| Vida
e morte de um grande livro
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resenha de hugo segawa
Quando Jane Jacobs lançou
o seu primeiro livro, em 1961, aos 45 anos de idade, talvez não
tivesse idéia do impacto que sua obra teria na consciência dos
urbanistas e políticos e nos rumos do planejamento urbano.
Uma conferência em Harvard
em 1956 e artigos na imprensa preparam o caminho para a grande
receptividade de seu Death and Life of Great American Cities
(cujas traduções omitem do título - como a edição brasileira -
a especificidade norte-americana de suas análises), que se tornou
uma referência crítica seminal contra as doutrinas modernas do
urbanismo de meados do século 20.
Jornalista autodidata,
colaboradora e mais tarde editora associada da revista Architectural
Forum, um marido arquiteto - a quem credita sua cultura urbanística
-, Jacobs mantinha um distanciamento crítico do cotidiano dos
urbanistas que lhe permitiu escrever um dos mais belos libelos
contra as palavras-de-ordem do urbanismo moderno. Ou mais precisamente,
das práticas urbanísticas em voga nos Estados Unidos, cujas origens
Jacobs identificava nas propostas de Ebenezer Howard e suas cidades-jardins
(1898), nas idéias contidas na Ville Radieuse (1935) de Le Corbusier
e, em menor grau, o movimento City Beautiful (1893) ideado por
Daniel Burnham.
O contexto dos ataques
de Jacobs ao urbanismo moderno ortodoxo era o programa norte-americano
de renovação urbana das áreas centrais das cidades, do fazer tábula
rasa de setores urbanos consolidados, substituídos por megaprojetos
de reurbanização nos quais uma arquitetura burocrática ou monumental,
viadutos, elevados, vias expressas e florestas de concreto configuravam
a nova paisagem das grandes cidades. Fenômeno que extrapolou as
fronteiras norte-americanas, banalizando-se enquanto intervenções
urbanas tardias em cidades como Caracas ou São Paulo nos anos
1970.
Contra o bucolismo das
cidades-jardins, Jacobs defendia a densidade das metrópoles. Todavia,
não a ordenada metrópole ideada por Le Corbusier - cujo exemplo
mais vigoroso seria Brasília -, mas a cidade tradicional.
Que cidade tradicional,
porém?
O sabor dos relatos de
Jacobs reside em sua fluente escrita de observadora não-contaminada
pelo jargão dos urbanistas e sua vivência como moradora do Greenwich
Village em Nova York. Numa etnografia jornalística, a autora procurou
identificar no cotidiano de grandes cidades norte-americanas as
razões da violência, da sujeira e do abandono, ou o contrário,
a boa manutenção, a segurança e a qualidade de vida de lugares
que constituíam a cena real das metrópoles, em simetria ao esquematismo
dos modos de vida que os planejadores previam em seus modelos
urbanos ideais.
Ao contrário das fisicamente
imaculadas e espiritualmente vazias proposições modernistas, o
caos urbano e o microcosmo dos bairros constituíam uma vida rica
e densa de significados. Do registro empírico das maneiras de
se apropriar dos lugares (os subtítulos dos textos são diretos:
"Os usos das calçadas: segurança, contato, integrando as cri-anças..."
etc), Jacobs formulou a crítica aos axiomas do planejamento (separação
das funções/zoneamento, a lógica da circulação pelo exaltação
do sistema viário, etc) e seu reverso, a prescrição de soluções.
A principal e duradoura
lição pregada por Jacobs é a necessidade da diversidade urbana:
funções que gerem presença de pessoas em horários diferentes ("a
necessidade de usos principais combinados" é um capítulo) e em
alta concentração, valorização de esquinas e percursos ( "a necessidade
de quadras curtas", outro capítulo), edifícios variados e de diferentes
idades ("a necessidade de prédios antigos"), e ressaltando outras
medidas profiláticas para uma melhor qualificação urbana: "a subvenção
de moradias", "erosão das cidades ou redução dos automóveis",
"ordem visual: limitações e potencialidades", "projetos de revitalização",
etc.
A clareza da escrita e
as posições antimodernistas de Morte e Vida de Grandes Cidades
trouxeram grande prestígio à autora, tornando-a uma leitura obrigatória
nos cursos de arquitetura e urbanismo, geografia e ciências sociais.
Parte de suas idéias lograram grande audiência nos debates urbanísticos
dos anos 1970/80, sobretudo com o advento da discussão pós-moderna
e sua apologia da diversidade, ao ponto de alimentar tendências
díspares do urbanismo como as muitas formas de ativismo comunitário
como no discurso de frentes como a Nova Direita norte-americana.
Jacobs é considerada a
"mãe" do neoconservador New Urbanism, para desespero de seus defensores,
que creditam à vulgarização das idéias da jornalista pelas bobagens
a ela atribuídas. David Harvey, anotando sobre o emergir de códigos
simbólicos de distinção social na arquitetura e no urbanismo pelo
enaltecimento da ornamentação, do embelezamento, pela decoração,
comentava:
"Não tenho nenhuma certeza
de que tenha sido isso que Jane Jacobs tinha em mente quando criticou
o planejamento urbano modernista."
Jane Jacobs mudou-se com a família para Toronto
em 1968 (temendo o envolvimento dos filhos na guerra do Vietnã)
e tornou-se cidadã canadense em 1974. Aos 84 anos de idade, lançou
em março passado seu sexto livro, The Nature of Economies. Mas
o prestígio internacional, que a tornou uma guru do planejamento
urbano, veio de Morte e Vida de Grandes Cidades, um relato fascinante
de uma inquieta ex-moradora da rua Hudson em Nova York. Um livro
que, decorridos quase 40 anos de seu lançamento, trouxe retratos
e episódios de recantos de cidades norte-americanas que poderiam
ser depoimentos de uma época como as de Charles Dickens sobre
a Londres da segunda metade do século 19 - e provavelmente de
uma São Francisco, Nova York ou Boston que não existem mais.
Hugo
Segawa é arquiteto, professor do Departamento de Arquitetura e
Urbanismo da Escola de Engenharia de São Carlos da Universidade
de SãoPaulo.
© Texto
originalmente publicado no Jornal da Tarde com o título
"Uma crítica
ao modernismo urbanístico", Caderno de Sábado,
Sábado, 26 de agosto de 2000. Reprodução proibida
sem autorização do autor
Leia
também "Pensando
a urbanidade",
de Regina P. Meyer, sobre o mesmo livro |