| Nem
arquitetura nem cidades *
resenha de luiz recamán
As diferentes
possibilidades e riscos de comentar o mais recente livro de Otília
Arantes estão na proporção das frentes que abre: crítica de arquitetura,
crítica social, crítica da cultura, filosofia, estética, etc.
Um certo mal estar provocado por sua leitura, nos diferentes leitores,
pode ser fruto da apreensão setorizada que estes têm feito. Alguns
pretendem que a autora esbarra na arquitetura, mas não faz uma
análise arquitetônica. Outros, que esbarra na sociologia, mas
não segue seu método, e assim por diante. É verdade; num mundo
de especialistas, Otília Arantes enfrenta a totalidade do processo
que analisa. E não poupa recursos para essa empreitada, pois mobiliza
uma extenuante linhagem de autores, que não são eleitos ao sabor
do ecletismo vigente, mas pelo poder de explicação dos fenômenos
em pauta. É como se o atual estado das coisas exigisse uma verificação
crítica daqueles pensadores que analisaram o processo in
nuce. Recuperar esse “fio de Ariadne” é evitar que o labirinto
fragmentado da experiência contemporânea seja entendido a partir
da fragmentação, que o simulacro seja objeto e sujeito do pensamento.
Como fazer isso sem as totalizações modernas, é um exercício de
clareza em meio às turbulências de hoje; porque criticar o “mundo
da imagem” a partir dos paradigmas industriais da modernidade
soa nostálgico e inútil. Sem “Progresso” e “Futuro”, a crítica
responsável ao mundo tornado mercadoria tem certo sabor acre,
inevitável se não se quer cair no entusiasmo irracionalista ou
em racionalismos reprovados no teste da História. A própria forma
ensaio permite que os temas sejam discutidos a partir de ênfases.
Esses temas reaparecem com freqüência no decorrer dos textos,
cada vez articulados a diferentes questões. Ao contrário de multiplicar
o objeto, indica a sua essência, só alcançável por aproximações
críticas.
Isso ajuda
a explicar o porque a arquitetura – e sua ação sobre a cidade
– é o ponto de partida, e não de chegada, desse pensamento. Ela
aparece como referência em dois momentos, exatamente os cruciais
do argumento, e aos quais se dirige a crítica:
1) a arquitetura
como “câmara de decantação das vanguardas” (sucessora legítima
da ação da vanguarda, por ser a possibilidade da “arte total”,
e ao mesmo tempo o âmbito em que se eliminaram as contradições
da arte moderna), síntese de um projeto racional iluminista, a
que mais torna claros os seus impasses.
2) a arquitetura
como “arte de massa”, a mais antiga, suporte privilegiado da sociedade
da comunicação, da “forma-publicidade” do capitalismo atual.
Quer seja
como utopia construtiva, quer seja como simulacro, a arquitetura-cidade
é a esquina onde se encontram o projeto moderno e seu sucedâneo,
a cultura simulada. Aí a novidade: estes movimentos não se opõem,
se complementam, o último conclui o primeiro. Isso desagrada a
gregos e troianos, a “modernos” e “pós modernos”. O interesse
do objeto arquitetônico dentro dessa análise vai até o momento
em que ficam claras essas decorrências. Como ideologia, tanto
a moderna (“do plano”) como a “pós-moderna” (“do lugar”) revelam,
ao serem concretizadas, construídas, o outro lado da “utopia”
(da vanguarda) ou “resistência” (dos anos 60): seu vínculo de
origem com o processo capitalista em mutação. Se na arquitetura
– e arte – moderna o funcional era também o “funcionalismo sistêmico”,
nas últimas décadas (até os anos 80) o elogio da “diferença” na
cidade também vai ao encontro da fragmentação da vida contemporânea,
da absolutização da Cultura resfriada, agora parceira do capitalismo
do final do século. Quando esse processo fica claro – quando os
projetos de “requalificação” vão sendo implementados, ao mesmo
tempo se consolidando a nova feição da “globalização” – não existe
mais vestígio de ideologia na arquitetura. Esta passa, nos 90,
a tradução, sem mediação, do “mundo econômico”, portanto, coincidente
com ele, e não tem mais o interesse das análises das ambigüidades
do passado, que apontavam possibilidades.
Para uma crítica
à modernidade e seu projeto, e à contemporaneidade, a arquitetura
é uma necessidade e não uma especialidade crítica ou aptidão.
E é por isso também que neste último livro não existe mais uma
análise de arquitetura propriamente dita, à maneira de “Arquitetura
Simulada”. A arquitetura, como disciplina, é hoje coadjuvante
na formação da imagem da cidade, ou melhor da cidade como imagem.
Seu percurso ideológico se exauriu já nos anos 30, tendo conseguido
nos anos 70 uma retomada, em retaguarda, de sua “função” social,
agora desalienadora. Se no livro anterior (1) ainda se podia preservar
uma experiência contemporânea empenhada, de uma arquitetura desenvolvida
criticamente a partir do contexto e distinta da produção mais
geral, historicista ou pop, neste último livro esta possibilidade
está descartada.
A alguns que
vêem de fora parece que a autora – que vinda do “discurso” filosófico
encontrara vocação nas análises de arquitetura nos anos 80 – retrocede
ao “discurso”, filosofando a arquitetura e a cidade. Mas é dar
uma olhada em seu percurso, para ver que ele também percorreu
o caminho de seu objeto.
Otília Arantes
voltou-se para o estudo em detalhe da arquitetura quando esta
surgiu no cenário internacional como “explosão” da contestação
ao formalismo moderno. O espírito da “pós-modernidade” se alojou
naquela arquitetura do final dos anos 70, fruto das discussões
sobre a linguagem, o tipo, a cidade, o contexto, etc., em preparo
desde o fim da guerra. Por materializar as mudanças pelas quais
passava a sociedade contemporânea, a arquitetura, a partir da
bienal de Veneza de 1980, monopolizou parte das discussões sobre
a Pós-modernidade (Habermas, Lyotard, etc.). Tanto a formulação
do funcionalismo mais moderno (“do talher à cidade”), quanto sua
derrocada ideológica (o hedonismo narcisista pós-moderno), estão
impressos no desenvolvimento da “arquitetura das cidades”, quer
seja naquilo que se produziu (cidades novas, grandes intervenções,
edifícios “obras de arte”, etc.) como na reflexão a respeito.
As práticas
arquitetônicas dos anos 70 e 80 apontavam para vários caminhos,
que o ensaio pioneiro sobre a Bienal de Veneza mapeava. A maioria
desses caminhos consagrava a “arquitetura simulada”, em certa
oposição a uma “situada”, fruto das análises dos arquitetos e
pensadores italianos e ingleses durante os anos 60 e início dos
70. Depois da experiência avassaladora da “tábula-rasa” do plano
moderno, esses arquitetos buscavam ancorar a produção da arquitetura
em uma realidade social, cultural e histórica de um “lugar”. Da
mistura, bem datada, do genius loci e espaço público tiraram
a fórmula empenhada da appartenenza,
arquitetura e contexto se relacionando criticamente. A cidade
existente passa a ser então o objeto primeiro da análise arquitetônica,
condicionando todas as hipóteses do projeto. Os anos 80 viram
nascer em todo canto projetos de “contexto”, que procuravam reviver
a aparente morte do espaço público dos desertos modernos nas grandes
cidades. Espaço público, vida pública, desalienação, em contraposição
ao individualismo, à fragmentação e ao simulacro.
Um primeiro
sinal de que algo se perdera nessa retomada (uma “aura bastarda”):
ficava cada vez mais difícil separar as tentativas de “enervamento”
da vida pública da Gesellschaft (sociedade) das iniciativas de recriar o espírito
da Gemeinschaft (comunidade), nostálgicas de uma sociabilidade
pré-industrial, que ia ao encontro do intimismo, do gueto e ...
da morte do espaço público! Então, do espaço público “explosivo”
e revolucionário dos anos que antecederam a Revolução Francesa
à segregação do espaço das metrópoles contemporâneas, um único
e contraditório ciclo burguês (Sennett). Sem esquecer nem mesmo
a tentativa de superação da dicotomia público-privado do projeto
moderno – cuja dimensão anti-burguesa derrubava paredes, iluminava
interiores e expunha a nova vida através do vidro, e cuja dimensão
“funcional” criava as células mínimas de reclusão do indivíduo
acuado e desertificava o espaço externo. No auge da euforia pós-moderna
da cidade – que guiava a maior parte das intervenções nos anos
80 –, algo indicava que a vida pública, e não simplesmente o espaço
em que esta se desenvolve, se tornara um dado do passado das cidades.
Ao mesmo tempo,
o desenvolvimento do capitalismo e as análises mais críticas –
ajudadas até pelos apologistas – sobre a “mundialização” do capital,
a retirada do véu (o “muro de Berlim”...) que encobria o verdadeiro
conflito contemporâneo, a entrada do Brasil pela porta dos fundos
nesse processo (vista daqui a situação do mundo ganha mais definição),
ou seja, a realidade permitindo esclarecer – ou dando sentido
a – alguns fenômenos recentes, tudo isso fez com que as experiências
dos anos 80 fossem iluminadas no seu verdadeiro significado (o
que não retira a força de algumas delas, como resposta coetânea
à deterioração social em curso). Então essa “clarificação” do
processo capitalista dos últimos anos também vai contribuir para
que se relativize a “boa vontade” daqueles projetos que tinham
como alvo a retomada da vida pública, e também para aproximá-los,
não sem muito desconforto, daqueles exemplares mais evidentemente
celebrativos do mundo “obsceno” do espetáculo. Somada às análises
da arquitetura mais recente – o novo estilo internacional das
torres comerciais das mega-empresas –, o diagnóstico é implacável.
A crítica
contemporânea à totalidade moderna tem dois lados: a recusa àquela
aliança extra-arquitetônica com “funcionalismo sistêmico” totalitário,
e a atualização da cidade e do discurso à nova sociabilidade que
celebra o gueto, retira da cena parte da população (os excluídos,
novos personagens do neoliberalismo), e transforma a arquitetura
em forma-publicitária (esta era a sua ancestral vocação?). Aparentemente
nenhuma iniciativa hoje tem o poder de reverter, questionar ou
passar ao largo dessa contaminação, porque um círculo se fecha
e se retroalimenta. Tudo é mercadizado, não apenas a arte, mas
a cultura, antagonismos e oposições; tudo ascende à mesma condição
e se equivale, num amplo sistema que inclui objetos e indivíduos
transformados em fluxos de informação. A espacialização da nova
ordem capitalista prescinde das “cidades”, conforme se entendera
o fenômeno urbano até pelo menos a segunda grande guerra, transformando-as
em aglomerações urbanas informes em que convivem modos de vida
pré-neolíticos com as altas performances tecnológicas.
Planejamento urbano, zoneamento, regulamentação, cedem espaço
ao design urbano, à intervenção
pontual e às alavancas acionadas pelas novas operações urbanas,
que procuram reverter a deterioração de áreas da cidade (centro
ou bairros). Correções discretas aos possíveis desajustes dos
mecanismos da livre iniciativa da produção das cidades, permitindo
e reforçando a espontaneidade, aleatoriedade e polissemia do “grande
texto”. Novamente as mais avançadas aspirações da vanguarda –
e seu ressurgimento nos anos 60, depurado pelas críticas aos resultados
totalitários e “extraordinários” da arte moderna – “ao se realizarem
transformaram-se em seu contrário”. A degradação da vida nas cidades
contemporâneas prova que as iniciativas “revolucionárias” dos
anos 60 e 70 foram incorporadas à lógica geral, produzindo um
único artefato, ao mesmo tempo fragmentado – “local” e “global”
– e de segregação, preparando o mundo para a uma nova divisão
abissal entre incluídos e excluídos.
Essa “filosofia”
(sic) que tem incomodado e frustrado os arquitetos e afins,
depois de uma aproximação quase amigável, é de fato a concretude
do processo. Aqui uma inversão: nunca a “filosofia” (entendida
na sua forma mais abstrata e separada da vida) foi tão próxima
da arquitetura, mas é essa crítica materialista – e toda a relação
concreta que daí se depreende – que se renega como discurso hermético
e “filosófico”. O “mundo da imagem”, a “morte do sujeito”, a “desconstrução”,
etc, voltaram nas últimas décadas (agora já vão passando, substituídas
por um jargão empresarial) para dar suporte, a posteriori, à produção
arquitetônica. Filósofos muitas vezes patrocinados pelo star
system da arquitetura enchem de “filosofia” as publicações
especializadas. Mas uma filosofia que a partir da experiência
procura compreender o processo global aparece como “discurso”
anti-arquitetônico. Talvez porque ela anuncie exatamente a abstração
do processo para uma disciplina “tectônica” (cuja autonomia é
a mais relativa). O percurso da autora atravessou a produção arquitetônica
nos anos 80 e se volta agora cada vez mais para a análise direta
do processo econômico e social, no acirramento dos entraves. A
arquitetura (e a arte?) perdeu a propriedade que permitia, de
forma privilegiada, usá-la como mirante para a panorâmica compreensiva
e crítica da sociedade capitalista, e o “estético” se diluiu na
vida-espetáculo. Talvez, como decretava Tafuri no final dos anos
60, referindo-se à derrocada da “ideologia do plano” nos anos
30, a arquitetura esteja condenada definitivamente a tarefas de
suporte marginal.
É a História
da Arquitetura que deve se encarregar da especificidade desse
processo na arquitetura. A arquitetura de hoje, porém, cria uma
unidade com os discursos sobre a arquitetura e a cidade. Tanto
das generalidades sobre a cidade à cidade, como do planejamento
da cidade para um discurso sobre o urbano, temos uma elaboração
contínua, que trata, em abstrato, de formas, diferenças, lugares,
cultura urbana, etc. Discurso que acompanha a produção de uma
mega-mercadoria (que se desmancha no ar...), que mescla num conteúdo
publicidade, cultura, forma arquitetônica, relações sociais, etc.
Não se trata mais de arquitetura propriamente dita (domínio em
separado das outras formas artísticas ou sociais). Esse é o mais
desconfortante subproduto da leitura interessada – de arquitetos
– do texto. E não adianta anunciar que essa arquitetura “em fim
de linha” é fruto de um processo que tem pelo menos três séculos,
incluído o grande encrave nos anos 30: o impulso “construtivo”
da disciplina faz com que ela se apóie, na falta da própria, em
qualquer nesga de ideologia para viabilizar-se.
Nesse processo
o Brasil é um contraponto. A fluência com a qual a arquitetura
moderna se instalou e floresceu entre nós não é apenas mais um
capítulo “regional” da história da arquitetura internacional.
A vinda de Le Corbusier ao Brasil não foi apenas mais uma parada
na peregrinação apostólica do mestre suíço. Primeiro em 1929,
depois em 1936, suas visitas representaram a mudança de eixo de
sua retórica (e uma guinada ideológica). Com a crise do capitalismo
no início dos anos 30, o interlocutor prioritário de Le Corbusier,
o grande industrial, não se mostrava à altura de sua tarefa (evitar
a revolução social). A entropia só poderia ser revertida pela
ação de um poder acima dos interesses imediatos dos capitalistas.
Dos Estados Unidos (New Deal), passando
pela Europa (nazi-fascismo), chegando à URSS (planos qüinqüenais),
em cena o Estado. Seguindo ainda uma vez Tafuri: a partir de 1930,
a “Ideologia do Plano” se transforma em “Realidade do Plano”,
ou seja, a planificação da economia e da sociedade capitalista
passa a ser feita diretamente pela esfera econômica através do
Estado, prescindindo das mediações ideológicas.
No Brasil
a revolução de 30 colocava na agenda uma modernização autoritária
e centralizadora, que, apesar de sua proximidade, se diferenciava,
pela especificidade da conjuntura mesma, do processo europeu.
“Tábula-rasa” histórica e social, o Brasil aliava a vontade empreendedora
da nova organização política com a busca de uma nova identidade
nacional que o distinguisse dos outros países. Sem uma história
clássica – que fez reviver na Europa um estilo fascista classicisante
nostálgico dos grandes impérios – éramos a própria matéria bruta
da modernidade, já bem diagnosticada e trabalhada por uma vanguarda
local na década anterior. “Universal”, a arquitetura moderna se
mostrou uma saída para a modernização do caso brasileiro, em particular.
Então, como
ideologia operante o projeto moderno se realizaria na periferia,
onde, livre de todo contexto, inclusive do impulso socializante
que caracterizara seu primeiro capítulo, pôde se desenvolver cada
vez mais desinibidamente de sua “função social”. Talvez isso explique
nossa originalidade, que muitos hoje defendem como Regionalismo.
Fruto do “atraso” – o apontado descompasso entre a forma artística
da metrópole industrial e a realidade econômica brasileira dos
anos 30 – a nossa desenvoltura formal nada mais é que a necessária
particularização daquela universalidade. Sempre que se realizou,
a arquitetura moderna adquiriu traços “locais”, que põem em cheque
o formalismo dessa “universalidade”, ou como diz Otília, em se
realizando foi se transformando em seu contrário, ou em sua verdade.
O caso brasileiro
é exemplar para compreender as aporias do projeto moderno em dois
aspectos. Primeiro, como constatação da flexibilização dos princípios
modernos, necessária para por em marcha uma transformação modernizadora.
Segundo, como verificação daquilo que é um dos principais argumentos
do texto e que associa promessa e realização (ponto de
divergência desenvolvido no debate com Roberto Schwarz: “Arquitetura
Nova Antigamente: O que fazer?”). Pois por aqui de fato, mais
que em qualquer outro lugar, a arquitetura moderna se realizou,
quer seja com a construção de um sem número de edifícios isolados,
com intervenções cirúrgicas nas cidades, ou com sua realização
máxima: a construção de uma cidade inteira, a partir das regras
definidas na Carta de Atenas. Se, como defende a autora, promessa
e realização não podem ser dissociadas quando se trata de crítica
de arquitetura, temos entre nós o material para a verificação
final (o mais “moderno” e o mais injusto).
O percurso
da arquitetura moderna vai conhecer, em países como o Brasil,
o seu último capítulo, por exatamente colocar em perspectiva histórica,
ao se construir, parte de suas promessas iniciais. Basta
acompanharmos a mudança de discurso do mestre Niemeyer nos anos
50, que, após apontar os impasses de uma arquitetura moderna em
um país subdesenvolvido, e por isso socialmente injusto, passa a eleger
a “liberdade plástica” como objetivo acima de qualquer realidade
social ou política. Nem o orador mais entusiasta poderia continuar
justapondo “beleza” e “justiça”, ao defender a nossa arquitetura
dos anos 50. E se, como quer Roberto Schwarz, recorrendo a Adorno,
a ideologia mente não pela sua aspiração, mas “pela afirmativa
de que esta tenha se realizado”, poderíamos acrescentar: que se
tenha realizado plenamente, em todas as possibilidades inseridas
nas ambigüidades – contraditórias – do pensamento burguês, que
no início amalgamava racionalidade e liberdade. Mas sua realidade
concreta está não na declaração de sua realização (nunca feita,
já que nunca foi alcançada, devido às sobrecargas que apareceram
no meio do caminho, segundo Habermas), mas na forma em que historicamente
se desenvolveu. E esta só pôde se constituir à medida em que ia
respondendo cada vez mais diretamente às necessidades funcionais
do desenvolvimento capitalista, e deixando para trás as promessas
de emancipação social. Estados Unidos (Mies van der Rohe) e Brasil
(Le Corbusier), por motivos diametralmente diferentes, amplificaram
o formalismo contido no funcionalismo das primeiras experiências,
única maneira possível de sua concretização (a “maquina de morar”
não era uma máquina qualquer...).
Os temas discutidos
acima não são de forma nenhuma um roteiro do livro, nem pretendem
ser a “crítica explicada aos arquitetos”, já que o texto tem as
qualidades da clareza e concisão. São idéias que, dentre outras,
podem ser recolhidas na leitura – neste caso bastante arquitetônica.
Aqueles arquitetos, sociólogos, filósofos, etc., que se aventurarem
poderão garimpar outras relações, porque está em foco a crise
contemporânea, que é multifacetada. Isso não significa que esta
não tenha unidade, pelo contrário. Se os temas se entrecruzam
nos diversos ensaios, é exatamente para reforçar essa unidade.
Os diversos pontos de partida se encaminham para uma direção que
magnetiza todos os esforços: uma espécie de “determinismo cultural”
(imagem, informação, fluxos, etc.) na nova ordem mundial. Não
que tenhamos superado suas determinações econômicas, mas estas
estão cada vez mais unificando o “econômico” e o “cultural” (que
toma o lugar da Cultura). Outros autores, que estão presentes
no texto, também analisam essa mudança do capitalismo (Jameson,
Harvey, etc.). O que distingue a análise de Otília Arantes é que,
a partir do exame da arquitetura e do pensamento sobre as cidades
contemporâneas, logra um conjunto coeso de multirelações daquilo
que até agora era entendido em separado. Isso dá ao urbanismo
e à arquitetura de hoje (a partir de seu ciclo burguês) uma unidade
construída, e não pré-determinada, com poder de explicar o que
foi feito até agora, para além das aproximações tateantes de algumas
análises pontuais. Ao contrário de tornar desnecessários os exames
específicos, essa dimensão “totalizadora” da análise impele ao
fato, retorno exigido pela dialética entre fenômeno e conceito,
como certa vez contra-argumentou Antônio Cândido. A entrevista
no apêndice do livro (“Minimalismo ou Anacronismo?”) pode muito
bem exemplificar esse retorno ampliado, que a autora produz ao
se deter, por provocação, em um caso específico (a obra recente
de Paulo Mendes da Rocha, definida como “Minimalista” por Montaner).
Uma espécie de “Dezoito Brumário”, no qual se desdobram relações
de toda ordem, a partir das aparentes reduções conceituais das
análises centrais do livro quase manifesto. Esse estrato mais
profundo que permite aproximar idéias, movimentos e oposições
aparentes, em que os nexos se esclarecem. Seus textos anteriores
apontavam para uma lógica que só agora pôde ficar clara. Como
num quebra-cabeças em que uma peça, apesar de familiar, não se
encaixa perfeitamente. Encontrado seu lugar, uma nova área se
ilumina para a resolução de novos problemas.
Nota
1
Arantes, Otília. Arquitetura depois dos Modernos. São Paulo:
Edusp, 1993.
Luiz Recamán é arquiteto, professor e doutorando na FFLCH-USP
com uma pesquisa sobre a arquitetura moderna brasileira
© Este
ensaio foi publicado originalmente na Revista praga nº8, São Paulo
HUCITEC, p. 143-150 e depois republicado como “posfácio” da segunda
edição do livro de Otília Arantes, “O lugar da arquitetura depois
dos modernos”, Edusp, 2001. Reprodução proibida
sem autorização do autor.
Leia
também "O
véu e a mortalha",
de Abilio
Guerra, sobre o livro de Otília Arantes |