| Resenha
027 / janeiro 2002
Livro
resenhado:
“Barcos
de ladrillo. Arquitectura de referentes náuticos em Uruguay 1930-1950”,
Juan Pedro Margenat, Edición del Autor, Montevideo
2001 / “Arquitectura
y Diseño Art Déco en el Uruguay”, Mariano Arana, Andrés
Mazzini, Cecilia Ponte, Salvador Schelotto, Editorial Dos
Puntos / Facultad de Arquitectura, Montevideo, 1999 / “Juan
Pedro Margenat. Arquitectura Art Déco en Montevideo (1925-1950).
Cuándo no todas las catedrales eran blancas”, Dardo Sanzberro
Editor, Montevideo 1994 [Imagem:
Planeta Palace Hotel em Atlántida, Uruguay. Arq. Natalio Michelizzi,
1939, retirado do livro "Barcos de ladrillo"] |
| Paixão
Déco
resenha de roberto segre
É surpreendente
como o tema da arquitetura Art Déco desperta tanto interesse na
América Latina. Nos anos recentes diversos ensaios e livros foram
escritos por os pesquisadores dos diversos países do Continente
e do Caribe: na Argentina, um dos principais difusores deste estilo
é Jorge Ramos de Dios; no Chile, Humberto Eliash e Manuel Moreno
publicaram um livro sobre a Primeira Modernidade; no Brasil, teve
sucesso o Guia do Art Déco no Rio de Janeiro, apresentado
por Luiz Paulo Conde e Mauro Almada; no México, um belíssimo livro
com todas as manifestações artísticas do Déco foi escrito por
Enrique X. de Anda Alanís; em Cuba, Roberto Segre e Carlos Sambricio
editaram na Espanha um volume sobre a arquitetura na Havana entre
1925 e 1945. Além destas publicações, nos Festivais Anuais que
se organizam em Miami, no Art Déco District, a presença
da América Latina tem sempre um lugar de destaque.
A fortuna
do Déco está relacionada com a sua assimilação pela classe media
urbana, entre os anos trinta e quarenta, mais que pela influência
do luxuoso decorativismo europeu da Exposition Internationale
des Arts Décóratifs em Paris no ano 1925 (tão combatida pelo
Mestre Le Corbusier pela sua falsidade conceitual, e por quase
não deixar aparecer o seu pavilhão do Esprit Nouveau);
ou dos sofisticados arranha-céus de Nova Iorque. Se existem alguns
prédios monumentais ou oficiais nas principais cidades, o Déco
teve maior difusão nos temas relacionados com o lazer, os pontos
de gasolina, os apartamentos e as casas individuais. O fato significativo
é que ao lado dos arquitetos de renome que desenhavam neste estilo,
os construtores italianos, espanhóis, alemães e portugueses, que
chegaram como imigrantes na América, assumiram e participaram
na substituição do sistema decorativo clássico e historicista
pela modernidade do Déco.
O fato de
ter produzido três livros no Uruguai em um qüinqüênio, demonstra
a importância deste movimento artístico num país pequeno, mas
com uma forte classe média e com uma centralização urbana em Montevidéu,
que concentrou ao longo da sua história uma densidade de população,
desproporcionada em relação com o seu território. Juan Pedro Margenat,
é um arquiteto e professor na Faculdade de Arquitetura, apaixonado
por esta arquitetura que estudou como freelance. Ele começou
a trabalhar em um primeiro livro geral sobre o Déco em Montevidéu,
publicado no ano 1995, que foi pioneiro no tema. Dedicou-se à
pesquisa logo após voltar de Caracas, onde morou como exilado
político na época da ditadura militar. Com a ajuda de alunos da
Faculdade, apresentou os principais exemplos desenhados por Carlos
Surraco, Gonzalo Vázquez e Rafael Ruano, o famoso palácio Lápido
no centro (Av. 18 de Júlio), de Barriére, Aubriot e Valebrega,
e a difusão nos cinemas da cidade e nas casas dos bairros residenciais.
No segundo livro, recentemente publicado, selecionou um conjunto
de obras relacionadas com a influência dos temas marinos – assumidos
do Yacht Style e do Streamline americano – que foram
aplicados em casas, hotéis e clubes, não somente em Montevidéu,
mas ao longo das praias que desde Carrasco até Punta del Este
configuraram o sistema turístico ao longo do Rí da Prata. Na capital
documentou a pouco conhecida sede administrativa da refinaria
da empresa do petróleo ANCAP, desenhada pelo arquiteto Rafael
Lorente Escudero em 1934, com formas aerodinâmicas, que anunciavam
a chegada do futuro tecnológico. Desde os anos quarenta, o Uruguai
foi um espaço importante para o turismo argentino, e se desenvolveram
centros de lazer em novos povoados como Atlântida, Floresta e
Piriápolis, mais visitados pela classe média que Punta del Este,
onde as oligarquias argentina e uruguaia construíam as suas mansões
historicistas. Na minha adolescência, fiquei vários verões em
Atlântida, e sem ainda imaginar meu futuro como historiador da
arquitetura, olhava com admiração o hotel-barco Planeta, perto
da areia da praia.
O terceiro
livro foi desenvolvido como pesquisa da Faculdade de Arquitetura
de Montevidéu, sob a direção de Mariano Arana, atual Prefeito
da cidade, e Salvador Schelotto, recentemente nomeado Diretor
da FAU. É um trabalho mais rigoroso, já que teve uma equipe de
pesquisa, que além de resenhar a maioria dos prédios Déco da capital,
elaboraram umas fichas com as informações detalhadas de cada prédio.
Além, apresenta uma breve síntese das diferentes manifestações
artísticas, como o desenho gráfico, o desenho de objetos e a moda
predominante naquele período. Com estes três documentados e bem
ilustrados livros, acho que no século XXI vai ter pouco mais que
falar sobre o Déco uruguaio.
Roberto Segre, arquiteto e crítico de arquitetura, professor
da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal
do Rio de Janeiro |