| Jardim
América: a arquitetura do primeiro bairro-jardim de São
Paulo *
resenha de carlos
roberto monteiro de andrade
A Cidade de
São Paulo era contemplada há alguns anos atrás com monografias
sobre as histórias de seus bairros, que resultavam de um concurso
promovido anualmente pela Prefeitura Municipal. Creio que hoje
esse concurso não exista mais, infelizmente, apesar da qualidade
de inúmeros trabalhos publicados. Uma das melhores monografias
dessa coleção foi a do historiador Roney Bacelli, sobre o Jardim
América (Jardim América, São Paulo, PMSP, SMC, DPH, 1982).
Embora alguns bairros paulistanos já contassem com pesquisas sérias
a seu respeito, principalmente trabalhos realizados por geógrafos
da Universidade de São Paulo, como Aroldo de Azevedo (veja-se,
por exemplo, Pinheiros. Estudo geográfico de um bairro paulistano,
São Paulo, EDUSP, 1963), o livro de Bacelli, que havia sido sua
dissertação de mestrado, defendida junto ao Departamento de História
da mesma Universidade, em 1982, foi um dos primeiros trabalhos
de história social de um bairro da Capital paulista, tomando como
caso um loteamento com características sociais e urbanísticas
sui generis.
Também Ebe
Reale, em 1982, havia publicado seu livro Brás, Pinheiros,
Jardins: três bairros, três mundos (São Paulo, Pioneira e
EDUSP), onde o Jardim América tem sua história contada segundo
pontos de vista muito próximos aos de Bacelli, mas trabalhando
com algumas fontes documentais específicas, como jornais da época,
que permitiram Reale reconstituir aspectos da vida cotidiana daquele
loteamento. Nicolau Sevcenko, em seu Orfeu Extático na Metrópole.
São Paulo sociedade e cultura nos frementes anos 20, de 1992
(São Paulo, Cia. das Letras), retoma a história do Jardim América,
destacando algumas das formas de sociabilidade então presentes
naqueles anos, diretamente associadas a uma imagem de modernização
do modo de vida e expressões de uma metrópole em gestação.
Mas, ainda
que de passagem, Sevcenko vê a arquitetura do Jardim América com
o mesmo desprezo que outros autores, como Benedito Lima de Toledo
ou Pietro Maria Bardi. Este afirma em um texto de 1964: “Pode-se
observar que quarteirões inteiros da recente arquitetura eclética,
fruto do cruzamento entre o pretensioso e a manipulação dos estilos,
por exemplo, o famoso Jardim América de São Paulo, foram salvos
pelo verde que tem a mágica capacidade de chamar a atenção sobre
si fazendo passar para segundo plano o espetáculo penoso das fachadas
tipo Parthenon com colunas ímpares. Uma sebe, um grupo de vegetação,
uma mancha de flores têm o poder de dar tom a uma casa” (In:Xavier
[org.]; Arquitetura Moderna Brasileira. Depoimento de uma Geração,
São Paulo, ABEA/FVA/PINI, 1987, p.388).
Para Sevcenko
"a arquitetura introduzida pela Cia. City em alguns lotes
a título de modelos de residências era bem menos expressiva (se
comparada ao seu urbanismo), na sua vaga inspiração nos bangalôs
típicos dos administradores ingleses em terras coloniais"
(op.cit., p.127). Já Toledo (Prestes Maia e as origens
do urbanismo moderno, São Paulo, Empresa das Artes, 1996),
por sua vez, vê uniformidade nas casas desenhadas pelos arquitetos
da City, insistindo em uma leitura apoiada em Benevolo que, com
seu olhar modernista dogmático, desqualifica toda arquitetura
tipo cidade-jardim.
Entretanto,
apesar da importância e pioneirismo dos estudos feitos por Bacelli
e Reale, o urbanismo e, principalmente, a arquitetura do Jardim
América ainda estavam por merecer uma pesquisa mais aprofundada.
É isto que foi feito pela pesquisadora do Condephaat, a arquiteta
Silvia Wolff, em sua tese de doutorado desenvolvida junto à Faculdade
de Arquitetura e Urbanismo da USP, sob orientação do Prof. Carlos
Lemos, publicada o ano passado na forma de livro.
Primoroso
visualmente, com uma programação gráfica clara e agradável, reunindo
sem economia fotografias e desenhos de arquitetura, muitos deles
originais, que ilustram o texto com precisão, o livro de Silvia
Wolff revela um cuidadoso levantamento de informações junto, principalmente,
ao Arquivo da Companhia City, empresa imobiliária responsável
pela criação do Jardim América. Ainda que já tivesse sido explorado
por outros pesquisadores anteriormente, como Bacelli, Souza e
raros outros, a redescoberta do Arquivo da City comprova seu valor
inestimável para a história da Cidade de São Paulo, em especial
a história de sua arquitetura e de seu urbanismo. É nesse sentido
que a pesquisadora não apenas aproveita muito bem o material documental,
deixando claro para os leitores seus procedimentos, bem como o
recorte que adota, mas também sistematiza os dados compulsados
de modo a facilitar pesquisas futuras, sugerindo, de certo modo,
que ainda há muito a desvelar no Arquivo da City, o qual – diga-se
de passagem – deveria ser objeto de atenção de órgãos públicos
preocupados com a memória paulistana, e não apenas da empresa
que, ainda hoje, passados 90 anos de sua fundação, é atuante no
mercado.
Mas vamos
ao livro: conforme a autora nos diz em seu Prefácio, seu objetivo
principal foi o "estudo das origens da City e da arquitetura
que se implantou em seus loteamentos”, visando “conhecer sem preconceitos
a arquitetura residencial, quase anônima, da primeira metade deste
século, cuja presença é marcante na paisagem paulistana” (p.12).
De fato, o trabalho em grande parte se debruça sobre a arquitetura
do Jardim América, que foi o primeiro loteamento implantado pela
companhia, bem como também analisa o surgimento da City.
Preocupada
com a arquitetura desprezada do Jardim América, o ponto de partida
da autora é a desatenção do próprio órgão em que trabalha, o CONDEPHAAT,
para com aquela arquitetura que ela caracteriza como eclética.
Reiterando o ponto de vista modernista que salva o traçado urbanístico
e o paisagismo do loteamento, mas repudia sua arquitetura não
moderna, o órgão estadual paulista de defesa e preservação do
patrimônio arquitetônico ainda não reconheceu o valor dessa arquitetura
que a autora tomou como seu principal objeto de estudo.
No primeiro
capítulo Silvia Wolff sistematiza informações básicas sobre as
propostas de cidade-jardim e de subúrbio-jardim, estabelecendo
suas origens e referências históricas. Ao tratar da distinção
entre esses dois conceitos a autora inicia afirmando o vínculo
do urbanismo dos loteamentos da City à proposta de cidade-jardim.
Observa, no entanto, a polissemia do termo e, em particular sua
confusão com a noção de subúrbio-jardim. Mostra como o fato dos
arquitetos Parker e Unwin terem projetado a primeira cidade-jardim
howardiana – Letchworth, e também o primeiro subúrbio-jardim de
amplo sucesso – Hampstead, tem contribuído para tal confusão terminológica
e conceitual.
Com pertinência
ressalta a importância dessa distinção, a qual, vale lembrar,
provocou a ruptura de Howard, Osborn e outros seguidores dogmáticos
– que se mantiveram fiéis à concepção de cidade-jardim enquanto
um tipo ideal, alternativo às metrópoles e grandes cidades –,
com Unwin, Parker e demais projetistas de subúrbios. Mas a autora
deixa de lado uma análise do fundamental trabalho teórico de Unwin
– o Town Planning in Practice, de 1909, ainda que este
conste na bibliografia – no qual esse autor desliza o conceito
de cidade-jardim para subúrbio-jardim. Assim, não enfatiza a cisão
do Movimento pela Cidade-Jardim entre os ortodoxos howardianos
e os pragmáticos alinhados a Unwin.
Ao abordar
a trajetória profissional de Unwin e Parker, ainda no primeiro
capítulo, as lacunas são muitas. Embora tendo recebido poucos
estudos até hoje, as concepções e propostas desses dois arquitetos
ingleses têm merecido uma crescente atenção pela historiografia,
mas Silvia Wolff deixa de lado alguns trabalhos fundamentais para
se reconstituir suas trajetórias profissionais. Menciono os mais
importantes, como o de Walter Creese, The Search for Environment.
The garden city before and after (New Haven, Yale University
Press, 1966), pioneiro no estudo da cidade-jardim e suas ressonâncias
nos EUA e o livro sobre a arquitetura doméstica de Barry Parker,
de Dean Hawkes, Modern Country Homes in England. The Arts and
Crafts Architecture of Barry Parker 1867-1944 (Cambridge,
Cambridge University Press, 1986), contendo os 29 artigos do arquiteto
escritos para a revista americana The Craftsman, entre
abril de 1910 e outubro de 1912. Em tais ensaios Parker formula
uma teoria da arquitetura “arts and crafts”.
Mas vale lembrar
também outros estudos, como o de Standish Meacham, Regaining
Paradise. Englishness and the Early Garden City Movement (New
Haven e Londres, Yale University Press, 1999), Stanley Buder,
Visionaries and Planners: the garden city movement and the
modern community (Oxford e Nova Iorque, Oxford University
Press, 1990), ou Peter Davey, Architecture of the Arts and
Crafts Movement (Nova Iorque, Rizzoli, 1980), que analisam
aspectos diversos da obra de Parker e Unwin, embora todos passando
ao largo da atuação de Parker no Brasil. Deixam assim de situar
a contribuição que a passagem de Parker por São Paulo, ainda que
relativamente curta, teve na sua trajetória profissional. Nesse
sentido o livro de Silvia Wolff, sem dúvida, traz uma contribuição
importante, iluminando inúmeros aspectos da atuação do arquiteto
inglês na capital paulista.
No entanto,
a não apresentação de um estudo mais cuidadoso da arquitetura
doméstica inglesa da segunda metade do século XIX, desenvolvida
a partir das realizações de Philip Webb, aí incluindo a célebre
“Red House” de Wiloliam Morris, não permitirá que a autora analise
as proposições do Movimento “Arts and Crafts” em arquitetura e
artes decorativas, ao qual a arquitetura de Parker irá se filiar.
Em nenhum momento, inclusive, chega a caracterizar a arquitetura
de Parker como sendo “arts and crafts”, corrente a qual a autora
não aborda.
Por outro
lado, não é destacada a importância da passagem de Parker por
Portugal um ano antes de vir para o Brasil, desenvolvendo um plano
de reforma do centro da Cidade do Porto, onde se aproximou da
tradição construtiva lusitana que depois procurará recuperar em
seus projetos de casas para o Jardim América.
No segundo
capítulo é analisada a Cidade de São Paulo nas primeiras décadas
do século XX, seu crescimento e as transformações de sua estrutura
urbana. A autora não deixa de fazer referência aos bons negócios
da City, orientada pelo próprio Diretor de Obras Públicas, Eng.
Victor da Silva Freire, desde a seleção de terrenos para aquisição
pela empresa, passando pela implantação de melhoramentos públicos
que a beneficiassem diretamente, até a modificação da legislação
urbanística municipal, visando adequá-la às exigências da companhia.
Nesse aspecto Barry Parker desempenhou um papel fundamental, ao
apresentar uma justificativa teórica para a redução da largura
mínima das ruas, bem como para a não obrigatoriedade de ruas retas
e um traçado em xadrez, viabilizando seu projeto para o Pacaembu
e a implantação de um novo padrão urbanístico na cidade.
Aqui Silvia
Wolff expõe a atuação da City junto ao poder público, beneficiando-se
de sua influência sobre os técnicos da Prefeitura e também sobre
os legisladores municipais. Mostra as peculiaridades dos regulamentos
da City, mais restritivos que os da Prefeitura e que definiram
o padrão urbanístico da companhia. Porém, no item sobre o urbanismo
em São Paulo seu estudo deixa muito a desejar, pela superficialidade
com que trata as propostas e realizações do período, não esclarecendo
aspectos importantes, como a diferença entre as concepções urbanísticas
de Prestes Maia e Anhaia Mello, ou seus diferentes pontos de vista
em relação à proposta de cidade-jardim.
Ainda nesse
segundo capítulo, seu último item, que aborda os “padrões residenciais
da elite paulistana”, tampouco traz novos dados ou leituras sobre
o tema, embora destaque como se efetivou uma importância cada
vez maior aos jardins nas casas e à arborização dos espaços públicos,
criando-se as condições para a difusão do modelo bairro-jardim
de inspiração anglo-americana.
Vale registrar
que ao abrir esse capítulo a autora observa com pertinência que,
embora os padrões adotados pela City em seus loteamentos paulistanos
tenham sido influenciados pelas “experiências dos subúrbios ajardinados
anglo-americanos e as cidades jardins britânicas” (e aqui se retoma
a confusão entre subúrbio-jardim e cidade-jardim), os ideais utópicos
presentes nesses modelos haviam desaparecido dos bairros-jardins
da City.
Em certa medida
alguns ideais utópicos, ainda que muito remotos, foram utilizados
como chamariz para garantir as boas vendas de um empreendimento
novo e diferenciado, como com os jardins internos, fato aliás
percebido por Parker que insistia na importância desses “atractives”.
A inexistência de um ideal utópico, entretanto, se manifestou
na ausência de uma sociabilidade comunitária efetiva entre os
moradores do Jardim América, da qual é exemplar o episódio do
fim dos jardins internos e seu parcelamento segundo padrões menos
restritivos que os até então aplicados pela empresa.
Esses jardins
surgiram ao longo dos projetos para o Jardim América desde a proposta
de Unwin e depois foram incorporados, com mudanças, na solução
final de Parker. Eram 17 jardins com acessos através de vielas
estreitas pelas ruas da quadra, permitindo as residências nelas
implantadas terem duas frentes. Seu uso nos primeiros anos do
bairro-jardim não é muito claro. Em fotos da época não encontramos
sua utilização para atividades coletivas, pelo contrário, em geral
aparecem quase sempre vazios, com um gramado ao centro e árvores
e um caminho em seu perímetro. Quando a City decide não mais se
responsabilizar pela manutenção dos jardins, a Prefeitura tampouco
se interessa, uma vez que eles eram privados. Revelando total
ausência de laços comunitários, também os moradores não assumem
os jardins e estes são então loteados, numa solução totalmente
favorável à empresa.
Lembremos
que César Daly, em seu A Arquitetura Privada no Século XIX
sob Napoleão III, de 1864 (Paris, Morel, 2 vols.), afirmava:
“Nossa arquitetura suburbana (...) revela o espírito e o caráter
da civilização moderna”. Anunciava então a força de uma arquitetura
que surgia conjugada a uma nova forma urbana, o subúrbio. O tipo
de subúrbio ao qual Daly se referia era aquele voltado exclusivamente
à residência de setores sociais médios ascendentes ou mesmo uma
classe social já enriquecida, do qual o Jardim América da São
Paulo dos anos 1920 seria um bom exemplo.
Esse tipo
de subúrbio, totalmente distinto do subúrbio fabril ou dormitório,
Robert Fishman qualificou como “utopias burguesas”, uma “criação
coletiva da classe média anglo-americana” (Bourgeois Utopias.
The rise and fall of suburbia, Nova iorque, Basic Books Inc.,
1987). Ao contrário das utopias de cunho socialista que marcaram
o século XIX, de caráter fortemente coletivista – como no caso
da proposta de cidade-jardim de Howard –, o subúrbio, aponta Fishman,
“construiu sua visão de comunidade na primazia da propriedade
privada e da família individual”. Acreditamos que o Jardim América
possa também ser pensado como uma utopia burguesa, onde, como
observa em 1938 Lewis Mumford, falando do subúrbio em seu A
Cultura das Cidades: este consistia em “um esforço coletivo
para se viver uma vida privada”.
Os empreendimentos
da City, embora não se apresentassem como subúrbios, sequer como
subúrbios-jardins, mas sim como bairros-jardins, visavam exatamente
constituir em São Paulo a cultura do subúrbio anglo-americano
de que nos fala Fishman ou Kenneth Jackson (Crabgrass Frontier.
The suburbanization of the United States, Nova Iorque e Oxford,
Oxford University Press, 1985).
No terceiro
capítulo são apresentados outros loteamentos da City em São Paulo,
bem como analisado seu padrão urbanístico e as iniciativas pioneiras
de traçados pinturescos em loteamentos residenciais, mencionando
o Jardim da Aclimação, projeto de Ramos de Azevedo. No segundo
item desse capítulo é vista a atuação de Parker em São Paulo,
em especial seu projeto para o Parque Trianon na Avenida Paulista.
Mas nada é dito sobre seu plano de uma avenida-parque circundando
a Cidade, aproveitando os fundos de vale dos rios Tietê e Pinheiros
e articulando os bairros-jardins da City. Se por um lado comenta
os planos de Parker para o Pacaembu e o Alto da Lapa, por outro
lado não faz referência ao loteamento do Anhangabaú como sendo
projeto de Parker. Surpreende a não abordagem desses planos, pois
a eles o arquiteto se referiu nos documentos que escreveu e que
a autora localizou no Arquivo da City, na pasta GG082 (Gerência
Geral 082). Tampouco são mencionados os artigos publicados por
Parker, logo após voltar do Brasil, nas revistas inglesas Garden
Cities and Town Planning e Architects Journal, em que
comenta os trabalhos que desenvolveu em São Paulo. Ficam assim,
aqui também, alguns aspectos da atuação de Parker em São Paulo
que poderiam ter sido mais aprofundados.
No último
item desse terceiro capítulo Silvia Wolff deixa clara a política
de vendas da City, o uso pioneiro que faz de algumas estratégias,
em especial da publicidade. Mas analisa também como a empresa
desenvolveu um esquema de financiamento bastante eficiente, criando
uma identidade comercial própria no mercado imobiliário, garantindo
uma marca de qualidade em seus empreendimentos.
Ao reconstituir
a história da City, trabalho que já havia sido iniciado por Maria
Cláudia Pereira de Souza (O Capital Imobiliário e a Produção
do Espaço Urbano – o caso da Companhia City, São Paulo, FGV,
1988), a investigação de Silvia Wolff acrescenta muito pouco.
Não chega a consultar uma publicação fundamental para a história
da City que é o livro de seu advogado, que também foi diretor
da empresa, Dr. Plinio Barreto. Em Uma temeraria aventura forense
(A questão entre D. Amalia de Moreira Keating e a City of San
Paulo Improvements & Freehold Land Co. Ltd.). Allegações finaes
do advogado desta ultima (São Paulo, E. G. “Revista dos Tribunaes”),
de 1933, temos documentado – do ponto de vista da empresa, claro
– o processo que a viúva de Laveleye, o financista belga que havia
criado a City, moveu contra a própria companhia. Nele encontramos
longos depoimentos de Victor da Silva Freire, Bouvard e outros,
extremamente valiosos para se aprofundar a história dessa que
foi a maior e das mais antigas companhias imobiliárias do País.
No quarto
capítulo, chamado “O Bairro”, o Jardim América é então estudado
de perto, ainda que em menos de 20 páginas. São vistos os projetos
para o Jardim América desde a primeira concepção até a executada
por Parker. Nesse sentido, é preciso lembrar que o estudo pioneiro
a respeito foi o de Hugo Segawa, em seu trabalho de graduação
junto à FAU-USP, de fins de 1979, publicado como livro, com algumas
alterações (Prelúdio da Metrópole. Arquitetura e urbanismo
em São Paulo na passagem do século XIX ao XX , São Paulo,
Ateliê Editorial, 2000), em que apresenta o conjunto dos desenhos
para o Jardim América.
Permanece
a dúvida sobre quem teria sido o autor do primeiro plano para
o Jardim América, cujo traçado à maneira “beaux-arts” permite
que lancemos a hipótese de ter sido Bouvard, consultor de Laveleye
na ocasião, mas sem termos como comprovar nossa especulação. Quanto
ao segundo projeto, é apenas de Unwin e não de Unwin e Parker,
como a autora afirma.
No item seguinte
é analisado o processo de ocupação do Jardim América entre fim
dos anos 1910 e meados da década de 40. São vistas as modificações
realizadas por Parker no plano de Unwin, e também aquelas realizadas
após a volta de Parker para a Inglaterra, como a ampliação do
loteamento até a Rua Chile, o fim dos jardins internos, a criação
de dois clubes e uma igreja e a abertura da Avenida Nove de Julho,
efetivando a ligação do Jardim América com o centro da cidade.
A denominação
bairro para o loteamento Jardim América talvez seja um pouco abusiva.
Reale, em seu livro já mencionado, prefere a denominação “Jardins”,
incluindo além do Jardim América, o Jardim Europa, o Jardim Paulistano,
Vila América e imediações até a Avenida Paulista, para se referir
ao que considera um bairro, à maneira de Pinheiros e Brás, que
também analisa. Creio que chamar o Jardim América de bairro só
faz sentido após sua plena consolidação em fins dos anos 1950.
Como o livro de Silvia Wolff faz um recorte temporal anterior
a esse período, caracterizá-lo como um bairro nas décadas de 20,
30 e 40 parece-nos excessivo, até mesmo devido ao uso quase exclusivamente
residencial do loteamento, que exclui todo tipo de atividade que
pudesse implicar em convívios entre classes distintas, restringindo
o comércio a poucas ruas, proibindo até mesmo escolas. Da mesma
maneira, ao se permitir apenas dois clubes seletos e uma igreja,
que vai se caracterizar por atender parte significativa da elite
católica da Capital, foi reforçado o caráter altamente segregador
do Jardim América, aproximando-o mais de um enclave, ainda que
sem muros visíveis.
No quinto,
último e mais longo capítulo do livro de Silvia Wolff, é estudada
a arquitetura residencial do Jardim América. Esse é, de longe,
o principal mérito do seu trabalho, ao chamar a atenção para uma
arquitetura que a historiografia até então havia deixado de lado,
apesar de sua presença expressiva na configuração da paisagem
paulistana, como ressalta a autora.
No livro esse
é o capítulo mais desenvolvido, revelando uma extensa e meticulosa
pesquisa junto ao Arquivo da City, que permitiu a reconstituição
das características de inúmeros projetos residenciais, sobre os
quais é oferecida uma rica e primorosa documentação iconográfica.
Para Silvia
Wolff a arquitetura de vanguarda foi uma exceção no Jardim América.
Rigorosamente, salvo Brasília, ela é exceção em qualquer cidade
brasileira. A arquitetura residencial analisada pela autora é,
entretanto, uma arquitetura heterogênea, marcada por regionalismos
e hibridismos, contemplando um amplo leque de estilos, mais presentes
nas fachadas do que no agenciamento interno das casas. Nos seus
programas funcionais a autora constata a permanência de um zoneamento
interno que separa as esferas íntima, social e de serviços, mas
vai acompanhando as modificações que vão acontecendo paulatinamente.
Destaca com
acerto a preocupação de Parker em estabelecer uma relação da casa
com a rua, adotando soluções de planta tipo “butterfly”. Outros
arquitetos também vão aproveitar as possibilidades visuais da
esquina em seus projetos, como mostram as casas das páginas 165
e 166. Também não passa desapercebido à autora a valorização que
Parker faz de todas as fachadas, atribuindo aos fundos a mesma
importância que a fachada frontal, um pouco antes, portanto, da
vanguarda modernista européia estar preconizando tal princípio.
Silvia Wolff ainda aponta com clareza a dificuldade de Parker
em incorporar usos dos espaços já consagrados no modo de morar
da burguesia paulistana. Mas a caracterização que faz da casa
que Parker projeta para o gerente da City, Mr. Gurd, como um bangalô
(páginas 178 e 179), parece-nos impertinente. Nesse caso acreditamos
estar exatamente frente uma bela solução “arts and crafts”, contendo
alguns elementos formais clássicos como o arco do pórtico, o ritmo
e a simetria da fachada frontal, com suas amplas venezianas. A
mesma observação vale para a casa do Sr. Mello de Castro, também
lida como um bangalô pela autora e que nos parece mais próxima
a um “cottage” rural, mas que também incorpora um vocabulário
classicista.
A caracterização
feita por Silvia Wolff das primeiras casas térreas do Jardim América
como bangalôs parece-nos imprecisa em sua generalização. Até porque
se apoia no pressuposto de que um bangalô continua sendo um bangalô
mesmo sem suas amplas varandas que o cercam, podendo essas serem
reduzidas “a um simples pórtico que marcava a entrada” (pág. 189).
Entre amplas varandas e um simples pórtico há mais que adaptação,
até porque esta nem se faria necessária no caso das varandas,
que cumpririam no Brasil uma função de controle climático similar
a dos bangalôs originais na Índia ou na Califórnia.
Apesar das
ilustrações excelentes, registramos algumas imprecisões que poderão
esclarecer melhor certos projetos. Assim, os desenhos da página
173 do livro não correspondem à foto da mesma casa na página interior.
A foto da página 172 é a da mesma casa da foto, atual, das páginas
176/177. Constata-se o engano comparando-se as dimensões dos jardins
frontais dessas duas casas (páginas 175 e 176/177), cujas diferenças
são evidentes. Também a localização da casa da página 175 está
equivocada, pois ela é a casa da esquina da Rua Colômbia com a
Avenida Brasil. O desenho da página 181 está invertido. Nota-se
que dentre as casas projetadas por Parker, Silvia Wolff deixa
de comentar duas delas, a da Rua México e a da esquina da Rua
Colômbia com a Avenida Brasil, sendo que esta última sequer é
mencionada pela autora, embora apareça uma foto sua, na página
175, como já assinalamos.
Ainda nesse
último capítulo são vistas as manifestações de uma estética regionalista,
que ia do neocolonial hispanoamericano ao brasileiro, em soluções
híbridas ou simplificadas, que Silvia Wolff mostra com fartos
exemplos. Analisa também a difusão, ainda que com resistências,
a partir dos anos 30, de elementos geometrizantes, bem como o
desaparecimento de elementos decorativos em soluções despojadas
que ecoavam as primeiras realizações modernistas. Outros estilos,
como o normando e o tipo chalé, também são comentados pela autora,
ainda que constituissem exceções.
Embora chame
a atenção para as casas nada vanguardistas projetadas por Warchavchik,
em 1945, Silvia Wolff não faz referência à casa projetada pelo
mesmo arquiteto, aí sim com uma linguagem modernista, no lugar
da primeira casa projetada por Barry Parker.
É de se questionar
por que a autora não abordou também a arquitetura do Jardim Europa,
loteamento contíguo ao Jardim América e que adota seu padrão urbanístico.
Extensão esperta do loteamento da City, o Jardim Europa aproveita
o sucesso do Jardim América e faz uso dos mesmos atrativos paisagísticos,
como um pequeno parque e jardins internos às quadras. Tendo em
vista a proximidade tanto física quanto temporal entre os dois
loteamentos, e sabendo-se que o Jardim Europa também foi um bairro-jardim
com uma arquitetura que é a mesma implantada no Jardim América,
não fica claro por que Silvia Wolff, interessada que estava em
conhecer a arquitetura residencial da primeira metade do século
XX na Cidade de São Paulo, limitou sua análise apenas ao Jardim
América, que termina por dar o título de seu trabalho.
No livro de
Silvia Wolff percebemos que a parte que dedica à arquitetura do
Jardim América é a mais desenvolvida e, sem dúvida, a que traz
importantes contribuições à historiografia da arquitetura doméstica
paulistana. Por outro lado, os demais capítulos tratam de modo
pouco aprofundado seus temas específicos, configurando uma certa
heterogeneidade do livro em seu conjunto.
Como tentamos
apontar, a par de seus méritos, é um trabalho com altos e baixos.
A história do bairro-jardim que a autora nos apresenta não traz
maiores novidades, não contendo interpretação nova em relação
àquelas de Segawa, Bacelli, Reale, Souza, Sevcenko e Toledo, que
trataram de aspectos diversos do Jardim América, deixando entretanto
sua arquitetura de lado, ou repetindo o coro dos modernistas,
desqualificando toda produção arquitetônica eclética, neocolonial,
de estilos ou mesmo “arts and crafts”, acrescentaríamos. A contribuição
principal do trabalho de Silvia Wolff está, porém, em colocar
à tona exatamente essa produção, documentando-a e analisando-a
com cuidado, examinando com detalhes alguns projetos e fazendo
aflorar uma interessante e diversificada arquitetura da “São Paulo
de que gosto”, como confessa.
Carlos Roberto
Monteiro de Andrade coordenador do Programa de Pós Graduação
em Arquitetura e Urbanismo do Departamento de Arquitetura e Urbanismo
da Escola de Engenharia de São Carlos da Universidade de São Paulo.
© Texto
originalmente publicado na revista Espaço & Debates,
Núcleo de Estudos Regionais e Urbanos NERU, nº 42,
ano XVII, São Paulo SP, 2001. Reprodução proibida.
Leia
também "Um
inglês nos trópicos: o Jardim América",
de Hugo
Segawa, sobre o livro de Sílvia Ferreira Santos Wolff
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