| Barracão
de zinco para os pobres, ar condicionado para os ricos
resenha de antônio agenor
de melo barbosa
Às vezes involuntariamente,
o mercado editorial brasileiro costuma cometer pequenas injustiças
com determinados autores, sobretudo com relação àqueles que não
possuem obras de interesse comercial imediato. Uma destas inexplicáveis
lacunas agora pode ser preenchida com a recente publicação de
Modernidade e moradia. Habitação coletiva no Rio de Janeiro
nos séculos XIX e XX, livro resultante das recentes pesquisas
realizadas pela Arquiteta e Urbanista Lilian Fessler Vaz, professora
do Programa de Pós-Graduação em Urbanismo da FAU-UFRJ.
No livro em
questão, a autora estuda a evolução do conceito de habitação coletiva
apoiada em uma investigação preciosa a respeito das suas origens,
características e transformações dos seus significados. À luz
de uma perspectiva histórica em que sobressaem aspectos sociológicos,
espaciais e urbano-arquitetônicos deste tipo de moradia, o trabalho
insere-se no campo das recentes pesquisas que abraçam uma espécie
de história social da arquitetura e do urbanismo no Rio de Janeiro.
Com mestrado
em Planejamento Urbano (IPPUR-UFRJ), doutorado em Arquitetura
e Urbanismo (FAU-USP) e pesquisadora do CNPq, Lilian Fessler Vaz
no momento reside na França onde desenvolve e amplia seus estudos
para um pós-doutoramento em Urbanismo. Certamente, os que se dedicam
aos estudos sobre a evolução urbana do Rio de Janeiro têm no trabalho
de Vaz uma importante referência, sobretudo em temas relacionados
à habitação coletiva e à história dos bairros desta “Muy Leal
e Heróica Cidade de São Sebastião”. Para tanto, basta mencionar
que a clássica – e, infelizmente, esgotada – edição de livros
sobre a história urbana de bairros cariocas como Botafogo, Tijuca,
Copacabana e Zona Portuária (Saúde, Gamboa e Santo Cristo), tem
Lilian Vaz como uma das autoras.
Oriundo de
sua tese de doutoramento, este Modernidade e moradia surge
a partir de uma inquietação central da autora que é a busca de
uma compreensão mais detalhada acerca de conceitos como habitação
unifamiliar e habitação coletiva, e de como estas formas distintas
de habitar sofreram transformações diametrais a partir do século
XIX. Já no início do livro, em tom de indagação acadêmica e conceitual
e, ao mesmo tempo, parecendo antecipar uma resposta – ao gosto
de uma sociologia urbana , a autora observa que no Rio de
Janeiro oitocentista, habitação coletiva era a denominação que
se dava às estalagens ou aos cortiços, sendo que este tipo de
habitação era predominantemente ocupada pelas classes proletárias
menos favorecidas.
Assim, na
análise que a autora tece sobre o processo de desenvolvimento
deste tipo de moradia coletiva e proletária – o cortiço ,
surge a verificação de que, com a modernização da cidade ao longo
do século XIX e, principalmente, no século XX, tais formas de
habitação coletiva também foram modernizadas, como convém à lógica
do capital, gerando o que hoje denominamos de edifício de apartamentos.
Cabe reforçar que à medida em que os cortiços desapareciam, formas
mais modernas de habitar surgiam gerando a seguinte constatação
da autora: “...hoje, o principal tipo de moradia do carioca é
o apartamento, e o principal tipo de habitação popular, a favela”.
De certa maneira,
os argumentos coerentes da autora nos levam a perceber como estas
transformações que vão do antigo cortiço símbolos da miséria,
da promiscuidade, da doença e da insalubridade até os modernos
edifícios de apartamentos das classes média e alta que
simbolizam o conforto, a funcionalidade, a ascensão social e até,
em poucos casos, a boa arquitetura , foram operadas tanto
no terreno da sua materialidade arquitetônica e construtiva, quanto
no campo de suas significações, inclusive com a apropriação de
sua força simbólica pela música popular brasileira, conforme a
indicação, incorporada pela autora, do Professor Nestor Goulart
Reis, sobre o clássico samba “Aurora” de autoria do saudoso Mário
Lago e Roberto Roberti de 1941:
“Se você
fosse sincera, ô, ô, ô, ô, Aurora
Veja só que bom que era, ô, ô, ô, ô, Aurora
Um lindo apartamento
Com porteiro e elevador
E ar refrigerado
Para os dias de calor
Madame antes do nome
Você teria agora, ô, ô, ô, ô, Aurora”
Também é oportuno
mencionar que a simples menção – ainda nos dias de hoje – ao termo
“cortiço” vem carregada de uma carga pejorativa que, mesmo ao
senso comum, parece haver uma superioridade semântica qualquer
entre a favela dos nossos dias sabe-se que seus pioneiros
barracões de zinco também foram muito homenageados pela MPB, como
no clássico samba Exaltação à Mangueira de Enéas Brites e Aloizio
da Costa e os cortiços de outrora.
“Mangueira
teu cenário é uma beleza
Que a natureza criou, ô...ô...
O Morro com teus barracões de zinco
Quando amanhece que esplendor!
Todo mundo te conhece ao longe
Pelo som de teus tamborins...”
Da parte dos
edifícios de apartamentos, a autora também observa que ocorreram
mudanças simbólicas fundamentais, especialmente em Copacabana
– “a princesinha do mar” onde o pioneiro “prestígio evocado
pelo ‘arranha-céu’ foi transformado no desprezo carregado pelo
‘espigão’.”
Ainda que
o eixo do livro enfoque a história e as transformações da habitação
coletiva na cidade do Rio de Janeiro (capítulos 1, 2, 3 e 4),
é apenas no quinto e último capítulo que a autora se propõe a
discutir, de maneira mais explícita, o conceito e/ou a idéia de
uma modernidade associada àquelas transformações da habitação
coletiva anteriormente mencionadas. É nesta tarefa deveras complexa
– e reduzida a 25 páginas das 180 totais do livro que Vaz
parece ter perdido não apenas o eixo do seu estudo como também
interrompe uma seqüência coerente de quatro bons capítulos sobre
a habitação coletiva na cidade.
Embora concordemos
com a autora sobre a relevância da discussão e do cruzamento de
conceitos que associem a idéia de modernidade à de uma habitação
ou forma de morar intrinsecamente correlata, assim como ocorre
com outros objetos de estudo como a cidade, a fotografia e a literatura,
parece-nos que, no livro em questão, talvez até pela necessidade
de adequá-lo a um padrão típico de publicação, esta problemática
ficou apenas tangenciada no capítulo 5, intitulado “Modernidade
na cidade e na moradia”. Todavia, é preciso enfatizar que este
detalhe não compromete a relevância e também a originalidade dos
temas expostos pela autora.
Antônio Agenor
de Melo Barbosa é arquiteto e professor de Urbanismo da FAU-UFRJ. |