| Casas
Vetustas
resenha de hugo segawa
Volta
e meia, a imprensa estampa ou transmite matéria denunciando o
estado de conservação de coloniais conjuntos arquitetônicos ou
velhos casarões (como o imaginário popular batiza qualquer construção
vetusta), ameaçando ruir – lugares e edificações que comporiam
a memória arquitetônica e cultural de São Paulo. Notícias recentes
dão conta dos esforços quixotescos de gente de Iguape, ou São
Luiz do Paraitinga, ocupada em enfrentar o implacável rigor do
tempo e a ausência de uma política consistente e duradoura dos
organismos que deveriam promover a preservação desses lugares.
Na prática, essas manchetes nem são tão recentes, porquanto o
problema é recorrente: as notícias de hoje se parecem com as de
ontem, e se confundirão com as de amanhã.
Velhas construções, respeitadas
pela pátina dos anos, desprezadas pela exaustão de um esplendor
ou de uma utilidade passados, obstáculos do “progresso” das cidades,
ou feito castelos abandonados no campo: que consideração elas
têm merecido, quando não vislumbradas apenas como resquícios para
evocações fabulosas, regressões saudosistas para passados sem
volta, referências perdidas na dinâmica urbana, ou imóveis valiosos
para bem engendradas iniciativas imobiliárias?
Casa Paulista,
do arquiteto Carlos A. C. Lemos, constitui um raro (em muitos
sentidos) registro de um olhar sensível sobre o morar e seus espaços
em terras de Piratininga. O autor, professor da Faculdade de Arquitetura
e Urbanismo da USP, é uma referência obrigatória aos que se dedicam
à teoria e história da arquitetura brasileira, com uma consolidada
trajetória de pesquisador e historiador de nossas realizações
construídas. Em seu 14° livro, a arquitetura é protagonista, mas,
além da materialidade inerente à construção – e esta é a base
primeira de suas reflexões –, o autor indaga sobre a vida daqueles
que percorreram os corredores, alcovas e quintais desses misteriosos
casarões. Vida de gente que, desaparecida há muito, deixou rastros,
evidências que o investigador foi buscar na memória de viajantes
e escritores, na iconografia antiga, em maços de cartórios, em
inventários e testamentos – descrições que, além de frios registros
dos bens deixados por extintos, são a revelação da cultura material
do cotidiano de tempos passados, dos quais a casa e seus apetrechos
acabam se constituindo nos últimos misteriosos remanescentes das
formas ancestrais de existência.
O autor desenvolveu sua
narrativa tendo como mote a “história das moradias anteriores
ao ecletismo trazido pelo café”. Isto significou debruçar-se sobre
construções, artefatos e costumes dos séculos 16 ao 19, cadenciando
sua análise por ciclos econômicos (açúcar, mineração, café), regiões
culturais (litoral, planalto, bacias hidrográficas), os programas
de necessidades, as técnicas construtivas, os partidos arquitetônicos
– temas em permanente interação na leitura de Carlos Lemos. Algumas
vezes amparada em esclarecimentos feitos fora da própria obra,
remetendo a publicações anteriores do autor, como Cozinhas
etc., Arquitetura Brasileira, O que é Arquitetura,
ou Alvenaria Burguesa, que, se não é de todo mau enquanto
alargamento de horizontes sobre a temática, obriga o leitor em
iniciação a mais um sobrepasso para o domínio da matéria, deixando
de usufruir de imediato as sutilezas presentes em Casa Paulista.
Até porque este livro é também uma condensação do muito que se
especulou sobre o passado das casas paulistas e uma atualização
do pouco que se pesquisou a respeito em tempos recentes.
Os trabalhos de Carlos
Lemos têm uma ascendência direta nas inquietações que rondaram
a estirpe fundadora do que hoje se chama Instituto do Patrimônio
Histórico e Artístico Nacional, o Iphan, cujas bases foram lançadas
em 1936 no anteprojeto de criação do Serviço do Patrimônio Artístico
Nacional, elaborado por Mário de Andrade. Como se sabe, intelectuais
modernistas paulistas como Mário, Paulo Duarte e Sergio Milliet
estavam na origem das preocupações sobre a preservação da nossa
memória cultural nos anos 1930, na qual modernidade e tradição
não constituíram propriamente um dualismo. A dita casa bandeirista
esteve em litígio tanto pelos defensores da mitificação dos heróis
bandeirantes promovida pelos institutos históricos (que Mário
chamava de “passadistas”), como pela vertente modernista derivada
dos agitadores da Semana de 22. A casa colonial foi uma inspiração
para os nossos arquitetos modernos: Lúcio Costa (o urbanista de
Brasília, também o pensador maior das visões sobre o nosso passado
arquitetônico), ao projetar em 1940 o hoje clássico conjunto de
prédios residenciais no Parque Guinle, Rio de Janeiro, evocava
a tradição da moradia paulista para propor um reagenciamento dos
espaços de vivência. A atitude de Costa teria desdobramentos significativos
nos modos eruditos de projetar na arquitetura doméstica de São
Paulo nos anos 1960.
Casa tradicional colonial
que encontrou seu pioneiro hermeneuta e ideólogo num discípulo
de Mário de Andrade: Luís Saia – diretor do escritório de São
Paulo do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional de 1937 até
sua morte, em 1975, e que teve seus escritos reunidos em 1972
no livro Morada Paulista. Saia, instaurador de uma interpretação
da habitação paulista, não teve em Carlos Lemos (de uma geração
seguinte) um discípulo propriamente, mas em alguns casos, um contrário.
Sem negar a contribuição de Luís Saia, Lemos vai desenvolver suas
apreciações abeberando-se diretamente nas fontes: Mário de Andrade,
Gilberto Freyre, Lúcio Costa, e tendo como interlocutores pesquisadores
não-arquitetos como Ernani Silva Bruno, Maria Ruth Amaral Sampaio,
Aracy Amaral, entre outros.
Entre Morada Paulista
e Casa Paulista há uma distância, e devemos respeitar os
significados de cada obra em seus devidos tempos, apesar do parentesco
nos títulos. Luís Saia, como dito, foi um precursor, um intelectual
filiado numa causa moderna e que se valeu sobretudo da obstinação
e da intuição para formular interpretações engajadas e pioneiras
a partir dos anos 1940. Seus escritos resistem como clássicos
de uma época de afirmação modernista. Carlos Lemos, com a serenidade
de quem se valeu de pacientes pesquisas documentais e de campo
por quase 50 anos, alargou o espectro sobre a morada paulista,
valendo-se também de estudos realizados no curso de pós-graduação
da FAU-USP e outras instituições para encorpar e atualizar o conhecimento
sobre um passado – apesar de tudo – ainda nebuloso. No entanto,
essa vertente de estudos do cotidiano e da história doméstica
pelo viés da arquitetura vem tendo cada vez menos praticantes
em tempos recentes. E vale ressaltar: se algo se fez em São Paulo,
pouco se aprofundou contemplando as demais regiões do País. Nesse
sentido, Casa Paulista corre o risco de ser o último grande
e abrangente escrito sobre os modos de morar do passado na Colônia
e no Império, sob a óptica da arquitetura e de seus espaços, num
diapasão distinto dos enfoques mais recentes contemplando estudos
de gênero ou da “vida privada”, que geralmente passam ao largo
do exame de vestígios materiais para suas elaborações teóricas
– muitos dos quais deixaram de existir, nestas últimas décadas.
Longe de termos clareza ou domínio pleno sobre o nosso passado,
Casa Paulista é também um registro melancólico do quanto
perdemos de testemunhos arquitetônicos nestas últimas décadas,
que remanescem apenas nas fotos, desenhos e nos depoimentos de
Carlos Lemos.
Claro que não podemos,
por último, esquecer dos múltiplos sentidos que a casa pode assumir.
Os sentidos da casa transcendem as impressões mais imediatistas.
A casa pode ser uma construção poética a respeito do campo, da
cidade, dos modos de morar, das relações entre as pessoas, enfim,
metáforas que cada um de nós pode construir. Carlos Lemos também
constrói a sua casa – em especial, a casa paulista, uma fascinante
construção.
Hugo
Segawa é arquiteto, professor do Departamento de Arquitetura e
Urbanismo da Escola de Engenharia de São Carlos da Universidade
de SãoPaulo.
Texto originalmente publicado
no Jornal da Tarde com o título "Um
olhar sobre a arquitetura de morar paulista",
Caderno de Sábado, Sábado,
05 de junho de 1999. Reprodução
proibida sem autorização do autor
Leia
também "Um
olhar arquitetônico",
de Carlos Antônio Leite
Brandão,
sobre o livro de Carlos Lemos |