| Encontro
visível, desencontro tangível *
resenha de otília
beatriz fiori arantes
Uma regra
bem conhecida da vida acadêmica proíbe – aliás com razão – a argüição
do orientador, mas não só autoriza como até estimula o Prefácio
da tese que virou livro. Não fugirei à regra, com a ressalva de
que aproveitarei a ocasião para relembrar que fui menos orientadora
– a rigor quase nada – do que uma interlocutora a um tempo privilegiada
e recalcitrante. Explico-me: durante os anos de elaboração deste
trabalho Hygina e eu divergimos cordialmente. Havia porém método
em nosso desencontro, pois ele se dava sobre o fundo de uma concordância
tácita quanto à centralidade das categorias históricas cujo sentido
estava em disputa. Nestas circunstâncias, acho que um retrato
desse desencontro convergente poderá inclusive ressaltar ainda
mais a originalidade deste livro, sob vários aspectos notável:
do impressionante aparato teórico e histórico mobilizado à não
menos desenvolta incursão nos domínios mais traiçoeiros da especulação
filosófica acerca do atual estado das coisas arquitetônicas.
Assim sendo,
peço licença para começar por uma recapitulação pessoal, mais
exatamente, pelo resumo do argumento que acabara de desenvolver
quando nossos caminhos se cruzaram – se não fui a primeira leitora
do livro de Hygina sobre Baudrillard, publicado em 1988, devo
ter sido uma das pessoas que mais se sentiu concernida por aquela
apresentação pioneira do autor da economia política da simulação;
et pour cause, como logo se verá. É que um ano antes, num
dos encontros da Funarte – daquela vez, sobre o Olhar – ao fazer
um mapa da terra de ninguém ideológica em que se transformara
a arquitetura depois dos Modernos, eu havia atinado, por minha
própria conta e risco, com o dispositivo na origem daquela verdadeira
ruptura de época, a que chamei, variando livremente um esquema
de Walter Benjamin, de “disciplina tátil do olhar”, só que agora,
numa sociedade inteiramente midiática, exercida no entanto, tal
“disciplina”, com o sinal trocado. Meu ponto consistia então em
deixar claro que a matriz desse novo regime da imagem numa sociedade
comandada pelo derradeiro estágio da forma-mercadoria, quando
a realidade passa a funcionar como o seu próprio marketing,
devia ser procurada justamente na arquitetura, a cujo caráter
originário de arte de massa se deveria atribuir aquela dominância
tátil, que entretanto se apresentava como um novo inconsciente
ótico. Ou seja, o que eu estava tentando dizer, e logo depois
escrevi, é que, ao parecer consagrar o triunfo da pura visibilidade,
a tão celebrada (para bem e para mal, mais para mal do que para
bem, no caso de Baudrillard) onipresença do simulacro, poderia
muito bem ser, por sua vez, uma miragem: de fato, nada mais nada
menos, do que o arremate de uma escravização progressiva do olhar
à hiperrealidade – como se dizia então –, sem dúvida imagética,
porém de caráter eminentemente tátil, marca registrada de uma
cultura de massa, da qual, no fundo, o paradigma era menos a óbvia
televisão do que uma máquina arquitetônica de simulação.
Como disse,
meu ponto de partida era uma breve passagem do famoso escrito
de Walter Benjamin sobre “a obra de arte na era de sua reprodutibilidade
técnica”, na qual a entrada em cena das massas, ao mesmo tempo
em que cancelava a pré-história contemplativa da arte autônoma,
revelava retrospectivamente a implicação primordial da arquitetura
na corrosão coletiva do valor de culto das imagens, uma vez que
a forma de sua recepção – ao contrário, por exemplo, da pintura
e do romance, âmbitos artísticos de individuação máxima, e que
por isso mesmo não se prestam à apreensão imediata do grande público
– só se dá pela “distração”. E com isso Benjamin queria dizer
que, no caso dessa mais antiga arte de massa, a observação visual
do observador solitário, que se absorve na contemplação da obra,
cede o passo à apreensão tátil da “massa distraída, que faz a
obra de arte mergulhar em si, envolve-a com o ritmo de suas vagas,
absorve-a em seu fluxo”. Recepção coletiva que fora outrora o
caso da poesia épica e acreditava estar se repetindo com o cinema
em escala industrial. Desnecessário lembrar que, àquela altura,
Benjamin pensava estar testemunhando uma reviravolta histórica,
carregada de virtualidades emancipatórias em pleno curso. Assim,
a atenção distraída, pragmática e fluída, descontínua e difusa,
própria de uma tal apreensão coletiva, mas em que as reações,
por isso mesmo, se controlam mutuamente (na intenção da qual não
por acaso Brecht também concebera o seu teatro épico), deveria
concorrer para algo como uma liberação da percepção para outras
tarefas, abrindo caminho para uma arte antiburguesa e, quem sabe,
revolucionária. Em resumo, esta predominância do tátil até mesmo
no domínio visual mais ostensivo como o cinema – cujo efeito de
choque requeria o mesmo distanciamento na percepção coletiva –
permitia redescobrir no impulso anti-aurático da Arquitetura Moderna
não só a herança reconquistada da primeira arte de massa, como
a matriz construtiva de toda relação estética na era da reprodução
técnica.
Era no entanto
óbvio que, passados cinqüenta anos, já não era mais possível manter
a mesma ilusão quanto às promessas de emancipação ligadas à irrupção
do coletivo “tátil” na atmosfera atomizada da contemplação visual.
De resto, o caráter regressivo da indústria cultural nascente
fora assinalado pelo próprio Benjamin, confrontado com a espetacularização
fascista da política: naquela estetização aterrorizante das massas
em movimento e oferecidas a si mesmas em espetáculo sacrificial
seria possível dizer que a dominância do tátil já era completa.
Como hoje voltou a ser com o novo triunfo do capitalismo de imagens.
Esse contraponto reversível entre o tátil e o ótico, na acepção
materialista que lhes deu Benjamin, está também, a meu ver, na
fórmula de Guy Débord para designar este último degrau da alienação:
a “sociedade do espetáculo” – aliás a fórmula mesma da “lógica
cultural” do capitalismo vindouro, como lembraria mais tarde Fredric
Jameson, instruído, sem dúvida, pela leitura de Baudrillard (a
quem cita). De sorte que a observação de Benjamin acabou sendo
reposta em circulação para melhor reforçar um diagnóstico sombrio,
mas agora, é claro, com a arquitetura de volta ao centro estratégico
do novo campo de forças, a saber, o mundo devassado pelo “efeito
televisão”, como costumava dizer o Baudrillard daquela década
de 80, onde tudo se torna absolutamente próximo, mas cuja promiscuidade
não é mais do domínio exclusivo do olhar, ou melhor, a devoração
do olhar é enquadrada pelo disciplinamento “tátil” da recepção
de massa. O mesmo Baudrillard – que de resto não menciona obviamente
essa invasão extemporânea da tatilidade – arremata o raciocínio
observando que um tal olhar assim colado ao mundo das imagens
hiperreais beira a cegueira: nada pode ser visto onde não há profundidade,
onde não há sentido a ser desentranhado como se arranca um segredo
que a realidade ao fim confessa, como no antigo cenário burguês
da ideologia da transcendência. Daí a “obscenidade” do mundo contemporâneo:
simplesmente não há mais nada em cena. Obscenidade da exposição
plena, que cega, ao invés de seduzir, na extroversão do consumo
ostensivamente explícito – da imagem de marca à guerra espetáculo
eletrônico. Seria preciso insistir ainda na fantasmagoria tátil
dessa nova obscenidade? Pois sendo assim a obscenidade o reino
chapado da superfície numa sociedade em que a mercadoria assumiu
de vez a forma publicitária – ou alguém ainda acha que a Nike
vende tênis e o McDonald’s, hamburguer? –, a arquitetura, reduzida
ela também ao consumo imagético, estaria por certo fadada (e ela
antes de tudo) à pura extroversão fachadista ou cenarística, a
exemplo da arquitetura representada na mostra Strada Novissima
da Bienal de Veneza de 1980, e que me serviria de mote na conferência
que estou evocando; para não falar nos casos estudados nos ensaios
imediatamente posteriores, como o “efeito Beaubourg” ou o novo
formalismo da “desconstrução” segundo Peter Eisenman.
Pois assim
estavam mais ou menos arrumadas as coisas em minha cabeça quando
Hygina e eu nos cruzamos. Com alguma presunção, creio que das
idas e vindas de nossos argumentos simetricamente contrapostos,
a inteligência e as leituras enciclopédicas de Hygina souberam
extrair o livro que se vai ler – com certeza, a primeira obra
brasileira de filosofia da arquitetura. E uma obra, por sua vez,
comandada igualmente pela obsessão do tato, só que em todas as
suas múltiplas variantes históricas, e não apenas na sua acepção
materialista estrita em que o tomei (nele mesmo e em suas metamorfoses),
conforme a civilização capitalista ia desautorizando suas promessas
de liberação. Foco tão metodicamente perseguido a ponto de remontar
até às considerações de Berkeley e Diderot sobre os desmentidos
que reciprocamente se infligem os sentidos do tato e da visão.
Não preciso adiantar que Hygina toma o partido da cegueira que
no entanto permitiria ao fim “ver”, como ao cego filósofo de Diderot.
Daí sua idéia divertida de substituir a Carta de Atenas por uma
“Carta sobre uma arquitetura cega para o uso dos que vêem” – e
nada enxergam. Uma arquitetura certamente restaurada com muito
tato... Assim, num mundo dominado pela pura visibilidade e a tagarelice
que a acompanha – juízo no qual os filósofos já poderão ir reconhecendo
a desqualificação heideggeriana do homem cartesiano sem qualidades
e a conversa oca da vida que não se deixa viver – será preciso
encontrar o sentido perdido da experiência que só se dá pelo tato
e, por isso mesmo, não faz abstração da mediação decisiva do corpo
próprio. Transposto esse programa – se é que se pode falar assim
– para o âmbito, agora ontologicamente fundamental, da arquitetura,
ele se traduziria por algo como uma redescoberta da “tectonicidade”
mesma da archi-tektura, bem como da sua origem (arché)
como “lugar”. Esse, segundo Hygina, o contra-veneno a antepor
à maré cenarística da simulação arquitetônica contemporânea, cuja
transparência obscena – nos termos que se viu – desenraiza e faz
o tempo evaporar. Em suma, poderia resumir o propósito do livro
parafraseando ao pé da letra o título do meu: Hygina também está
interessada em encontrar “o lugar da arquitetura depois dos Modernos”,
lugar que considera pós-utópico, já que o Movimento Moderno arrastou
consigo o que restava das utopias, por definição necessariamente
arquitetônicas e urbanas. Ou então, nos termos mesmos da Autora:
mostrar que somente uma arquitetura modestamente recentrada na
apreensão tátil do mundo poderá resistir, e quem sabe suplantar,
ao “vazio” arquitetônico atual, reinstaurando-a como “lugar” –
aliás, seu sentido original.
Dito isto,
não estou querendo afirmar que Hygina produziu uma confirmação
erudita do meu argumento. Seria muita pretensão, mesmo se fosse
verdade. Mas ocorre que infelizmente não é. Mesmo assim não teria
nada a acrescentar ao seu capítulo inicial, ou à conclusão, acerca
dos últimos avatares da arquitetura dita pós-moderna. Acho até
que Baudrillard está coberto de razão ao afirmar que “fora o deserto
nada mais é arquitetura” – ainda que suas razões não sejam exatamente
as minhas. Como também talvez empregasse outras palavras para
acompanhar Hygina em juízos como os seguintes: “o nominalismo
da cultura contemporânea, a aniquilação topológica do ciberespaço
das tecnologias em tempo real, a simulação e sua tautologia, no
universo da comunicação de massas”; o consumo, como “prática idealista
total”, que desmaterializa, irrealiza – e tudo o mais que na cultura
do dinheiro conspira para tornar a realidade irreal – obviamente
ameaça de morte uma arte como a arquitetura “marcada pela recepção
tátil, pela solidez e indispensável materialidade do suporte”.
E por que não haveria de acompanhar Hygina quando relembra mais
uma vez que são precisamente tais características que habilitariam,
como que por definição, a arquitetura a ocupar um papel estratégico
na resistência ao programa suicida da civilização do não-lugar?
Pois não se pode deixar de reconhecer que a mais elementar necessidade
de habitar se dirige ao tato e às relações que instaura entre
exterior e interior, medida e escala, limite, etc., todas elas
relações características da arquitetura como lugar e por isso
mesmo irredutíveis ao olho.
Reconhecendo
porém esse terreno comum da resistência possível, seria preciso
dar um outro passo, pondo desta vez em perspectiva a trincheira
cavada por Hygina e todos os principais antagonistas da utopia
moderna, alinhada com os imperativos sistêmicos da racionalização
capitalista. Como de minha parte procurei dar esse passo – não
sei se à frente ou de lado –, começa por aqui nosso desencontro.
Mas aqui novamente divergência sobre o fundo de um acordo inicial.
É que eu também, ao final daquele ensaio-conferência de 1987,
“Arquitetura simulada”, contrapunha à colonização tátil do olhar
a alternativa de um regionalismo renovado pela crítica, mais ou
menos na linha de Rossi e Frampton. Não posso agora recapitular
por extenso o modo pelo qual fui aos poucos reconstituindo a progressiva
metamorfose do contextualismo anti-sistêmico num reforço “cultural”
da fabricação de “lugares” pelo novo establishment urbanístico-arquitetônico.
O fato é que em pouco tempo vi frustradas as minhas expectativas
em relação a uma volta à cidade cuja estetização crescente mal
encobria a estratégia empresarial em curso, baseada na promoção
da aura obviamente bastarda dos lugares-isca, convertidos em penhor
da “autenticidade” do enraizamento arquitetônico local, da conviviabilidade
inclusiva, como se alega, ao mais predador city marketing.
Não é preciso dizer que Hygina sabe muito bem disto tudo, e que
a resistência tectônica que invoca ao longo do livro é justamente
resistência a esse estado falso do mundo (como diriam os frankfurtianos).
Embora desnecessário, assim mesmo aconselho o leitor em dúvida
que se reporte às páginas em que enfaticamente inflete seu raciocínio
acerca da arquitetura da cidade na direção, por exemplo, do espaço
público em extinção. Não está evidentemente aqui o foco mais tangível
do nosso desencontro, mas numa outra reversão do esquema de Benjamin
– para abreviar um tanto abruptamente, com o auxílio de um nome
eminente, o ponto cego em torno do qual ambas nos debatemos.
Não terá escapado
ao leitor que, nas mãos de Hygina, aquelas características que
definiriam a arquitetura como arte de massa – na acepção benjaminiana
do termo – readquirem um surpreendente sentido positivo, não se
trata mais de uma marca regressiva da moderna sociedade de consumo,
recuperando algo como um não menos intrigante estatuto metafísico
radical. Tudo se passa como se a própria arquitetura, em seu decurso
histórico, cumprisse uma espécie de roteiro ontológico que paradoxalmente
a devolveria ao seu enraizamento grego de origem. Pois é isso
mesmo: Hygina redescobre nas noções aristotélicas de apeiron
(indiferenciado), horos (borda) (“que permite separar o
substrato de uma entidade, ousia, ou seja, diferenciar
o interior do exterior”) etc, o quadro ontológico que lhe permitirá
definir a arquitetura-como-lugar, para além do espaço como abstração
geométrica e do mero suporte físico, o resultado de uma operação
tangível de delimitação na origem de um lugar-relacional, como
queria Aristóteles, corrigindo antecipadamente Heidegger de “Construir,
habitar, ser”, no qual se apoiaria Hygina no limiar de sua travessia
filosófica. No meio do caminho assinalo de passagem a forte presença
de Merleau-Ponty, cuja fenomenologia da percepção e do corpo próprio,
além de neutralizar a falsa evidência da visualidade pura, também
resiste com sucesso à avalanche da racionalidade instrumental
do capitalismo de imagens.
Como acabei
de observar, pois, ao reativar em clave metafísica as esperanças
emancipatórias que Benjamin depositara nas virtualidades materialistas
do sentimento tátil do mundo, Hygina simplesmente inverte o raciocínio
original – eminentemente histórico –, bem como as conseqüências
que eu mesma extraí, por minha conta, do esgotamento também datado
daquele esquema. Posso é claro estar enganada. De todo modo, me
revejo de ponta cabeça no espelho de Hygina. Mas vou logo esclarecendo
que não se trata de preconceito contra o pensamento de sobrevôo.
Ao contrário, em tempos de autonomização fetichista da economia
de simulação – do capitalismo cassino, da moeda sem substância
aos espaços empresariais inundados de uma falsa luminescência
–, a transcendência exigida pelo impulso metafísico de ultrapassagem
pode bem ter se tornado um exercício político de sóbrio realismo,
comparado à imanência fantasmagórica da irrealidade contemporânea.
No fundo Hygina e eu estamos de acordo, na medida em que o termo
metafísica comparece em nossos respectivos argumentos ora como
pensamento, ora como híbrido monolítico de realidade ofuscante
e total intransparência. Vale no caso mais uma vez um argumento
velho de meio século (para voltarmos aos mestres da escola de
Frankfurt), adaptado para conforto de uma orientadora que afinal
sempre se soube muito bem entendida: no momento mesmo em que o
capitalismo globalizado se converteu na verdadeira cortina metafísica
atrás da qual se concentra a desgraça real, a estúpida liquidação
da metafísica pelo sucesso positivo do grande capital corporativo
acabou revelando ao fim o princípio de esperança que ela ainda
abrigava.
Otília Beatriz Fiori Arantes é professora de Estética
no Departamento de Filosofia da FFLCH da USP
© O
presente texto é datado de fevereiro de 2001 e foi publicado originalmente
como “prefácio” do livro de Hygina Moreira Bruzzi, “Do visível
ao tangível, em busca de um lugar pós-utópico”, BH, C/Arte, 2001.
Reprodução proibida sem autorização
do autor. |