| Garimpo
lúcido *
resenha de roberto conduru
Há muito deixou
de ser novidade a posição dominante que Lúcio Costa ocupa na cultura
brasileira, desde os anos 1920 até recentemente, por sua contribuição
única para a renovação arquitetônica; não só das formas, mas também
do modo de pensar, ensinar, historiar e preservar arquitetura.
Ocorre que esta figura central quase sempre preferiu estar à margem,
atuando discretamente, chegando por vezes ao cúmulo do silêncio.
É, portanto, mais do que bem-vinda a publicação de uma obra com
textos e croquis de sua lavra, permitindo o reencontro
com seu pensamento e sua atuação pública.
Em 1995, saiu
Lúcio Costa: Registro de uma Vivência, auto-biografia de
sua trajetória ímpar. Como sempre, apesar do barulho na imprensa,
o livro passou quase em branco. Ainda está para ser feita uma
avaliação à altura do autor. E uma que, além de analisar suas
idéias, ações e obras, investigue como ele compôs seu auto-retrato,
quais projetos e textos foram deixados de fora, como reviu suas
realizações nos comentários apostos e nas possíveis emendas.
Um pouco do
muito que ainda falta ser divulgado e estudado veio a público,
há três anos, em Lúcio Costa: Documentos de Trabalho. Organizado
por José Pessôa a partir de pesquisas desenvolvidas no Instituto
do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, o livro reúne documentos
existentes no arquivo da repartição produzidos pelo arquiteto
durante o período em que foi funcionário do órgão e mesmo depois
de sua aposentadoria. Em sua maioria, são pareceres de tombamento,
mas há também um pouco do muito que fez visando à preservação
dos bens culturais do Brasil (relatórios, cartas, planos de trabalho,
projetos).
Com certeza,
o livro servirá aos técnicos do IPHAN, funcionando como base para
suas ações (cada seção do órgão devia passar a ter um exemplar
como instrumento de trabalho), mas também aos estudiosos do Patrimônio,
da preservação de bens culturais e de tantos outros temas. Os
interessados em arte no Brasil poderão observar o cânone moderno
em formação e plenitude; os dedicados à questão urbana, muitas
das forças pessoais e institucionais que desenharam as cidades
do país neste século; quem pensa a cultura brasileira, a construção
de algumas das referências simbólicas da nação. Além, é óbvio,
dos fãs de “Dr. Lúcio”, como era chamado, que encontrarão seu
ídolo por inteiro; embora o volume não tenha sido por ele concebido,
sua presença é dominante.
O livro não
é exaustivo (até porque não teria sentido reproduzir todo e qualquer
papel), mas, sacando os documentos de seus respectivos processos
e os reunindo cronologicamente, forma um conjunto que dá a ver
o todo das atividades desenvolvidas tanto pelo funcionário quanto
pela instituição.
Logo no primeiro
documento – o relatório sobre as ruínas de São Miguel das Missões,
no Rio Grande do Sul, de 1937 –, o leitor encontrará as qualidades
profissionais que, em outra ocasião, Lúcio Costa afirmou serem
necessárias aos técnicos responsáveis pela recuperação e restauração
de monumentos: “além do tirocínio de obras e de familiaridade
com os processos construtivos antigos, sensibilidade artística,
conhecimentos históricos, acuidade investigadora, capacidade de
organização, iniciativa e comando; e ainda, finalmente, desprendimento.”
Isto porque, neste relatório, ele já se revelava historiador da
arte, arquiteto, engenheiro, museólogo, administrador de obras...
O que vem
a seguir são verdadeiras lições de arquitetura, urbanismo, escultura,
azulejaria, pintura e desenho; tudo dito numa prosa rara e permeado
por observações agudas sobre a sociedade brasileira. Em alguns
casos, Lúcio Costa não via motivo para se alongar e a sentença
era breve: “Interessa preservar”, parecer sobre a sede do antigo
Engenho da Vila em São Francisco do Conde. Embora fosse sucinto,
nunca era omisso, chegando muitas vezes a extrapolar o objetivo
do documento. Observava questões de datação, autoria e influência
das obras. Ou ampliava o objeto do tombamento, caso da Casa de
Câmara e Cadeia de Santos, em que incluiu a área arborizada fronteira
ao edifício. Ou acrescentava sugestões que resolveriam os impasses
do processo, fazendo até projetos, como no croquis para
a capela das Mercês, em Andrequicés, onde as alterações sugeridas
criam um outro templo, mesmo que fiel às tradições luso-brasileiras.
Ou, ainda, atuava como crítico de arquitetura, como ao julgar
o projeto da nova agência dos Correios para a cidade do Rio Grande,
que incluiu entre as “obras pseudo-modernas” contra as quais protestou
desde a hora primeira em que abraçou a causa do movimento moderno
de arquitetura.
Sobressai
de imediato a existência de critérios tão precisos norteando o
juízo de valor em momento tão precoce da vida da instituição e,
de certo modo, também da carreira de Lúcio Costa. Produzidos com
uma freqüência determinada pelo acaso do serviço no Patrimônio,
os documentos evidenciam a mudança lenta e sutil dos critérios
de tombamento e preservação, mais os do IPHAN do que os do arquiteto,
pois estes foram praticamente os mesmos até o último parecer.
Partindo da
legislação que criou o Patrimônio, Lúcio Costa julgava com uma
nítida hierarquia de valores, diferenciando o que devia ser tombado
daquilo que bastava ser inventariado, as obras de arte dos documentos
históricos, os monumentos de primeira categoria dos de importância
secundária, os bens de valor excepcional das curiosidades, artísticas
ou históricas.
O paradigma
era a nação. Em seu trabalho, devia garimpar os “vestígios simbólicos
da pátria em formação”, objetivando a construção de uma memória
coletiva, um “vínculo simbólico, capaz de manter de algum modo
viva, no espírito dos (cidadãos), a consciência da continuidade
que os une a todos, de geração em geração.” Segundo consideração
sua de 1943 como algo que há muito vinha repetindo, além da referência
nacional, era “imprescindível desdobrar-se o tombamento em categorias
conforme o grau de interesse que a coisa a preservar apresente:
interesse nacional, estadual ou municipal”, devendo ser criada
uma rede institucional de preservação devidamente articulada e
orientada pelo órgão federal, o que só foi efetivado no país parcialmente
a partir dos anos 1960 (excetuando-se o caso ainda por investigar
do DPHAC do Paraná, órgão estadual de preservação citado em parecer
de 1951).
Mas Lúcio
Costa estava longe de ser um reles burocrata aplicando regras.
Sua abordagem do problema era antes de tudo humanista. E não só
pela freqüente analogia entre a obra de arquitetura e o corpo
humano: as pessoas idosas e os antigos monumentos, no parecer
sobre a ameaça de demolição da igreja do Bom Jesus dos Martírios,
em Recife, para abertura de uma avenida (“Desde quando é de boa
ética matar gente velha que estorva o caminho?”); a mutilação
e a retirada das árvores e do posteamento da avenida Rio Branco;
o defeito físico e as anomalias arquitetônicas da igreja de Nossa
Senhora da Conceição e Boa Morte, no Rio de Janeiro. O humanismo
se evidencia, sobretudo, na peculiaridade do seu juízo não se
restringir aos objetos em si, mas operar em função das pessoas
para quem devia ser um valor. Azulejo, tela, imagem, prédio, rua,
praça, árvore, jardim, mata e paisagem, entre tantos outros bens
materiais e imateriais, têm seus sentidos no ser humano e na noção
de valor público inerentes à idéia de patrimônio simbólico coletivo.
Juízo de valor
pensado em função de toda gente, mas que reservava uma atenção
especial à gente humilde. Desde o primeiro parecer, manifestou
o seu apreço pela ação do nativo e pela “‘mistura’ de procedências”.
Distante da erudição pernóstica, “do equívoco generalizado de
presumirem sempre artísticas — convencionalmente artísticas
— as obras do passado, apenas porque elaboradas e de aparência
rica,” é mais fácil encontrá-lo defendendo a “parte mais modesta
— tantas vezes a mais significativa —, do nosso patrimônio histórico-artístico”,
ou as obras urbanas, do século passado e deste, de autoria “do
bom portuga construtor”, bem lembradas na introdução.
Assim como
o popular estava longe de ter significado menor para ele, o passado
não tinha “cheiro de mofo”, em sendo “o ‘moderno’ de sua época”,
conforme aponta Maria Elisa Costa na apresentação do livro. Um
traço distintivo da cultura no Brasil é o fato de parte da vanguarda
arquitetônica ter se dedicado à preservação. Para Lúcio Costa,
isto era mais do que possível, era mesmo necessário e tinha origem
na verdade da construção e na unidade da intenção plástica que
procurava nas obras pretéritas e contemporâneas. A verdade era
uma de suas preocupações maiores quando do restauro, recomendando
a preservação da autenticidade da obra tombada, tanto da manufatura
original, ao contrário do que a seu ver sucedeu na igreja da Palma,
em Salvador, quanto da forma transformada pelo tempo, caso do
cemitério protestante de Joinville, em que “a impressão de cultivado
abandono, que lhe confere ar romântico, é o que importa preservar”.
Verdade era também o que devia presidir a intervenção, o convívio
entre as obras de diferentes tempos, cujo confronto devia ser
“honesto e franco”. O caso das Missões é exemplar: as conexões
entre a organização das casas e os edifícios de apartamentos modernos,
estabelecidas no relatório, culminam em seu projeto do museu,
absolutamente moderno, mas integrado ao sítio antigo.
Costurando
passado e presente estava a “linha legítima da evolução arquitetônica”,
uma história de matriz hegeliana, com espírito de época e evolução,
fundamentada na idéia de verdade da construção. Marginais a esta
linha, além das obras “pseudo-modernas”, estavam o ecletismo-acadêmico
e o movimento neocolonial. Contudo, é preciso observar que estas
obras tiveram de Lúcio Costa um julgamento muito mais rico e matizado
do que o juízo negativo e único que a crítica apressada tenta
hoje lhe atribuir. Se sua responsabilidade para o vazio deixado
pelo Palácio Monroe no Rio de Janeiro não pode ser esquecida e
os adjetivos por ele aplicados às obras marginais à sua “linha”
são nada lisonjeiros, em algumas é reconhecida a qualidade e a
justificativa da preservação. A casa da rua do Russel, de autoria
de Virzi, recebeu parecer positivo quanto ao tombamento, reconhecimento
da preservação tardia e o seguinte adendo: “Excepcional valor
artístico!!” Ao Solar Monjope, exemplo maior do movimento neocolonial
no Rio de Janeiro, ele equivocadamente negou a pertinência do
tombamento pelo IPHAN, por não considerá-lo um monumento nacional,
porém acrescentou que “o tombamento pelo estado não é apenas justificado,
mas se impõe.” Em 1972, ano de sua aposentadoria, ainda fiel à
“disposição da antiga administração do DPHAN de excluir de sua
alçada o ecletismo-acadêmico por considerá-lo fora da linha legítima
da evolução arquitetônica”, manifestou-se contra o tombamento
do conjunto arquitetônico remanescente da ocupação inicial da
Avenida Central (atual Rio Branco), no Rio de Janeiro, mas expressou
que veria “com mágoa a demolição dos prédios em causa.” Aliás,
a polêmica entre Lúcio Costa e Paulo Santos sobre o tombamento
dos remanescentes da Avenida precisa urgentemente ser lida por
aqueles que se recusam a ver os matizes das visões constituintes
da trincheira do modernismo.
Com certeza,
a integridade do julgamento de Lúcio Costa não estava isenta de
contradições e idiossincrasias. Entretanto, falar em contradição
é pouco para um pensamento tão complexo como o seu. Além do fato
de seu juízo ser plenamente atual, verdadeiro antídoto para os
tempos de relativismo como o presente, quando tudo é igualado
e, portanto, rebaixado; quando os ideais foram abandonados, sobrando
apenas os interesses pessoais ou de grupos.
Deve ser ressaltada
a flexibilidade de sua reflexão, sua concordância, em várias ocasiões,
com a preservação de bens incoerentes com seus rigorosos parâmetros,
devido ao que ele próprio denominou como “tombamento in extremis”
— o fato do tombamento ser o único meio legal de impedir a alteração
ou demolição iminente do imóvel.
É preciso
sublinhar, também, que seus pronunciamentos sobre o tombamento
e a intervenção em bens tombados não eram os únicos, nem era decisiva
sua palavra, algo constatável com o simples confronto de suas
posições à situação atual dos processos referidos no livro, cuja
relação foi oportunamente incluída ao final do volume. Linha após
linha, ficam evidentes os limites entre sua ação, a instituição
e a sociedade, o conflito entre os ideais e a realidade. As entrelinhas
também trazem revelações. Esboçam o contexto que os objetos analisados
testemunharam. E revelam a circunstância do parecerista: a escassez
de gasolina em 1943, o ímpeto inflacionário vinte anos depois,
a impossibilidade de questionar uma ação militar nos idos de 1971.
Sobre este último ponto, vale lembrar que Lúcio Costa, apesar
de sua própria observação sobre o fato de estar “impedido” de
interpelar a construção do prédio de apartamentos com treze andares
na área tombada da Fortaleza de São João, no Rio de Janeiro, publicou
em jornal de grande circulação um apelo para que a obra fosse
embargada e parcialmente demolida. A preocupação do organizador
em incluir fotos de época, em sua maioria as que o autor utilizou
para analisar cada caso, conduz à inevitável comparação entre
o estado dos bens tombados então e atualmente. A constatação do
quanto foi descaracterizado o ambiente da vida no Brasil, apesar
de tudo o que foi feito, só valoriza a ação contra a sanha demolidora
dos bens simbólicos da população, pois leva a pensar quão pior
seria a degradação urbana e cultural sem a ação dos órgãos de
preservação.
Dificuldade
era o que não faltava. É constante nos documentos a menção ao
descompasso entre as parcas verbas destinadas ao Patrimônio e
a enorme tarefa da instituição. Mais intermitentes, contudo, são
as referências às pressões sofridas, das mais diferentes ordens
e instâncias (proprietários particulares, prefeituras, estados,
igreja, etc.), às quais nem sempre foi possível resistir. Um bom
exemplo de impotência frente às pressões externas é o caso do
Arco do Teles. Se, de início, Lúcio Costa era contrário a qualquer
construção sobre os prédios tombados, posteriormente, aceitou
um edifício de 8 pavimentos com recuo de 4 metros, fazendo recomendações
para garantir “ao corpo da fachada a necessária profundidade”
e até o croquis inicial para a elaboração do projeto definitivo.
A catedral de Brasília é outro exemplo de mudança de avaliação:
em 1962, com o templo ainda em construção, não via como “tombar
a coisa antes de ela sequer existir”; cinco anos
depois, acabou cedendo.
O precedente
de tombar o bem antes mesmo de sua completa efetivação, ele mesmo
o havia criado, em 1947, ao analisar o caso da igreja da Pampulha,
em Belo Horizonte. O paradoxo da obra inacabada e já se constituindo
numa “ruína precoce”, devido a defeitos de construção e ao abandono
pelas autoridades responsáveis, apesar da repercussão favorável
na crítica nacional e estrangeira, ofereceu a Lúcio Costa, no
seu próprio dizer, “a honra de propor (...) o tombamento preventivo”
do bem, reconhecendo antecipadamente o seu valor excepcional como
monumento nacional e evitando que se arruinasse de vez.
O tombamento
de obras modernas não era para ele um problema, quando incluídas
no que considerava ser a linha evolutiva autêntica da arquitetura.
Moderno é o último monumento analisado por Lúcio Costa, em 1990
— Brasília, capital do país e obra de sua autoria. O que a princípio
pode parecer legislação em causa própria, se mostra o justo oposto,
pois, a seu ver, se tratava “de respeitar Brasília. De
complementar com sensibilidade e lucidez o que ainda lhe falta,
preservando o que de válido sobreviveu.”
Hoje, quando
os ideais que deram origem e animaram o Patrimônio são questionados
por interesses dos mais variados tipos, é mais do que necessário
rever Lúcio Costa. Parafraseando sua última assertiva sobre a
cidade-capital, pode-se afirmar: o patrimônio que primeiro viveu
dentro de sua cabeça, se soltou; já não lhe pertence, pertence
ao Brasil.
Roberto Conduru
é historiador da arte, professor na UERJ, onde dirige atualmente
o Departamento Cultural, e na PUC-Rio. ©
Uma versão menor desse texto
foi publicada em Arcos, Rio de Janeiro, ESDI/UERJ, v. 2, n. único,
1999, p. 144-148. Reprodução proibida sem autorização
do autor. |