A questão do convívio urbano e do lugar onde
se realiza — o espaço público — alcançou
nova escala e com isso novos atributos. Voltado para uma das mais
emblemáticas cidades americanas, Los Angeles, Mike Davis
aprofunda alguns temas de Jacobs em A Cidade de Quartzo
(1990), atestando a dimensão alcançada pela violência
urbana e seu funesto contraponto: a agonia da vida urbana em Los
Angeles. Confirmando as teses de Jacobs, Mike Davis, quatro décadas
depois, descreve de forma assustadora o "desastre urbano" no qual
está mergulhada a cidade que adotou de forma radical o
caminho inverso da urbanização regeneradora,
única capaz de gerar ou restituir urbanidade.
Cumprindo o percurso inevitável,
isto é, a comparação entre as questões
urbanas americanas e o panorama urbano brasileiro atual, fica
claro para o leitor — cidadão urbano — que o "inferno urbano"
expresso numa impossível urbanidade é
conseqüência de pelo menos dois processos distintos.
O primeiro se impõe através de planos e projetos
equivocados e desastrosos, extirpadores de urbanidade,
como é o caso das grandes cidades americanas. O segundo
resulta da mais absoluta ausência de planos ou da consciência
de sua necessidade, como é o caso das grandes cidades brasileiras.
Aqui, a erosão permanente da urbanidade instalou-se não
apenas pela ausência de planos, mas, acima de tudo, pela
incapacidade do poder público de entender o papel contemporâneo
das cidades. Umas poucas cidades no Brasil estão efetivamente
empenhadas na recuperação das condições
de vida urbana. Curitiba, por exemplo, desde os anos 70 instalou
um processo de planejamento consistente, buscando os elementos
essenciais para a reconquista de uma desejável urbanidade.
De forma incipiente, outras cidades brasileiras mostram-se hoje
sensíveis à necessidade de combater a ausência
de qualidade urbana.
As grandes obras viárias realizadas
nas metrópoles brasileiras nos últimos 20 anos,
pressionadas pelo extraordinário aumento do número
de veículos, produziram em cada uma delas resultados muito
semelhantes. Rio de Janeiro, São Paulo, Belo Horizonte,
Salvador, Recife, Porto Alegre, Fortaleza, Goiânia e Florianópolis
são cidades onde a presença de vias expressas cortando
os bairros centrais e periféricos já plenamente
consolidados provocou uma profunda desorganização
urbana. O sistema viário adaptado às novas dimensões
criou rupturas urbanas muito intensas, segregou trechos de bairros,
afastou setores urbanos onde a vida cotidiana era, até
bem pouco tempo atrás, equilibrada e integrada. As grandes
rodovias e as avenidas centrais passaram nas últimas décadas
a confundir-se no interior de um único sistema cujo objetivo
primordial é fazer fluir o tráfego.
Em São Paulo, a Avenida Tiradentes,
a principal entrada da metrópole, é um claro exemplo
desse processo de ruptura. Projetada para tornar-se a peça
fundamental do denominado Sistema Y criado por Prestes
Maia em 1930, foi na sua origem uma ampla e arborizada avenida
moderna. A implantação do monumento a Ramos de Azevedo,
em 1934, atestava o seu prestígio. Entretanto, a partir
dos anos 70, suas invejáveis características de
avenida moderna vão sendo gradualmente destruídas.
Principal eixo rodoviário dos acessos norte/sul da metrópole,
a Tiradentes sofreu constantes alargamentos de suas pistas. Sua
imensa ilha central arborizada é pouco a pouco eliminada
em nome da crescente necessidade de ampliar o número de
pistas de tráfego. Mais tarde, o próprio monumento
a Ramos de Azevedo cede espaço e é removido para
a Cidade Universitária. Nos anos 90, fechando um ciclo
de perdas, a incorporação de um guard-rail
rodoviário separando as pistas nos dois sentidos selou
seu destino — a avenida cedeu lugar à rodovia. A sua travessia
tornou-se problemática e o convívio das atividades
localizadas nos setores leste e oeste da avenida passaram a depender
de uma única passarela de pedestres.
As próprias estações
do Metrô são bons exemplos de intervenção
em processos urbanos. Enquanto a recuperação do
Largo São Bento, tendo como principal alvo a criação
da Estação São Bento, recuperou a qualidade
urbana do largo, a instalação da estação
Sé do Metrô promoveu um movimento inverso. A ampliação
da Praça da Sé, com a incorporação
da Praça Clóvis Beviláqua através
da demolição do quarteirão que as separava,
eliminando as ruas Felipe de Oliveira e Santa Teresa, visando
a melhorar a vida dos milhares de pedestres que se serviriam da
principal estação do Metrô, resultou num espaço
excessivamente amplo e amorfo. O ponto de equilíbrio entre
espaço público e as funções urbanas
que lhe conferem sentido parece não ter sido alcançado.
As entradas do Metrô acabam flutuando dentro de um espaço
desurbanizado, isto é, desvitalizado pela ausência
do comércio e demais atividades que lhe davam sustentação
em termos espaciais e de atividades. Os meninos da rua são
provavelmente os únicos cidadãos dessa metrópole
que deram à nova praça um sentido, triste, é
verdade, mas de qualquer forma um sentido de apropriação,
lhes servindo de abrigo. Fugindo em 1996 da Febem para a Sé,
eles lhe conferiram um uso mais amplo que o de simples corredor
dos usuários do Metrô.
Outro bom exemplo em São Paulo
é o bairro do Brás, que, secionado pela linha norte/sul
do Metrô, nunca se refez. Estão ali ainda, desde
1976, terrenos inaproveitados, verdadeiras "sobras urbanas", aguardando
ainda hoje a sua reintegração.
Assim, o controle do tráfego,
a reordenação do trânsito, a reconquista das
áreas centrais, reconstituição do espaço
público, têm sido os elementos essenciais do novo
discurso sobre a cidade. Há uma vaga utopia no ar: as cidades
podem ser recuperadas. Seu potencial de urbanidade pode
ser reconquistado pela ampliação do convívio
dos usos, pela integração das funções
urbanas e pela indispensável revisão das relações
da cidade com o automóvel. Para quem estava sobrevivendo
sem utopias, é uma luz no fim do túnel. É
nesse novo cenário que o texto de Jane Jacobs continua
uma referência indispensável.
Regina
Meyer é arquiteta, professora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo
da Universidade de SãoPaulo
e consultora da Associação Viva o Centro.
Texto originalmente
publicado, com o título "A urbanidade
em transe", na revista Urbs, Associação
Viva o Centro, nº 19, dezembro 2000 / janeiro 2001, pp 54-57.
Reprodução proibida sem autorização
do autor
Leia
também "Vida
e morte de um grande livro",
de Hugo Segawa, sobre o mesmo livro |