| Arquitetura
nova: um olhar periférico
resenha
de ricardo rocha
"Por
melhores que sejam os teus pensamentos, por mais dignos e generosos
que eles possam ser, eles são sempre a expressão da classe dominante".
Lenin
"Arquiteto
devia ser o homem que construísse a sua própria obra, se possível
com suas próprias mãos". Vilanova Artigas
Na esteira
da avalanche de publicações sobre arquitetura à disposição no
mercado editorial brasileiro na última década, o recém lançado
Arquitetura Nova de Pedro Fiori Arantes traz novo alento
à reflexão sobre arquitetura no país, ao propor reconstituir o
fio da meada, supostamente "decapitado" com o golpe
de 64, da aproximação dos arquitetos ao "povo".
Como sugere
o subtítulo - Sérgio Ferro, Flávio Império e Rodrigo
Lefèvre, de Artigas aos mutirões - o livro (re)conta na forma
de ensaios em seqüência cronológica (mas não linear, embora padecendo
de um certo evolucionismo) a história concisa daquilo
que Roberto Schwarz chama na argüição/ posfácio do "impasse
da arquitetura brasileira, de esquerda e moderna, diante das questões
da habitação popular". Centrando-se em São Paulo, a Arquitetura
Nova de Ferro, Império e Lefèvre com sua pedagogia do canteiro
é usada como alavanca (teórica), numa crítica às posições
(históricas) de Artigas junto ao PCB resumidas em sua pedagogia
do desenho, para se atingir a "vanguarda" da atuação
dos arquitetos junto aos movimentos de moradia dos mutirões autogeridos.
Como nas palavras
de Carlos Marighela, ao qual Ferro e Lefèvre seguiram em 67 no
rompimento com o PCB, "o que nos fez crescer foi a ação:
única e exclusivamente a ação revolucionária. Trabalhando com
o princípio de que a ação cria a vanguarda, nos lançamos à guerra
de guerrilha urbana sem termos ainda dado um nome a ela",
os novos arquitetos, sem necessariamente ter consciência da "continuidade
histórica" alinhavada pelo autor, inverteram os desígnios
da arquitetura moderna progressista brasileira e foram ver o que
os movimentos populares organizados (1) (em oposição a indefinição
da palavra "povo") podem ensinar aos arquitetos.
Mas pegando
carona no posfácio/ argüição do texto, ainda que a cisão trabalho/
capital, reverberando outras como técnica/ arte, canteiro/ desenho,
etc, desapareça no mutirão autogerido - e é bom não esquecer o
papel do Estado no financiamento dessas iniciativas - "não
seria razoável imaginar que no caso a cisão apenas mudou de lugar,
e que ela agora está na distância ente o movimento de moradia
e o conjunto dos meios técnicos da civilização contemporânea?"
Voltando a
um dos pontos altos do livro, o potencial crítico (e de emancipação)
da casa Elza Berquó é mais complexo, contraditório e dialético
(brasileiro?) do que parece: se é a estrutura arcaica dos troncos
que sustenta a modernidade da cobertura em concreto - numa convivência
moderno/ arcaico que poderia ser mais perversa do que irônica
se lembrarmos de Capitlismo e Escravidão no Brasil Meridional
de Fernando Henrique Cardoso(!) - é a presença do neoprene,
um material "moderno", que permite que a carga da cobertura
se distribua pela "coluna" chegando às fundações. Como
se pode conjeturar a partir desse viés, nem na dúvida Artigas
deixa de acreditar na técnica - na técnica não na Tecnologia,
como frisa meu amigo Fábio Müller em relação à Paulo Mendes da
Rocha - como que mostrando, alternativamente, que o impossível
é possível.
Artigas dizia
que havia assimilado soluções dessa ordem depois de uma visita
à China. E é interessante retomar algumas colocações de Julio
Katinsky sobre as barragens chinesas, uma vez que a expansão do
canteiro autogerido para além da produção habitacional é problemática.
Comparando a experiência no Brasil e na China, os únicos países
que possuem uma "tecnologia" de barragem de terra, que,
não sendo muito confiável em termos de segurança, é vantajosa
e perigosamente barata, ele lembra que embora cuidem da mecânica
do solo do mesmo jeito que nós aqui, lá eles "fizeram
as barragens na cacunda do chinês". Um brutal
investimento (a expressão, se a observação não for exageradamente
cruel, não podia ser mais exata) de trabalho humano, que nós "poupamos"
comprando máquinas dos Estados Unidos. O que é melhor então, explorar
a população em mutirão segundo o modo asiático de produção?
Importar máquinas a um custo econômico e social altíssimo? Ou
desenvolver tecnologias (quem sabe alternativas para não cair
numa contradição nos termos) em solo nacional?
A "cooptação"
de Artigas (e Lefèvre) - e o que dizer das pinturas de Sérgio
Ferro em galerias e eventos como o 1o São Paulo Arte?
- tomam, assim, outra dimensão. Isto na medida em que, talvez,
o projeto do Mestre visasse não só educar a burguesia mas
também preparar as massas, através da qualidade de seus
prédios escolares, rodoviárias, hospitais, etc. Como enfatiza
Pierre Bourdier, é bom não esquecer a capacidade persuasiva da
ordem ordinária das coisas, principalmente numa sociedade
de cultura visual de massas, onde a recepção de uma obra
não pode ser colocada em segundo plano nem mesmo em relação a
sua produção: mesmo imaginando que as relações de produção
no canteiro em tais construções não fossem as melhores (e pelo
que o próprio autor nos conta não havia muita diferença entre
os canteiros das obras de Artigas e da Arquitetura Nova) não seriam
- ainda (dialeticamente, quem sabe) que o cliente fosse
o regime militar - meios de antecipação para a realização
de uma sociedade mais justa?
Nota
1
E é
preciso não descuidar da proximidade entre organização, corporativismo
e militarização. Ver M, O Vampiro de Dusseldorf de
Fritz Lang, o qual mostra que na Alemanha pré-nazista até os mendigos
eram organizados.
Ricardo
Rocha é arquiteto e urbanista pela UFES (Vitória - ES) e professor
do Departamento de Arquitetura da UFSM, Santa Maria RS |