| Guias
da arquitetura carioca
resenha de roberto
segre
É correto falar
de um "renascimento" da arquitetura do Rio de Janeiro neste início
de século. A recente aparição de quatro guias
que cobrem a quase totalidade dos monumentos e principais edifícios
produzidos desde o período colonial até o presente,
é motivo de júbilo para arquitetos, urbanistas,
habitantes da cidade e turistas interessados em seu patrimônio
arquitetônico. Nunca, até o presente, foi reunido
um corpus documental e informativo de tal magnitude como
o elaborado por um numeroso equipo de investigadores, estudiosos
e professores, pertencentes à Faculdade de Arquitetura
da UFRJ e ao Centro de Arquitetura e Urbanismo da Prefeitura da
Cidade de Rio de Janeiro, sob a direção de Jorge
Czajkowski. Como culminação da gestão administrativa
do Prefeito Luiz Paulo Fernandez Conde – finalizada no ano 2000
–, e do entusiasmado apoio que dera aos estudos de historia, teoria
e crítica da arquitetura ao longo de seu mandato, a editora
Casa da Palavra acaba de publicar os quatro tomos dedicados à
Colônia e século XIX; o ecleticismo; o Art Déco
e o Movimento Moderno.
Os ensaios teóricos
e a documentação rigorosa da arquitetura de Rio
de Janeiro, tiveram um novo ponto de partida na década
dos anos oitenta, ao finalizar o opaco período da ditadura
militar. Com anterioridade, desde a era Vargas, havia começado
o desenvolvimento de um duplo eixo crítico e documental
que compreendia, de um lado, a defesa e difusão das conquistas
do Movimento Moderno na capital; de outro, a recompilação
das fontes arquitetônicas do período colonial. Com
a publicação do antológico texto de Lúcio
Costa "Razões da Nova Arquitetura" (1936), na Revista
da Diretoria de Engenharia da Prefeitura do Distrito Federal,
dirigida por Carmen Portinho, e os exemplos de arquitetura moderna
que apareceram nos anos quarenta na revista do IAB, Arquitetura
e Urbanismo, se manteve viva a chama da vanguarda, até
a combativa presença de Módulo, nos meados
da década dos anos cinqüenta, dirigida por Oscar Niemeyer.
A visão da modernidade carioca foi também divulgada
nas publicações de Henrique Mindlin e Paulo F. Santos.
Por sua parte, a longa trajetória da Revista do Patrimônio
Histórico e Artístico Nacional do IPHAN, dirigida
até 1945 por Rodrigo Melo Franco de Andrade, permitiu a
difusão dos estudos históricos e arqueológicos
sobre a arquitetura brasileira.
A partir dos anos oitenta
surgem dos importantes núcleos de estudos históricos
sobre a arquitetura: o Curso de especialização em
História da Arte e da Arquitetura não Brasil, na
PUC Rio, no qual se integraram Carlos Zílio, Margareth
da Silva Pereira e Jorge Czajkowski; e posteriormente, por iniciativa
deste último, se criou em 1981 o Núcleo de Pesquisa
e Documentação na FAU UFRJ, ambos dedicados, tanto
à formação dos jovens críticos e pesquisadores
como à criação de bases documentais sobre
as obras arquitetônicas da cidade. Parte destes estudos
foram publicados na revista dirigida por Jorge Cjaikowski e publicada
pela FAU/UFRJ, Arquitetura Revista. Também no IPHAN,
batem ares de renovação, destacando-se os trabalhos
dos estudiosos Ceça Guimaraens e Lauro Cavalcanti. Não
podemos deixar de citar o papel exercido pelo IAB durante a presidência
de Luiz Paulo Fernandez Conde, que desde os finais dos anos setenta
realizou uma série de debates sobre arquitetura moderna,
depois publicados nos Depoimentos. Arquitetura Brasileira após
Brasília, editados por Sérgio Ferraz Magalhães
e Ceça Guimaraens.
De imediato começam
a publicar-se os resultados das pesquisas: Giovanna Rosso del
Brenna escreve um elaborado estudo sobre Pereira Passos; Margareth
da Silva Pereira e um grupo de colaboradores, aprofundaram sobre
a presença de Le Corbusier no Brasil e finalmente, na gestão
do Prefeito Júlio Coutinho, sob a coordenação
de Giovanna Rosso del Brenna e Irma Arestizábal, se editam
seis pequenos guias sobre a arquitetura do Rio de Janeiro. Estruturados
por correntes estilísticas, constituem a primeira tentativa
de ordenar as principais edificações da cidade,
e valorizar sua presença, em particular para os visitantes
estrangeiros. Mário Barata redige os textos dos guias da
Colônia e Neoclássico; Giovanna Rosso del Brenna
elabora o Ecleticismo; Irma Arestizábal, Art Déco
e Art Nouveau; Alfredo Brito o tema da arquitetura moderna e Burle
Marx apresenta o vínculo do Rio com a natureza. Paralelamente,
a empresa João Fortes Engenharia e Index Editora, patrocinou
a publicação de uma série de cadernos sobre
a história dos bairros da cidade, realizados por uma equipe
de pesquisa da UFRJ.
Sem dúvida, o maior
impulso alcançado pelas pesquisas e publicações
ao longo do século XX se produziu na década dos
anos noventa, período que concentra uma coleção
de guias e documentos sobre a arquitetura do Rio. Em coincidência
com a Eco Rio 92, a Secretaria Municipal de Cultura da Prefeitura,
editou o Guia do Patrimônio Cultural Carioca. Bens Tombados.
O tema da arquitetura moderna possui um significativo destaque:
começa a ser tratado no guia que escreveram Alberto Xavier,
Alfredo Brito e Ana Luiza Nobre, editado pela Editora Pini em
São Paulo; e teve prosseguimento com os trabalhos de Lauro
Cavalcanti, diretor do Paço Imperial, a quem coube, no
final da década, a reimpressão em português
do livro de Henrique Mindlin e a apresentação da
exposição "Quando o Brasil era Moderno", material
resumido nos dois guias de arte e arquitetura (1928 –1960), publicados
no presente ano (2001).
Sem dúvida, a Prefeitura
de Rio de Janeiro, graças à iniciativa de Luiz Paulo
Conde, leva a cabo um grande número de pesquisas e publicações,
nunca alcançado até então. A criação
do Centro de Arquitetura e Urbanismo, pertencente à Secretária
Municipal de Urbanismo, sob direção de Jorge Czajkowski
e Fernando Sendyk, estabelece na cidade, o principal centro de
atividades culturais relacionadas à arquitetura, aglutinando
um grupo de pesquisadores jovens e em estreito contato com a Faculdade
de Arquitetura da UFRJ. Esta não é uma descrição
exaustiva do intenso trabalho desenvolvido pelo Centro e Prefeitura,
mas cabe assinalar a significação de algumas exposições
antológicas sobre a arquitetura e o urbanismo local: a
apresentação da obra completa de Jorge Machado Moreira,
resumida no catálogo escrito por Roberto Conduru; a emocionante
presença dos desenhos originais de Le Corbusier, realizados
durante sua estadia no Rio, na exposição "Le Corbusier.
Rio de Janeiro 1929-1936", com curadoria de Yannis Tsiomis, e
a espetacular coleção de mapas do Rio de Janeiro,
apresentada sob o título "Do Cosmógrafo ao Satélite".
Por sua vez, a Prefeitura, em colaboração com o
IPHAN e a FAU/UFRJ, iniciou edição em vários
tomos das aprofundadas pesquisas realizadas pela professora Sandra
Alvim sobre a arquitetura colonial carioca.
A íntima vinculação
entre o Centro e a Faculdade de Arquitetura, permitiu realizar
esta obra de grande importância que constitui a concretização
dos quatro guias de arquitetura do Rio de Janeiro, com uma impecável
edição, tanto do desenho gráfico como da
qualidade de impressão. Professores e pesquisadores de
ambas instituições, coordenados por Jorge Czajkowski
e Maria Helena Röhe Salomon, confeccionaram os textos introdutórios
e aproximadamente 600 verbetes dos edifícios documentados.
As apresentações estiveram a cargo dos seguintes
especialistas: a Colônia, redigida por Cláudia Carvalho,
Cláudia Nóbrega e Marcos Sá, enquanto o século
XIX, esteve sob responsabilidade de Gustavo Rocha Peixoto. Luiz
Paulo Conde e Mauro Almada escreveram sobre o Art Déco
– único Guia que já havia sido publicado em 1997,
raiz do Seminário sobre o Art Déco na América
Latina –; por último Roberto Segre tratou do tema da arquitetura
moderna.
Estes guias colocam a
Rio de Janeiro em pé de igualdade com as diversas cidades
do mundo que possuem uma detalhada documentação
sobre seu patrimônio arquitetônico, que se iniciaram
nas cidades dos países desenvolvidos e na última
década alcançaram também a América
Latina: quase todas as capitais do Continente possuem significativos
guias que testemunham os valores patrimoniais da cidade: recordemos
as iniciativas levadas a cabo pela Junta de Andalucía,
Espanha, que, em colaboração com os governos dos
municípios locais, publicou os guias de Buenos Aires, Montevidéu,
Córdoba, Santiago de Chile, Cidade do México e Havana.
A estrutura expositiva de nossos guias se baseia na análise
das diferentes escalas do projeto, desde o urbanismo até
os atributos decorativos dos edifícios. A organização
de uma série de percursos por bairros com seus respectivos
mapas, permitem ao visitante localizar e visualizar os exemplos
em um área determinada. Todos os edifícios estão
identificados por uma foto e, em alguns casos, também o
desenho da planta. Também estão incluídos
monumentos importantes situados em áreas periféricas,
com o correspondente mapa de situação. A seriedade
da pesquisa realizada se demonstra na série de índices
e bibliografias presentes nos guias e, em alguns casos, o resgate
de edificações desaparecidas, dado o alto número
de monumentos históricos demolidos na cidade ao longo do
século XX. Todos os textos possuem sua correspondente tradução
em inglês, detalhe pouco comum na maioria dos guias latino-americanos.
Pode-se concluir que com esta monumental abordagem, a arquitetura
e o urbanismo de Rio de Janeiro, no que diz respeito à
sua documentação histórica, alcançaram
sua maioridade.
Roberto Segre, arquiteto
e crítico de arquitetura, professor da Faculdade de Arquitetura
e Urbanismo da Universidade Federal do Rio de Janeiro |