| Desenhos
iluminados
resenha de josé
barki
O livro/catálogo
de Emili Donato Folch, com o título Dibujos de arquitectura
/ Dessins d'architecture, é uma coletânea de trabalhos arquitetônicos
onde podemos acompanhar o desenvolvimento e as reflexões projetuais
do arquiteto em um conjunto de trabalhos muito expressivos. A
edição, resulta do esforço conjunto das Edition Poïesis de Toulouse
e Ediciones Serbal de Barcelona em materializar uma obra que reúne
parte essencial da produção profissional do autor. No livro/catálogo
estão contemplados vinte e oito projetos arquitetônicos e seis
projetos urbanísticos, desenvolvidos entre 1976 e 2000, sendo
que deste total quinze foram efetivamente executados. A estrutura
da obra procura fazer o resgate da trajetória individual do arquiteto,
passando pelas primeiras realizações até chegar à obra madura
e consolidada. Filho de um professor de filosofia e escritor e
de uma pintora, Emili Donato obteve seu título de Arquitetura
em 1961, em primeiro lugar, pela Escola de Arquitetura de Barcelona
e em 1972 obteve seu doutorado. Desde 1963 vive e trabalha em
Barcelona.
As qualidades
do livro/catálogo são imensas. De um ponto de vista restrito poderíamos
nos alongar no elogio ao resultado de uma prática, apresentada
através de vários projetos e estudos, que implica em uma arquitetura
com um caráter tectônico sólido e que nos remete a uma saudável
influência de Le Corbusier e Louis Khan. Uma arquitetura discreta
que, com uma grande economia de gestos formais, é ao mesmo tempo
bruta e delicada. Uma arquitetura de qualidade que, como não poderia
deixar de ser, se revela tecnicamente muito bem fundamentada.
Em uma visada
mais abrangente, o livro/catálogo relaciona os âmbitos diversos
da própria prática da concepção do projeto. Uma intensa paixão
pelo risco a mão livre é, talvez, a melhor explicação para esta
obra. Composto por dois ensaios, o registro de uma conversa com
o arquiteto, uma bem organizada e extensa coletânea de desenhos
de concepção de arquitetura e um caderno de desenhos de viagens,
é uma bela e refinada produção editorial que, além de documentar
um conjunto significativo de projetos de grande qualidade, serve
como referência de consulta para jovens arquitetos e estudantes.
É uma verdadeira lição de prática da arquitetura. Isso não se
deve apenas ao modo de exposição didática dos desenhos. Indo além,
o livro/catálogo demonstra a importância, a vitalidade e a beleza
de um tipo de abordagem mais realista para o desenho de concepção.
Para arquitetos
o registro evocativo mais significativo do desenho talvez se dê
na forma de notações gráficas simples e imediatas, principalmente
aqueles apontamentos e notações esquemáticas de estudo inicial.
A quantidade considerável de publicações que tratam dos arquivos
pessoais de arquitetos notáveis e o cuidado especial que, de maneira
geral, os arquitetos manifestam com esse tipo de registro, demonstram
inequivocamente sua importância simbólica.
Por se tratar
de um tipo de registro que combina pequenas ilustrações e esquemas
gráficos de natureza variada, palavras e anotações, números e
operações de cálculo, além de riscos e marcas pessoais, de uma
maneira livre e com poucas convenções, essas notações recebem
uma gama variada de denominações: esquemas, diagramas, esboços,
croquis, entre outras. Michael Graves (1) nomeia esse tipo de
notação como desenho referencial [referential drawing]
e o define como um registro ‘taquigráfico’ ou ‘pictográfico’.
Uma espécie de notação abreviada, simplificada e de natureza fragmentada
com a qual é possível notar e anotar com a mesma rapidez com que
se pensa. Graves compara, de forma até enfática, esta maneira
de representar com a estruturação de um diário ou com uma espécie
de registro de descoberta.
São muitas
as circunstâncias para a criação e apresentação de qualquer material
visual. Em geral, qualquer material visual comunica alguma coisa
e produz algum tipo de expressão que ultrapassa o conteúdo que
representa, tenha esse material uma intenção artística ou seja
meramente casual. Uma representação material não é só um suporte
que indica uma idéia ou remete para algo ausente, se apresenta
por si mesmo como algo real que provoca algum tipo de reflexão.
No campo da arquitetura sempre houve um grande interesse em colecionar,
divulgar e apreciar essas notações gráficas com um tipo de enfoque
mais inspirador e elogioso do que crítico ou analítico. Hoje o
interesse por esse tipo de registro extrapolou o âmbito da arquitetura,
estudiosos de muitas áreas do conhecimento, principalmente aqueles
envolvidos com a Ciência da Cognição, que têm dado atenção considerável
para esse tipo de representação. Este interesse renovado influiu
na maneira com que os pesquisadores de áreas ligadas às Ciências
do Projeto passaram a tratar esses registros gráficos.
Projetar é,
no seu sentido mais abstrato, o processo de produzir e transformar
representações. Para o projetista, toda a seqüência referente
às notações gráficas iniciais desse processo implica em, ao menos,
três relações: uma relação interna com o seu viés particular e
método de trabalho; uma segunda que trata da realidade dos usos,
dos espaços e das possibilidades construtivas, e uma terceira
relação que se refere ao desenvolvimento objetivo de um programa
de desejos e necessidades demandado por um cliente. Nessa sucessão
de estados e de mudanças na produção e transformação de representações,
os projetistas farão uso de um repertório variado de sistemas
gráficos e cada um deles, conforme a aplicação, contendo um determinado
valor simbólico.
Os projetistas
quando realizam desenhos técnicos fazem uso intensivo de instrumentos
e papéis especiais e procuram preservar relações de escala e a
ilusão espacial; quando elaboram as notações gráficas usam somente
a caneta ou lapiseira em qualquer superfície disponível e se concentram
nas proporções e nas qualidades abstratas de um tema plástico-formal.
Croquis, gráficos, diagramas, esboços, esquemas ou até mesmo anotações
manuscritas servem, não só como auxilio à memória, mas, principalmente,
para facilitar a inferência, solução e compreensão. A emergência
da forma arquitetônica decorre da interação entre a ação de produzir
a representação e os processos cognitivos da sua reinterpretação
pelo próprio agente que a produziu. Arquitetos marcam o papel
com os riscos que esboçam na busca de idéias e os inspecionam
continuamente. Nesse processo percebem relações, aspectos e qualidades
que não haviam sido antecipadas e que, por sua vez, indicam possibilidades
de desenvolvimento, revisão e refinamento. Esse ciclo – esboço,
inspeção, interpretação, revisão, esboço… – se desdobra como um
monólogo ou mesmo uma espécie de solilóquio gráfico (2).
Esses tipos
de notação são elaborados sem maiores compromissos com códigos
preestabelecidos e, mesmo empregando uma forma particular e pessoal
de registro, possuem uma espécie de sintaxe; portanto, podem ser
compreendidos, mesmo que alguma dificuldade. No entanto, como
são produzidos com grande liberdade, alguns serão ambíguos e imprecisos.
Por vezes um desenho pode não ficar claro mesmo para quem o elaborou.
Ainda assim, o croqui a mão livre é um tipo de desenho fundamental,
um estimulante criativo que abre caminhos para a descoberta formal.
São desenhos que não podem revelar tudo que está na mente do projetista
porque, naquele momento, nem ele mesmo ainda tem completa noção
do caminho que irá percorrer (3). No seu processo de trabalho
existirão momentos em que não estará preocupado em apresentar
desenhos que venham a ser compreendidos por outros: a própria
incerteza será o centro do processo criativo de concepção (4).
Para Arnheim
(5) esboços e croquis são perceptos visuais tangíveis que, transformados
em novas imagens mentais, realimentam e provocam novos argumentos
formais que, por sua vez, provocam uma reestruturação contínua
de imagens necessariamente difusas. De acordo com Arnheim:
“… [o] processo
criativo da concepção do projeto, sendo uma atividade da mente,
não pode ser diretamente observado. Os esboços, feitos para
os olhos e dirigidos por eles, fazem os planos da concepção
visíveis […] permitem ao observador ou teórico vislumbrar alguns
quadros fixos do fluxo criativo.”
A mão hábil
aliada àquilo que Goldschmidt define como ‘pensamento visual de
projeto’ [visual design thinking] de Emili Donato o possibilita
a empregar o desenho para a descoberta do projeto de maneira exemplar.
Não há como negar que sua expressão gráfica, seca e límpida, é
magnífica em sua estruturação e na sua fluência. Na conversa registrada
no livro/catálogo, Emili Donato argumenta:
“… [o croquis]
penso que este, mais que palavra é como uma caricatura, uma
sombra com vontade totalizadora e unitária com respeito ao objeto
final. Não é parte ou fragmento como o é a palavra em uma frase
ou discurso, mas uma totalidade em si mesmo, ainda balbuciante
porém plena de intençãocomo um aforismo.”
Na obra destacam-se
especialmente a produção de desenhos voltados para a concepção
de edificações. No entanto, Um outro aspecto digno de nota é que
à medida em que avançamos na observação dos desenhos merece menção
especial a habilidade gráfica do autor ao lidar com escalas muito
diferentes do projeto urbano. Uma das grandes dificuldades na
notação gráfica a mão livre é o tratamento expressivo e preciso
das distintas escalas da arquitetura e do urbanismo.
No dois ensaios,
a clareza da escrita e as posições de Stéphane Gruet e de Carles
Martí Artís estabelecem um coroamento coerente que valoriza a
produção gráfica de Emili Donato como um encontro da imaginação
com a matéria e a construção. Na conversa com os arquitetos Armando
Oyarzun Kong e Willy Müller Zappettini, também de forma incisiva,
o arquiteto traça um panorama a respeito de questões filosóficas
e estéticas acerca do desenho que o preocupam e que de certa forma
nortearam sua prática projetual.
É surpreendente,
apesar da sedução e fascínio da computação gráfica, como o desenho
a mão livre de um arquiteto ainda possa despertar tanto interesse.
É bem verdade que os novos recursos computacionais revolucionaram
as formas de representação e, conseqüentemente, modificaram os
paradigmas de projeto, as maneiras de produção de objetos artificiais
e a própria ação na natureza. Contudo, no livro/catálogo Emili
Donato nos resgata uma prática e nos demonstra sua força e vigor
diante das promessas ruidosas promovidas pela mídia da arquitetura
internacional. É importante este frescor, sobretudo num momento
onde os modismos e as novidades se sucedem e os recursos digitais
estão tendo uma aceitação generalizada e, de certa forma, acrítica.
Considerando-se
a grande maioria dos artigos acadêmicos, divulgações especializadas
ou até mesmo as propagandas de divulgação das software houses,
constata-se, que os aplicativos disponíveis e as maneiras de uso
do meio digital ainda não superaram os recursos de representação
tradicionais; grande parte da produção digital atual se dá de
uma maneira paralela, recriando, por meio de mimese, os recursos
técnicos de representação tradicionais. Aparentemente há um ganho
produtivo de tempo, mas além do fato das pranchetas terem cedido
lugar as workstations, não se pode afirmar ainda que tenha
ocorrido mudança fundamental na prática conceptual da arquitetura.
Muitos autores
(6), muito embora sem comprovação empírica significativa, são
unânimes em constatar que apesar do uso intensivo de sistemas
CAD para a manipulação e edição de desenhos métodos convencionais
de desenho são os mais recomendados, tanto para os primeiros riscos
como para desenvolvimento criativo da concepção do projeto.
O exercício
do desenho, como meio e método para estudar e representar o objeto,
constitui-se cada vez mais na única relação concreta e real que
o arquiteto pode manter com a matéria física que deverá criar.
A expressão de síntese e liberdade, a rapidez e intimidade com
que a mão trabalha o lápis sobre o papel e o simples prazer do
risco natural, são, e provavelmente deverão continuar sendo, insubstituíveis
para um grande número de profissionais. O croqui, continua tendo
sua utilidade reconhecida como veículo para a concepção arquitetônica.
Dessa forma,
o livro/catálogo não somente desperta interesses diversificados
como também permite variadas interpretações, cabendo aqui alguns
poucos comentários que não pretendem esgotar sua complexidade
e beleza gráfica.
Notas
1
GRAVES, M. (1977), “The Necessity of Drawing:
Tangible Especulation”. In Architectural Design, Vol. 47, n.º
6. Londres: Academy Editions.
2
GÖEL, V. (1995), Sketches of Thought. Cambridge: MIT Press.
GOLDSCHMIDT, G. (1991), “The Dialectics of Sketching”. In Design
Studies vol. 4, Londres: Elsevier Science.
3
Goldschmidt conjectura que é o próprio ato de esboçar que dará
acesso às varias imagens mentais, figurais ou conceituais, que
potencialmente resultarão em alternativas para o problema de projeto
em questão. Ou seja, para Goldschmidt sem o desenho não se
pode conceber o projeto. A autora argumenta que o ‘pensamento
visual de projeto’ [visual design thinking] é um modo de
raciocínio com uma lógica própria, mas tão racional quanto aquela
que se poderia descrever no contexto de um raciocínio discursivo
convencional.
4
Göel, de acordo com a teoria simbólica de Nelson Goodman, argumenta
que o esboço é uma forma particular de sistema simbólico, que
se caracteriza por ‘densidade’ semântica e sintática e por ‘ambigüidade’.
É por serem ‘densos’ e ‘ambíguos’, ou seja plenos de possibilidades,
que se tornam perfeitamente adequados para a exploração de idéias
e de ‘reinterpretação oportunista’.
5
ARNHEIM, R. (1995), “Sketching and the Psycology of Design”. In
MARGOLIN, M. & BUCHANAN, R. eds., The Idea f Design,
Cambridge: MIT Press.
6
Entre outros: B. Lawson (With Design in Mind, 1994) I. Frazer
e R. Henmi (Envisioning Architecture, 1994), P. Laseau (Graphic
Thinking for Architects and Designers, 1989), E. Robbins (Why
Architects Draw, 1994), D. M. Herbert (Architectural Study Drawings,
1993).
José Barki é
arquiteto do DARF e professor da FAU/UFRJ.
© Uma
versão menor desse texto foi publicada em Arcos, Rio de Janeiro,
ESDI/UERJ, v. 2, n. único, 1999, p. 144-148. Reprodução
proibida sem autorização do autor. |