| Brasília
Kubitschek de Oliveira
resenha
de antônio agenor de melo barbosa
Bons tempos
aqueles em que um governante – em qualquer esfera de poder – podia
se dar ao luxo de prometer que o seu governo avançaria “50 anos
em 5”. Mais instigante ainda é pensar que o leitmotiv deste
slogan, ou Plano de Metas, era a construção de uma grande cidade,
fruto da obsessão e do voluntarismo de um Presidente da República,
destinada a ser a nova capital do Brasil, aproximadamente 200
anos depois de o Rio de Janeiro suceder Salvador, em 1763.
Esta não teria
sido, porém, a primeira tentativa de se transferir a capital do
país. Há registros históricos que narram a tentativa de “descapitalizar”
o Rio de Janeiro ainda no século XVIII, com o grupo de intelectuais
de Vila Rica – protagonistas da Conjuração Mineira - sintonizados
com o Iluminismo. No século XIX, quando já exaurido o ciclo da
mineração, a idéia de transferir a capital para o interior do
país ganhou um novo impulso logo após a chegada da Família Real
portuguesa ao Brasil em 1808. Ainda em 1823, José Bonifácio de
Andrada e Silva, o Tutor de D. Pedro II até a sua maioridade e
também conhecido como “O Patriarca da Independência”, afirmava
em discurso: “Parece muito útil, até necessário, que se edifique
uma nova capital do Império no interior do Brasil para assento
da Corte (...) Essa Capital poderá chamar-se (...) Brasília.”
Se nem mesmo
o nome da capital é criação própria, qual é, então, o mérito histórico
deste brasileiro ambicioso e voluntarista que, no auge da Guerra
Fria entre EUA e União Soviética, propunha o slogan “50 anos em
5” e como parte deste Programa de Metas a construção da nova capital
brasileira? A diferença é que este governante era o Presidente
Juscelino Kubitschek de Oliveira - o homem que, em 5 anos, fez
Brasília. Independente do juízo que se faça da cidade, do Presidente
e das suas idéias ambiciosas, JK só não pode ser acusado de não
ter cumprido o que prometeu no início de seu governo em 1956.
Em apenas 42 meses – “do cerrado bravo à inauguração” – JK fez
Brasília em pleno Planalto Central do Brasil.
É, portanto,
a história de um homem (JK) e de uma cidade (Brasília) o tema
principal do excelente livro “Brasília Kubitschek de Oliveira”
de autoria do Professor Ronaldo Costa Couto. Autor do livro “História
Indiscreta da Ditadura e da Abertura: 1964 – 1985” e homem talhado
não apenas pela vida acadêmica (é Doutor em História pela Universidade
de Paris IV - Sorbonne), mas também pela vida política (foi Ministro
do Interior e do Trabalho no governo Sarney e Governador de Brasília),
Couto nos revela, de maneira magistral, belas histórias de Brasília,
de seu criador e de tantos outros heróis e aventureiros que fizeram
com que um sonho arcaico, e de certa forma utópico, se transformasse
em realidade.
Como bom mineiro
– tal e qual JK –, Couto relata histórias primorosas contadas
de maneira simples e bem humorada, com um tom memorialista e poético
que alterna episódios de cunho social, econômico e, sobretudo,
geopolítico do tempo em que imperava na sociedade brasileira uma
democracia calcada em um projeto com um ideal de futuro, de progresso
e prosperidade. Diante dos tempos atuais de incertezas e descrenças
globalizadas, a leitura do livro nos faz reviver e ir em busca,
quem sabe, de uma utopia perdida naqueles anos JK; tempo da Bossa
Nova, da vitória do nosso futebol na Copa do Mundo da Suécia enfim,
os Anos Dourados.
Nas suas descrições
a respeito da arriscada aventura da construção de Brasília, Couto
concede espaço e voz não apenas para as celebridades – Oscar Niemeyer,
Lúcio Costa, Darcy Ribeiro, Israel Pinheiro, Burle Marx, Rodrigo
Melo Franco de Andrade e muitos outros – que direta ou indiretamente
estavam envolvidas na empreitada, mas também para aqueles brasileiros
anônimos oriundos de diversos cantos do país que, por força da
própria vontade ou do destino, também contribuíram significativamente
para a materialização da Novacap.
Também de
forma competente o autor traça um breve panorama a respeito das
questões estéticas, urbanas e arquitetônicas que nortearam os
trabalhos da dupla Costa e Niemeyer. Nas seções “Lúcido Lúcio”
e “O Poeta da Arquitetura”, Couto deixa falar os idealizadores
de seu plano urbanístico e de suas arquiteturas respectivamente.
Na parte que cabe a Lúcio Costa, este é comparado ao próprio JK
pela sua sutileza e elegância e pela impressionante capacidade
de atrair e agregar, em torno de si, talentos de diversos saberes.
Foi esta capacidade de Costa, nos conta o autor, que em momentos
distintos incorporou as contribuições de Oscar Niemeyer e de Roberto
Burle Marx.
Com efeito,
o fio condutor do livro traz à memória o ensinamento do grande
Historiador das Cidades Leonardo Benevolo: “As cidades não existem
por uma necessidade natural, mas por uma necessidade histórica
que teve um início e, qualquer dia, poderá ter um fim”. Assim,
as cidades tal e qual seus criadores têm seus momentos de nascimento,
crescimento, saturação, colapso e até de morte. Neste sentido,
o autor, de maneira sutil, evidencia o ciclo vital de JK – que
antes de ser um político bem sucedido foi um médico urologista
de grande prestígio em Minas Gerais – enfatizando os seus graves
problemas de saúde no final da vida. Diabetes, problemas circulatórios,
gota, dores na coluna, depressão e lesão maligna na próstata tolheram
de maneira irreversível a sua qualidade de vida. Curiosamente,
foi no dia 22 de agosto de 1976 que o homem que trouxe a indústria
automobilística para o país, morreu em um acidente no quilômetro
165 da Via Dutra, a bordo de um Chevrolet Opala.
Com quase
300 notas de rodapé, uma listagem bibliográfica importante e com
dezenas de depoimentos e entrevistas de pessoas ligadas à construção
da cidade, o livro tem, talvez, um único pecado que provavelmente
é fruto da dupla experiência do autor tanto no meio acadêmico
quanto político. Não se propõe aqui nenhuma metodologia acadêmica,
mas talvez falte ao livro um posicionamento e/ou julgamento mais
contundente e claro do autor a respeito da cidade, das suas premissas
urbanísticas, e de seus protagonistas, JK inclusive. A sensação
que se tem é que o lado político talvez tenha falado mais alto
em detrimento de uma crítica e de uma análise histórica e urbana
mais pessoal, haja visto a inegável capacidade que teria o autor
em fazê-la.
A despeito
deste senão, a Coleção Metrópoles, da qual faz parte o livro em
questão, é uma iniciativa que merece aplausos pela sua originalidade
e pela competência de seus autores. Dela fazem parte outros dois
excelentes livros anteriormente publicados que são “O Rio de todos
os Brasis” do Professor Carlos Lessa, sobre o Rio de Janeiro,
e “Porto de histórias” de Moacyr Scliar sobre Porto Alegre. Outros
sobre Recife, Belo Horizonte, Salvador e demais cidades ainda
virão. É, sem dúvida, uma importante contribuição para a reflexão
e para o debate interdisciplinar sobre o desenvolvimento urbano
do Brasil.
Antônio
Agenor de Melo Barbosa é arquiteto, mestre em urbanismo
pelo PROURB / FAU UFRJ, professor da FAU UFRJ e da Universidade
Santa Úrsula |