| Cidade
sportiva: primórdios do esporte no Rio de Janeiro *
resenha
antônio agenor de melo barbosa
O carioca
que passa em frente ao Estádio de Remo da Lagoa talvez não se
dê conta de que as arquibancadas do belo edifício moderno (inaugurado
em 1951), abandonado por conta de uma obra inacabada, outrora
abrigavam cerca de 50 mil fanáticos torcedores em dias de regatas.
Assim como o próprio Estádio, o remo também agoniza no poluído
espelho d´água da Lagoa Rodrigo de Freitas, na Zona Sul do Rio
de Janeiro. Mas nem sempre foi assim e nem mesmo a prática deste
esporte centenário começou nas águas da antiga Socopenupã.
Quanto a esta
tradição esportiva perdida – não apenas a da prática do remo como
também a do encantamento e da rivalidade de centenas de torcedores
nas regatas dominicais basta lembrar que dos atuais grandes
clubes do futebol carioca (sic), Flamengo, Botafogo e Vasco da
Gama surgiram como clubes de regatas, à maneira de outros tantos
sem tradição futebolística como é o caso do Clube de Regatas Guanabara,
que ainda hoje mantém sua sede na enseada de Botafogo, local pioneiro
das competições daquele esporte na cidade, no final do século
XIX.
Entretanto,
não foi o remo a primeira atividade esportiva estruturada no Rio
de Janeiro oitocentista, mas sim o turfe a partir da criação do
Club de Corridas em 1849. Assim, os primórdios do turfe e do remo
constituem o campo de pesquisa de Victor Andrade de Melo no seu
recém-lançado “Cidade Sportiva: Primórdios do Esporte no Rio de
Janeiro”. Originado da sua tese de Doutorado em Educação Física,
o livro narra de maneira precisa e saborosa alguns aspectos do
cotidiano esportivo da cidade na transição do século XIX para
o XX, a nossa “Belle Époque”.
Andrade de
Melo analisa os primórdios do “sport” (até meados do século XX
era esse o termo utilizado) no Rio de Janeiro em seu momento inicial
da construção do que hoje chamamos de Metrópole carioca. Desta
forma, é curioso notar que o turfe se transforma no principal
esporte da cidade por conta de alguns fatores prosaicos tais como:
a presença de grande quantidade de cavalos no espaço urbano, e
o fato de ser um esporte que exigisse pouco esforço físico do
praticante, em geral das classes mais abastadas. Some-se a isto
a forte influência européia de um esporte praticado pelas elites
inglesas e francesas, como citado no próprio manifesto de fundação
de Club de Corridas.
Já no início
do período republicano, o Rio passa a ditar as modas e os costumes
para todo o país e surgem novas relações com a geografia da cidade
(o imenso litoral, as montanhas e, principalmente, as praias,
rios e lagoas), novas maneiras de comportamento social (preocupação
com a saúde e com o padrão estético do corpo) e uma série de novos
hábitos urbanos (a inserção das mulheres na vida sócio-esportiva)
que são rapidamente difundidos por todo o país. Alguns importantes
cronistas da época como Luiz Edmundo e João do Rio acompanham
surpresos estes repentinos impulsos pela prática esportiva. Este
último chega a afirmar que “fazer esporte há 20 anos ainda era
para o Rio uma extravagância. As mães punham as mãos na cabeça,
quando um dos meninos arranjava um altere. Estava perdido. Rapaz
sem um pincenez, sem discutir literatura dos outros, sem cursar
as academias – era um homem estragado.” É importante lembrar que
João do Rio na época ainda não usava o termo academia para designar
os espaços destinados à ginástica e à musculação.
Estruturado
em cinco páreos (assim o autor nomeia os capítulos) mais a introdução
(“É dada a partida”) e conclusão (“Cruza-se a linha de chegada”),
o livro de Andrade de Melo é leitura original e obrigatória para
aqueles que se interessam pelos temas ligados à construção material
e simbólica desta Cidade Maravilhosa.
Antônio Agenor
de Melo Barbosa é Arquiteto / Urbanista, Mestre em Urbanismo (FAU
– UFRJ) e professor de Urbanismo da Faculdade de Arquitetura
e Urbanismo da UFRJ.
© Resenha
publicada no Jornal O Globo, Caderno Prosa & Verso, em 11 de agosto
de 2001. Reprodução proibida. |