| Direito
à preguiça
resenha de antônio
agenor de melo barbosa
“O
Baiano é o único cidadão que sabe realmente o que fazer com
o lazer. Nada”. Millôr Fernandes
O arquiteto
escocês Witold Rybczynski é um escritor sui generis. Nos
seus dois livros anteriores – ambos publicados pela Record em
1996 – já havia brindado seus leitores com reflexões, curiosidades
e instigantes informações repletas de didatismo e fina ironia.
Em “Vida nas Cidades: Expectativas urbanas no Novo Mundo”, publicado
originalmente em 1995, Rybczynski traçou um interessante panorama
a respeito das complexas relações do homem com o espaço urbano,
procurando analisar os diversos fatores condicionantes que, ao
longo da história das cidades, interferiram positiva ou negativamente
nestas relações. Já em “Casa: Pequena história de uma idéia”,
edição original de 1986, o autor esboçou uma breve genealogia
da habitação, tendo como ponto focal as noções (modernas) de intimidade,
privacidade e, sobretudo, conforto.
Filho de poloneses,
nascido em Edimburgo, com passagens e estudos pela Inglaterra
e Canadá, Rybczynski é atualmente professor da faculdade de arquitetura
e urbanismo da Pensilvânia, onde também atua como pesquisador
nas áreas de urbanismo, história e cultura urbana. São, portanto,
nestes assuntos que o autor transita com bastante competência
e conhecimento de causa.
Todavia, se
nos seus livros anteriores Rybczynski refletiu sobre o espaço
– em suas diversas escalas e significados, no âmbito doméstico
da habitação e no âmbito público da cidade –, “Esperando o fim
de semana” é um livro construído a partir de uma curiosa reflexão
sobre o tempo. Ou melhor, sobre uma parte do tempo quando, teoricamente,
estaríamos livres do trabalho e da rotina estressante dos dias
“úteis”. Assim, o autor discorre sobre aqueles dias em que, após
uma longa semana de trabalho, podemos dizer: “eu mereço um bom
descanso”.
Publicado
originalmente em 1991 – sendo modificada, portanto, a cronologia
de publicação dos seus livros no Brasil –, “Esperando o fim de
semana” enumera uma série de curiosidades e aspectos históricos
interessantes que vão, de certa forma, oferecendo ao leitor uma
interessante compilação de informações acerca desses dias outrora
dedicados às questões sagradas, ao lazer descompromissado e aleatório
e, sobretudo, ao ócio (nem sempre criativo), para falar num conceito
do momento, segundo as teorias do sociólogo italiano Domenico
de Masi, que tem sido muito festejado recentemente no Brasil.
Ainda no início
do livro, Rybczynski relata um período de sua vida profissional
quando, apesar de gostar do trabalho desempenhado em um grande
escritório de arquitetura, esperava com muita ansiedade pelo fim
de semana. Pelo livro também nos conta como eram os seus dias
de lazer na infância, como administrava o seu tempo livre e que
fazia tudo o que queria mesmo que não fosse quando queria.
Assim, afirma que dava um jeito de fazer com que a sua (dele)
“diversão coincidisse exatamente com os intervalos semanais que
me eram concedidos. Não que eu achasse que isso fosse uma imposição.
As coisas eram assim mesmo, parecia tão normal que nunca pensei
muito sobre a existência do fim de semana (...) Isso foi há vinte
anos. Nesse meio tempo, o fim de semana ganhou, no mínimo mais
importância e hoje regula muito mais nosso comportamento (...)
Parece que o fim de semana está decidido a ir comendo a semana
(...) Essa nova estrutura do tempo é importante porque afeta não
só quando descansamos, mas ainda como. Para a maioria
das pessoas, a vida toma um ritmo diferente no fim de semana (...)”
É neste ponto
que Rybczynski transporta o leitor para uma reflexão sobre como
tem sido o (bom) aproveitamento dos seus fins de semana nos últimos
tempos. Competições esportivas, excursões turísticas, gincanas
beneficentes, maratonas de compras em shopping centers,
exaustivas sessões de ginástica nas academias da moda, visitas
a museus, parques de diversões, o almoço aos domingos, filas,
engarrafamentos e, sobretudo, atividades intensas, estressantes
e altamente especializadas são as marcas mais comuns dos fins
de semana desta última década. É quando somos tomados pela vontade
e até pela obrigação de fazermos alguma coisa (não interessa o
que seja), não sobrando muito tempo para o não fazer nada, atividade
esta impregnada de preconceitos e estereótipos neste mundo acelerado
em que vivemos. A este fato é o que podemos chamar de estresse
do fim de semana, análogo à cansativa – e não menos estressante
– rotina de trabalho desempenhado nos dias úteis.
É por esta
ótica que, talvez, Rybczynski tenha perdido a grande oportunidade
de – à maneira dos seus livros sobre o espaço – elaborar uma crítica
cultural mais contundente a esta sociedade que espera pelo fim
de semana de uma maneira um tanto quanto ansiosa e passiva. Não
se sabe se esta ansiedade pela chegada do fim de semana é uma
forma de estarmos, de alguma maneira, nos tornando reféns do sábado
e do domingo ou, se é esta ansiedade geral a mola propulsora
de um mecanismo que faz com que nunca deixemos de estar vinculados
ao universo do trabalho, onde imperam conceitos como dinamismo,
competitividade, agilidade e, sobretudo, (muita) produtividade.
É por isso que podemos chamar de sábio aquele cidadão que sabe
que a melhor coisa a fazer nas horas de lazer é não fazer nada.
Antônio Agenor
de Melo Barbosa é arquiteto, mestre em Urbanismo (PROURB / FAU-UFRJ)
e professor de Urbanismo da FAU-UFRJ. |